A Irlanda e a troika Pat Farrel: "Bancos têm de ser capazes de rever as suas comissões"

Pat Farrel: "Bancos têm de ser capazes de rever as suas comissões"

Bancos precisam de regressar aos lucros e para isso terão de rever comissões e margens, defende Pat Farrel, que lidera a Federação Bancária Irlandesa (IBF – Irish Banking Federation) desde 2004.
Pat Farrel: "Bancos têm de ser capazes de rever as suas comissões"
Rui Peres Jorge 02 de maio de 2013 às 00:01

Pat Farrel lidera a Federação Bancária Irlandesa (IBF – Irish Banking Federation) desde 2004. A IBF é a principal organização representativa do sector tendo participado nas negociações em torno da estratégia para lidar com as hipotecas em incumprimento e com mudanças regulatórias.

 

Farrel é conhecido pela forma como defendeu a banca durante um dos períodos mais problemáticos da indústria. E continua a fazê-lo. Farrel diz que o pior está para trás, que os bancos estão a caminho dos lucros e empenhados em tratar os problemas com os empréstimos em incumprimento. Já quanto às perdas que isso pode implicar e às consequências em termos de necessidade de recapitalização bancária, o representante dos bancos é menos assertivo.    

 

O que aconteceu ao sistema bancários irlandês desde 2007?

A história está relativamente bem documentada. Tivemos uma bolha imobiliária clássica, que coincidiu com uma crise global e com uma crise de liquidez. Perante a combinação de todos estes factores vimos uma queda nos preços dos activos numa economia interna muito exposta à construção acabámos com um colapso económico. Antes da crise existiam 12 a 13 bancos a oferecer produtos no espaço de retalho, muito deles estrangeiros. Hoje não há mais que seis ou sete. Em linha com isso, a dimensão dos balanços diminuiu muito e os rácios de empréstimos para depósitos caíram como parte do programa da troika.

 

Em que ponto estão no ajustamento?

Neste momento todos os bancos completaram cerca de 89% da desalavancagem. A próxima fase é agora regressar aos lucros. Os bancos já estão a regressar a lucros nas operações, mas com as provisões para fazer face a perdas, os resultados totais ainda não mostram isso. Os bancos regressarão aos lucros não todos ao mesmo tempo, mas ao longo do próximo ano. 

 

O FMI faz uma avaliação relativamente dura para o sistema financeiro considerando que muitas das perdas, nomeadamente nos empréstimos a famílias e empresas, estão por reconhecer. É uma descrição justa?

A troika tem sido consistentemente critica da rapidez com que se está a lidar com os créditos com problemas, particularmente no caso dos incumprimentos com hipotecas. O que posso dizer em defesa dos bancos é que não se pode virar a trajectória de um barco de uma dia para o outro. Os bancos tinham muitas crises e desafios para gerir: tiveram de lidar com a desalavancagem, com um tsunami de nova regulação, com a necessidade de começar a construir todo um novo conjunto de competências.

 

Qual a posição do Governo...

Houve uma política do Governo, assumida claramente nos primeiros anos da crise, que sinalizava aos bancos para manterem as pessoas nas suas casas. As politicas adoptadas passaram pela adopção de soluções de curto prazo para os problemas. Entretanto, a narrativa política mudou à medida que a troika também mudou e pediu soluções de longo prazo. Do ponto de visto dos bancos houve muitas dificuldades práticas a gerir. O código de conduta relativo crédito hipotecário dificultava a relação entre os bancos e dos devedores em dificuldades. Em segundo lugar um defeito na Lei impossibilita aos bancos de venderem as casas que decidissem tomar posse após execução da hipoteca. Os bancos estavam a tentar lidar com o problemas hipotecas com as duas mãos atrás das costas.

 

O grande desafio para os bancos é lidar com este problema?

