A Irlanda e a troika Danny McCoy: "A relação trabalhador-empresa está muito bem"

Danny McCoy: "A relação trabalhador-empresa está muito bem"

"Todos precisam de um emprego. Todos precisam de sair disto juntos", sublinha Danny McCoy, CEO da Irish Business and Employers Confederation.
Danny McCoy: "A relação trabalhador-empresa está muito bem"
Rui Peres Jorge 30 de abril de 2013 às 00:06

Danny McCoy é o CEO da Irish Business and Employers Confederation, a maior confederação de empresários do país, contando com 7.500 associados que representam 70% dos empregos na Irlanda. McCoy, com um passado como economista, trabalhou em várias universidades e no banco central. Diz por isso conhecer os homens que fazem as análises da troika: são pessimistas, diz, considerando que não percebem o mundo real das empresas. O representante dos patrões foi o homem mais optimista entre as várias conversas em Dublin e diz porquê: é preciso acreditar no crescimento.

 

Qual é o principal problema da economia irlandesa?


Não sei se há um problema principal. Este é o novo normal. O que é anormal são alguns números que resultam do passado. O défice de 7,5% é um valor elevado quando olhamos da perspectiva de 2005, mas a economia irlandesa está num momento forte, a regressar ao crescimento e ao reequilíbrio  da economia. A nossa balança de pagamentos está com um grande excedente de cerca de 5% do PIB. As nossas exportações regressaram a níveis recorde. O nosso desemprego é muito elevado, mas não é 25%, é de 14,5%. A economia irlandesa deu a volta e isso já aconteceu por volta de 2009. É importante olhar para economia real separada das finanças públicas e do tema bancário.

 

Nos relatórios da troika, nomeadamente do FMI, a descrição sobre o endividamento da economia e em particular das PME, em cerca de 40% do PIB e metade disso em imobiliário, é grande. Este é um problema grave?


É preciso distinguir entre stock e fluxos. Muitos dos temas têm a ver com “stocks”, mas é preciso olhar para os fluxos. E é claro que estão ligados, mas o fluxo é bastante bom. A economia regressou a um novo normal, os bancos estão a emprestar. Há bancos que estão presos à narrativa de não emprestar ao imobiliário. Mas nem todo o imobiliário é mau neste momento. E nem todo o software é bom.

 

O crédito total continua a cair...


Sim, mas esse é em grande parte um problema de falta de procura. De procura efectiva: muitas empresas dizem que procuram crédito, mas muitos desses negócios são maus, falharam o salto tecnológico. Porque é os bancos hão-de financiar todos os negócios. A globalização e o avanço tecnológico foi muito significativo nos últimos cinco anos e os negócios têm de ser adaptar.

 

Parecem ter uma economia a dois níveis entre PME e multinacionais. Como é que funciona?


O nosso sistema de impostos de 12,5% aplica-se a toda as empresas, multinacionais, PME, residentes e estrangeiras. Empresas são empresas e por isso têm as mesmas questões de competitividade, por custos e produtividade. O problema para muitas das empresas é a falta de procura interna. As PME têm um problema não tanto de custos, mas de procura. E isso resulta do facto das famílias irlandesas terem o dinheiro, mas não terem a confiança para o gastar. A nossa taxa de poupança é de 12% - as pessoas estão a poupar-se aos seus próprios empregos. Temos de quebrar esse ciclo.

 

É mais um problema de poupanças do que de dívida?


Na minha perspectiva sim. É mais um problema de falta de procura.

 

Os objectivos que estão a ser implementados para os bancos lidarem com os créditos mal parados  das PME vão funcionar?


Eu concordo com as metas, porque o que é mensurável acontece. Agora, se os objectivos têm credibilidade é outra coisa. Os negócios só vão sobreviver quando a procura regressar. Até se partir a parte psicológica sobre a procura, não haverá solução. Confiança é o que é preciso.

 

A economia irlandesa está num momento forte, a regressar ao crescimento e ao reequilíbrio  da economia.

Como é que consegue essa procura interna mais forte?


É lidar com os factos. Dizer que a austeridade acabou, que a Irlanda está no seu trajectória para atingir o objectivo de défice de 3% em 2015 e para um excedente anos depois. A Irlanda vai estabilizar a sua dívida porque a taxa de crescimento é superior à taxa de juro. Não há nada internamente que possa mudar isto. O sector privado caiu no buraco em 2009 e já saiu, deu a volta e começou a recuperar antes de Portugal, da Grécia, de Itália. Isto muito a ver com o facto desta ser uma sociedade capitalista muito estável.

