A Irlanda e a troika Tom Flavin: "As pessoas estão muito, muito irritadas" com os bancos

Tom Flavin: "As pessoas estão muito, muito irritadas" com os bancos

Sistema financeiro ainda lida com desafios enormes nas carteiras de crédito. O problema está para durar, diz Tom Flavin, professor de Finanças no departamento de Economia da National University of Ireland.
Tom Flavin: "As pessoas estão muito, muito irritadas" com os bancos
Rui Peres Jorge 02 de maio de 2013 às 00:01

Tom Flavin é professor de Finanças no departamento de Economia da National University of Ireland, um dos três principais departamentos da Irlanda. Especialista em contágio e choques financeiros e na relação entre a macroeconomia e os mercados de capitais, o professor irlandês analisa o actual momento financeiro e económico do seu país.  

 

Cinco a seis anos depois da bolha rebentar, há ainda muito trabalho legislativo a ser feito [nomeadamente nas leis de insolvências e execuções de hipotecas]. Porquê?

 

O maior problema que os bancos enfrentaram inicialmente foram os empréstimos em larga escala a grandes investidores em imobiliário. A NAMA [“National Asset Management Agency”, o “banco mau” do sistema financeiro] foi criada para ficar com os activos dos bancos e tentar recuperá-los por um longo período de tempo, libertando-lhes assim os balanços. Esse mecanismo aplicou-se apenas a créditos acima de determinado valor. Muita outra dívida privada, de famílias e empresas, tem ainda de ser trabalhada.

 

A NAMA tem tido sucesso nessa tarefa?

 

Até agora tem sido relativamente bem sucedida. O que acontecerá no futuro é difícil de antever, pois há muitos activos ainda em carteira e a existência da NAMA está prevista para cerca de dez anos. Os lucros dos primeiros anos devem-se muito ao facto de estar a vender os melhores activos primeiro. O que vão fazer com complexos residenciais vazios na costa ocidental da Irlanda está ainda por ver...

 

O trabalho de lidar com hipotecas e outras dívidas foi deliberadamente adiado?

 

A ideia foi olhar para o crédito hipotecário e às PME só depois de lidar com os créditos aos grandes investidores em imobiliário. Em tempos normais os bancos procurariam executar as hipotecas e tomar conta das casas para as venderem. Mas neste contexto não o querem fazer, pois não as conseguem vender. Quando falo com pessoas dos EUA ou do Reino Unido penso que não se apercebem que fora de Dublin há muito, muito poucas transacções. Não é como nos EUA, onde se pode pegar numa casa e vendê-la por metade ou 35% do seu valor inicial. Aqui não se conseguiria vender pura e simplesmente.

 

A associação de bancos diz que está confiante que os bancos conseguirão chegar a acordo com os clientes...

 

Há uns dias alguém da indústria dizia-me que para os bancos a única diferença entre executar ou não uma hipoteca é que fazendo-o passam a pagar os custos de segurança e manutenção. A peso das hipotecas com valor negativo [valor da casa inferior ao crédito] continua elevado. E apesar de haver alguma legislação para melhorar ainda não é claro o que vai acontecer.

 

Vai ser criada uma agência de insolvência pública para lidar com os problemas de insolvência dos particulares...

 

Sim, mas penso que essa solução será aplicada a poucos casos, pois os critérios são muito exigentes. As leis de insolvência também foram mudadas para tornar um pouco mais fácil o processo.

 

Cerca de 25% dos créditos estão em incumprimento. E 16% dos créditos hipotecários têm dívidas em atraso há mais de 90 dias. São perdas elevadas ainda por assumir...

 

Sim. Esse processo só está a começar. O banco central está a fazer mais pressão e alguns bancos já estão avançar, uns mais que outros.

 

Acha que o nível de execução e de tomada de controlo de casas poderá ainda assim aumentar de forma significativa?