Sim, mas temos finalmente um enquadramento novo. Foram definidos objectivos, o Governo está empenhado em mudar a Lei, em rever o código de conduta, e nós temos um novo sistema de negociação de dívida não judicial, conhecido como o serviço de insolvência pessoal, que se poderá aplicar aos clientes com maiores dificuldades. Além disso os bancos têm os seus próprios procedimentos para lidar com clientes que enfrentem dificuldades. Eu preveria que a grande maioria dos casos das hipotecas com problemas serão tratados fora do sistema de insolvência pessoal e apenas nos casos em que não há qualquer esperança de voltar a uma situação solvente é que escolherão essa via.

 

O Governo quer que até afinal do ano pelo menos metade das pessoas com problemas nas hipotecas tenham recebido dos bancos propostas para lidar com os seus problemas. É um objectivo credível?

Os objectivos para este ano são estabelecidos em ofertas realizadas. No próximo ano, e já com as novas leis no terreno, os bancos passarão então a ser avaliados com base em soluções efectivas.

 

Se avançarem com execuções, e visto que há mais de 100 mil hipotecas com problemas, o que farão os bancos com todas as casas num mercado cujos preços caíram cerca de 50%?

Não creio que o problema se vá colocar assim. A grande maioria dos casos implicará que os créditos sejam reestruturados de alguma forma, e nesses casos será possível voltar a colocar as hipotecas numa trajectória sustentável. Haverá depois um segmento mais pequeno – há várias estimativas, algumas colocam em cerca de 10 mil casos – que exigirão soluções mais agressivas de renegociação. Mas nesses casos também há soluções, como perder a titularidade das casas mas continuar a viver nelas como arrendatário. Não acredito que vão ocorrer um grande número de execuções. Irão aumentar, isso é certo, porque neste momento o número é artificialmente baixo devido a defeitos legais. No Reino Unido há cerca de 20 execuções por cada uma aqui. 

 

A divida das PME, muita dela também associada a imobiliário, representa cerca de 40% do PIB. Qual é a gravidade deste problema?

É um desafio, mas está a ser tratado. Durante a época do tigre celta, muitas PME associaram os seus sistemas de pensões a investimentos imobiliários que perderam muito valor. Os bancos estão a olhar para estes negócios, caso a caso, e a tentar reestruturar e reescalonar os empréstimos. Foi criado também um novo mecanismo de insolvência para empresa que ajudará.

 

Como regressar aos lucros e ao aumento do crédito concedido à economia num ambiente tão adverso?  

A responsável pela supervisão prudencial no banco central fez um discurso recente em que defende que os bancos têm de ser capazes de rever as suas comissões e reavaliar as suas margens. As margens líquidas que os bancos estão a registar não são sustentáveis do ponto de vista do regresso aos lucros. E é por isso que há um processo em curso nos bancos de retalho de reavaliação dos custos e  de introdução de comissões ou de aumento das já existentes. 

 

Poderão aumentar os “spreads” de empréstimos existentes?

Sim. Nós temos de reflectir o custo de financiamento. No passado o custo dos fundos de referência era o BCE. Isso já não é relevante. O dinheiro tem que ser conseguido no mercado de retalho, nos depósitos, e isso tem custo significativamente mais elevado que a taxa do BCE. As taxas de depósitos estão entre 2,5% a 3% e temos hipotecas de taxa variável inferiores a 1,5%. Isso não é compatível. A taxas de juro de hipotecas estão a subir e as taxas dos depósitos estão baixar, o que ajuda à recuperação de margens. Além disso, muitos serviços que foram introduzidos à borla durante o “boom” passaram a ser pagos.

 

Continuará a ser um processo lento até que a dívida acumulada seja digerida...

Concordo que é um processo lento, mas penso que estamos num ponto de inflexão. Já houve um banco que conseguiu atrair investidores privados e a percentagem de capital do Estado nesse banco está agora nos 15%. O próximo nível é conseguir que o outro banco pilar consiga fazer o mesmo. Isso irá gerar confiança. Ter capacidade de ter lucros é central para atrair investidores.  