 

Porquê?

A percepção em termos de direitos de propriedade dos países do mediterrâneo, Portugal, Espanha, Grécia tem a ver com socialismo. A Irlanda é uma democracia estável, com um sistema legal muito sólido há muito tempo. Tem quase 60 anos como receptor de IDE sem nunca confiscar - esta é uma grande vantagem de ser o primeiro. A proximidade de Londres e língua são também muito importante.

 

Crises tão longas, com desemprego a subir e investimento a cair por tantos anos, não dificultam o potencial de crescimento da economia?


Nós não acreditamos que o potencial de crescimento da economia seja mau. Acreditamos que potencial de crescimento da economia é de 3% a 4% em volume ao ano pelos próximos 15 anos.

 

Baseado em quê?


Um é um crescimento forte da produtividade e aumento da oferta de trabalho com elevadas qualificações. A Irlanda tem stocks muito fortes em infraestruturas física, em capital humano e em capital financeiro que estão subutilizadas. Muitas pessoas olham para a Irlanda e pensam que já atingiu o topo do PIB por habitante na Zona Euro. Mas entre as 230 regiões da Europa a Irlanda está em 35º lugar: há muito ainda para evoluir. Temos um sistema de educação muito forte e também por isso o desemprego aqui é muito maleável e ajustável. As pessoas podem ser rapidamente treinadas. Na estrutura física, há os efeitos de rede da banda larga e do sistema de autoestradas. A Irlanda está globalizada. Muitas pessoas vêem a Irlanda como um grande centro de atracção de investimento estrangeiro. E é, mas também tem muitas empresas multinacionais indígenas, como a Ryanair, a CRH, Smurfit Kappa, Kerry Group.

 

A sua descrição é mais optimista do que os relatórios da troika que, por exemplo, não vêm crescimento acima de 2%, esperam desemprego elevado por muitos anos. A troika está excessivamente pessimista?


Sim, está. Dei aulas de macroeconomia em Oxford, na University College, trabalhei no banco central, estive em reuniões de artigo IV do FMI e contribui para relatórios da OCDE. Eu conheço a linguagem, eu conheço as pessoas que fazem estes relatórios: eles nunca se encontram com uma empresa, não conhecem um negócio. Quando o FMI veio no final de 2010 eles acreditavam que deveríamos cortar salários a toda a gente. Nós dissemos que um quarto dos nossos membros iria aumentar os salários em 2% e eles disseram que estávamos perdidos. Porquê? Porque não perceberam que esta é uma economia globalizada, que tem diferentes sectores, que estão em diferentes momentos. No final de 2010 a economia estava quase há quatro anos em ajustamento, os nossos custos unitários já tinham ajustado, e ganhámos quotas de mercado.

 

O sector privado caiu no buraco em 2009 e já saiu, deu a volta e começou a recuperar antes de Portugal, da Grécia, de Itália. Isto muito a ver com o facto desta ser uma sociedade capitalista muito estável

O Governo partilha a visão mais pessimista da troika?


O Governo está envolvido num programa de perdão de dívida. Não de perdão total, mas de alívio do fardo da dívida. E por isso está a defender que a  dívida está a deprimir a economia. há verdade nisso, mas o crescimento está a aparecer novamente.

 

Como avalia a actual do Governo?


O Governo tem tido sorte. A bola tem ficado do lado deles. A austeridade está a afectar toda a Zona Euro e por isso para o seu objectivo de alívio de dívida é mais fácil quando toda a gente está a sentir a dor. Esta situação na Europa prejudica o crescimento da economia – se a Europa estivesse em forma, a Irlanda estaria a crescer bem cima do seu potencial.

 

Se o País se candidatar a um programa de apoio cautelar pós Dezembro de 2013, com condicionalidade, isso é um problema?


Isso será mais depressivo por si só. Mas poderão os irlandeses pagar a austeridade? Sim, podem. Querem fazê-lo? Não, não querem. Acreditam que parte diste custo deveria ser  partilhado com a Europa? Sim, acreditam. Acreditam nisso apenas porque não querem pagar? Não, os irlandeses acreditam mesmo que o que fizeram no início desta crise foi assumir as dívidas dos bancos que tinham as contrapartes na Alemanha e noutros países. E ao assumirem a dívida aliviaram o contágio.