 

Temos um grande excesso de oferta de casas. Por cinco a seis anos os bancos ainda enfrentarão os problemas de agora: o que fazer com as casas que têm nos seus balanços.  A não ser que nesse período alguém se chegue à frente e avance com perdões de dívida.

 

Os perdões de dívida criariam novas necessidades de recapitalização aos bancos. Há estimativas?

 

Não há uma estimativa clara, pelo menos pública. O banco central terá as suas. Isso poderá ajudar a explicar porque é que os bancos também não se preocuparam em reavaliar os empréstimos pelo seu valor actual.

 

As pessoas estão zangadas com os bancos?

 

Sim. Claro. Os bancos estão a tentar aumentar margens e as taxas que cobram, o que irrita muitos as pessoas – isto acontece depois dos contribuintes terem entrado com muito dinheiro para a recapitalização. Tivemos por exemplo mudanças de juros pelo BCE que não foram repercutidas aos clientes. Muitos bancos aumentaram as taxas variáveis. As pessoas estão muito, muito irritadas.

 

Quanto é que o sector financeiro diminuiu com a crise?

 

É uma diminuição dramática. Se usar os preços das acções como um indicador perderam talvez 95% do seu valor. Em meio de 2007 a Alliance and Leicester, no Reino Unido, tentou comprar o Banco da Irlanda e estava disposto a pagar cerca de 14 euros por acção. A Allied Irish por essa altura estava avaliada em cerca de 20 euros por acção. Hoje valem 8 a 10 cêntimos, talvez 12 cêntimos, num dia bom. Olhar para o valor dos balanços também não vale de muito pois o valor do balanço dos empréstimos está muito distante do valor real.

 

Quanto do sector financeiro é detido pelo Governo?

 

Embora o Governo não admita diria que, com a excepção do Banco da Irlanda, o Estado tem a maioria do capital através das recapitalizações em todos os principais bancos nacionais.

 

O Governo diz que colocará mais um cêntimo nos bancos?

 

Ninguém acredita nisso. Nós já ouvimos muito essas garantias. Foi dito sobre o Anglo Irish: as estimativas iniciais de recapitalização eram talvez de uns 7 mil milhões e acabaram, se é que acabaram, em cerca de 32 mil milhões. Ao todo no sistema financeiro foram injectados mais de 60 mil milhões de euros.

 

Nos dois bancos principais que o Governo entende que poderão ser viáveis foram injectados cerca de 30 mil milhões de euros que agora valem pouco mais de 8 mil milhões. O Governo quer agora que se proceda a uma recapitalização retroactiva pelos fundos europeus e por um valor superiores aos 8 mil milhões. Como é o ESM poderá aceitar isso?

 

Penso que o Governo se está a tentar convencer a si próprio. Foi o nosso governo que decidiu transforma dívida privada em dívida publica. Tendo isso presente é difícil convencer a Europa que deve entrar agora por um valor diferente do valor de mercado.

 

Esta ressaca de dívida é um fardo grande sobre a economia e sobre a sua recuperação?

 

No sector privado, o crédito hipotecário está ainda a ser um fardo significativo. Muitos pequenas empresas tinham também investido muito dinheiro em edifícios e instalações que agora têm valores muito mais baixos. E muitas pessoas que viram o investimento em imobiliário como uma pensão, agora enfrentam o dilema de pagar por uma coisa que tem um valor negativo [dívidas superiores aos valores das casas] ou poupar para a pensão. O problema de dívida será muito difícil de resolver sem algum nível de perdão de dívida. As pessoas não conseguirão pagar.

 

A economia poderá crescer para fora desta crise nos próximos dois ou três anos?