 

O requisitos de capital chegarão para fazer face às perdas potenciais ainda por assumir?

Nós estamos sujeitos a testes de stress alinhados com a autoridade bancária europeia e cumprimos.

 

Há alguma estimativa para o valor das execuções a perdas que poderão ter de assumir com famílias e empresas

O regulador pediu estimativas a cada banco e nos relatórios individuais estarão as previsões de cada um. Não conheço valores agregados.

 

Se os bancos precisaram de recapitalização de onde virá esse dinheiro?

Não quero lidar com uma questão hipotética. Pelo que sei os bancos têm capital suficiente. Há um debate a ocorrer na Europa sobre se o sistema financeiro europeu necessitará de mais capital e, se assim for, de onde virá esse dinheiro. O pensamento actual aponta para o Mecanismo Europeu de Estabilidade [como financiador], mas parece haver um debate sobre se o MEE será ou não accionado.

 

Para a Irlanda seria importante que o MEE recapitalizasse bancos?

Do ponto de vista da construção da união bancária europeia é preciso criar um sistema robusto de resolução e recapitalização de bancos e a capacidade de mutualizar as garantias de depósitos. Parece haver alguma evolução sobre o primeiro tema, mas nenhuma sobre o segundo. Sem o pacote inteiro o design da união terá falhas.

 

Mas estariam confortáveis com um sistema europeu de recapitalização e resolução de bancos?

Essa é a posição do governo irlandês. Essa é a forma de quebrar a relação entre o risco soberano e o risco bancário.

 

Pensa que os contribuintes irlandeses não entrarão com mais dinheiro nos seus bancos?

A questão mais geral coloca-se em torno da posição europeia de que, em caso de apoio adicional a algum banco da Zona Euro, não seja necessário mais dinheiro dos contribuintes. Nesse sentido, estão a ser desenvolvidos várias formas de responsabilização. No Chipre, os depositantes foram chamados a pagar.

 

O Governo colocou cerca de 30 mil milhões de euros nos dois bancos pilar, dinheiro que agora vale 8 mil milhões de euros. Se a recapitalização retroactiva por parte do MEE ocorresse, que valor deveria ser considerado?

Essa é uma questão para as autoridades: esse dinheiro é dos contribuintes. Se o MEE entrar ao valor actual, a minha interpretação é a de isso não será aceitável para o Governo –  até porque poderá manter a participação nos bancos e esperar conseguir mais dinheiro no futuro.

 

O crédito continua a cair. Como é que uma economia consegue crescer sem crédito?

Bancos saudáveis são críticos para uma economia saudável. Nós pensamos que estamos a cumprir o nosso papel de oferecer crédito a negócios sustentáveis, mas há um debate, por vezes intenso, sobre de facto estamos a cumprir. Nós acreditamos fervorosamente que sim. A realidade é que sofremos uma queda enorme no PIB, com  forte impacto nas empresas e no seu apetite para investir. Nós estamos capazes e prontos para fazer face à procura.

 

O FMI diz que têm um elevado nível de rejeição de créditos. ...

Os resultados variam entre sectores. Mas se olhar para o sectores que estão em crescimento verá que eles estão a demonstrar boas taxas de crescimento. Noutros sectores, por exemplo na construção, isso não é possível.

 

Pensa que a Irlanda conseguirá regressar aos mercados?

Todas as indicações apontam para que a Irlanda esteja bem encaminhada para sair do programa como planeado. Mesmo com a crise cipriota, apesar de alguma alteração nos “spreads”, a situação regressou rapidamente à normalidade. Neste plano houve ainda duas iniciativas importantes: a extensão das maturidades e reestruturação das notas promissórias.

 

Se o Governo precisar de se candidatar a um programa com condicionalidade, isso seria visto como um problema aqui?

É uma pergunta hipotética, pelo que não quero responder. Como disse, todos os indicadores apontam que estamos no caminho certo e isso é dito por todos as instituições da troika.

 

 

 




Marketing Automation certified by E-GOI