 

Em última instância o sucesso do Governo só será atingido se conseguir essa negociação?

 

Sim, torna as coisas mais fáceis. Mas novamente o Governo pesa apenas 15% da economia. O sector público tem apenas 15% da mão-de-obra: há 300 mil pessoas afectadas pelos acordos da função publica. Mas há dois milhões a trabalhar no sector privado. 

 

As pessoas estão mais cépticas relativamente ao euro?


Sim, claro. Não faz sentido sair do euro para nós, mas há fadiga da austeridade. A austeridade tem de acabar. Nós fomos grande adeptos da austeridade em 2007, 2008, 2009 e 2010. Em 2011 começamos a dizer que é preciso garantir que há tanto de crescimento como de austeridade. Em 2012 afirmámos que orientação tem de se pelo crescimento. E neste momento não acreditamos em mais impostos, pelo contrário, precisamos de baixar impostos.

A percepção em termos de direitos de propriedade dos países do mediterrâneo, Portugal, Espanha, Grécia tem a ver com socialismo.

 

O Governo tem uma dívida de cerca de 120% do PIB. Reduzir estes valores significam austeridade por muitos anos, ou não?


Não necessariamente. Se a taxa de juro estiver nos 3% a 4% então a dívida é sustentável se a taxa de crescimento nominal for de 4%: 2% de inflação e 2% reais. Nós acreditamos que nosso potencial é maior. Assim que cheguemos ao nosso crescimento potencial – que nós acreditamos que é mais alto que a maioria da estimativas – a sustentabilidade torna-se muito fácil. Se estabilizar a dívida, em 15 anos duplicará a dimensão da economia e reduzirá para metade o rácio de dívida. Eu sei que é fácil dizer, mas a questão é que temos de acreditar no crescimento. E é por isso que é necessário favorecer o crescimento à austeridade.

 

Acha que a Europa está preparada para isso?


Não falo da Europa, falo da Irlanda. A Irlanda tem de o conseguir por si.

 

E é possível fazê-lo dentro de um programa da troika?


Nós vamos sair do programa no final deste ano.

 

Se o país se candidatar a apoio adicional com condicionalidade?


Não penso que isso vá acontecer. Se isso acontecer, então é porque aconteceu alguma coisa muito maior na Europa, uma catástrofe. Não vejo quaisquer  factores específicos à Irlanda que a poderão afastar da actual trajectória.

 

O desemprego disparou, os salários ajustaram, como é a relação entre trabalhadores e empresas?

 

É boa.

 

Como é isso?


Necessidade. Todos precisam de um emprego. Todos precisam de sair disto juntos. Tivemos imensa flexibilidade dos trabalhadores, eles têm fadiga, mas os empregadores também. Os empregadores precisam de encontrar a procura e a recuperação dos preços e os trabalhadores precisam de ver aumentos salariais. Neste momento as coisas estão muito bem.

 

Os irlandeses são de direita, pequenos burgueses, católicos , capitalistas e individualistas. No Ocidente há tendências para achar que estas são palavras depreciativas. Eu coloca-as como neutras. É isso que os irlandeses são.
 

A Irlanda foi vista como um exemplo de concertação social. Há relatos de alguma erosão nessa frente. Sente isso?


Nós já não fazemos negociações salariais centralizadas pois os sectores estão em fases muito diferentes. A procura interna está deprimida, mas o sector exportador nunca esteve tão bem. Agora temos negociações ao nível das empresas e a esse nível a relação é muito boa. Com os sindicatos também. Mas, muito importante: não voltaremos à negociação centralizada.

 

Na Irlanda há poucas greves e manifestações. Porquê?


É factor sociológico. Os irlandeses são de direita, pequenos burgueses, católicos , capitalistas e individualistas. No Ocidente há tendências para achar que estas são palavras depreciativas. Eu coloca-as como neutras. É isso que os irlandeses são. Os empresários e os agricultores são detentores de capital. Não fazem socialismo. Historicamente os agricultores juntam-se para a colheita, mas partilham “inputs”, nunca, nunca partilham “outputs”. Não há socialismo, não chegamos ao céu colectivamente, chegamos ao céu por nós próprios. E por pequenos burgueses significa que utilizam o sistema educativo para mudar de classe, não para abrir a mente.




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