 

Há muito pouco que possamos fazer por nós. As coisas estão a ir mais ou menos mas isso deve-se completamente a factores que não controlamos. Todo o nosso crescimento se deve a exportações. A procura interna caiu e continuará a cair enquanto os salários estiverem a cair, e os impostos a subir. A nossa saúde depende da economia mundial. E se isso não melhorar depressa é muito difícil perceber como é que poderemos continuar a crescer. O grande problema para a Irlanda é mesmo esse: o nosso destino está nas mãos de outros.

 

O governo tem um discursos centrada no crescimento através de formas de financiamento alternativas aos bancos, aproveitamento de fundos do banco europeu de investimento, de PPP. Há um movimento neste sentido?

 

No terreno não há sinais de que algo esteja a acontecer. Há algumas PPP para construção de infra-estuturas, mas estas eram coisas que já estavam pensadas.

 

Acha que Irlanda conseguirá chegar ao acesso total aos mercados?

 

Penso que sim, simplesmente pela percepção internacional. Temos “ratings” ainda baixos e devemos pagar um prémio, mas creio que será possível. A Irlanda é como o homem que anda na corda de equilibrismo no circo. Nós estamos a conseguir, mas há elementos que podem mexer nessa corda. Problemas tipo Chipre ou alguma coisa com Espanha e tudo pode ficar a perder. Creio que estamos a fazer o melhor que podemos, talvez não seja tão rápido como desejável – mas penso que o maior problema será a evolução da economia global.

 

Se existir um acordo para um novo apoio condicional que implique um novo memorando isso seria um problema?

 

As pessoas aceitariam. Não é que as pessoas gostem da troika, mas talvez aqui tenha sido o sítio onde foram melhores recebidos. Na Irlanda há uma grande desconfiança dos políticos e portanto tudo o que surja como disciplina sobre eles é visto como não sendo assim tão mau.

 

Não há um grande sentimento anti-troika?

 

Não, não há. Numa fase houve um sentimento negativo relativo à Alemanha, no sentido em que em o resgate era visto como uma forma de pagar à Alemanha. Isso sarou um pouco com alguns sinais de retoma e com facto de termos conseguido algumas concessões da Europa.

 

Não há também um sentimento mau em relação ao euro?

 

Não. Há uma percepção de que o euro foi bom para nós. Houve muito investimento estrangeiro, muitas empresas que procuraram vir para a Europa e que encontraram na Irlanda a melhor região a falar inglês, dentro do euro e com impostos baixos.

 

As pessoas irritam-se com o facto das empresas pagarem poucos impostos?

 

Não. Os três grandes partidos defendem essas taxas e recebem 60% a 65% dos votos. Não é que aumentar de 12,5% para 15% fizesse necessariamente muita diferença, mas ninguém quer correr o risco. Se perdêssemos as grandes empresa de computação ou farmacêutica estaríamos com menos emprego e problemas maiores.

 

Quão severo foi o impacto no sector público?

 

Diria que somando tudo, os trabalhadores da Função Pública levarão para casa menos 20% a 22% do que antes da crise.

 

Os irlandeses não protestam muito. Porquê?

 

Tivemos um “boom” tão grande que as pessoas, apesar dos problemas graves, ainda se lembram de como foi. Muitos, ainda assim, estão melhor do que estavam. E há também a consciencialização de que não podemos viver com dinheiro emprestado. Aceitámos muito cortes de forma civilizada, sem grande contestação. O que está a acontecer, e é uma resposta típica irlandesa, é o aumento da emigração. Isso alivia o problema, mas já experimentamos isto nos anos 80 e realmente cria deficiências ao país por vários anos. Não é imediato, são precisos quatro ou cinco ano de licenciados a sair até se sentir.

 

Como é a relação entre sector privado e sector público?

Em geral, as pessoas apoiam a maioria dos trabalhadores do sector público. Creio que acreditam que os funcionários públicos regulares, como professores, médicos ou policias, trabalham muito em condições difíceis. Depois há os trabalhadores do Parlamento e outros em departamentos governamentais e nesses casos acha-se que talvez ainda existam ineficiências e compadrios.




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