A Irlanda e a troika Micheál Collins diz que economia irlandesa está a pagar um preço bastante elevado

Micheál Collins diz que economia irlandesa está a pagar um preço bastante elevado

Micheál Collins é investigador no NERI (Nevin Economic Research Institute), o think tank que fundamenta a análise e as posições económicas do Irish Congress of Trade Unions, a principal central sindical da Irlanda. O economista defende a importância de o Estado avançar com um programa de investimento, que possa garantir empregos no presente e infraestruturas no futuro. O grande desafio da economia irlandesa é incentivar a procura interna.
Micheál Collins diz que economia irlandesa está a pagar um preço bastante elevado
Rui Peres Jorge 30 de abril de 2013 às 00:01

Os trabalhadores do sector público chumbaram um novo acordo de cortes no Estado. É um momento importante?


Veremos.  O primeiro acordo de Croke Park foi firmado por sindicatos da Confederação Irlandesa de Sindicatos e assentou num passado de concertação social e de envolvimento com o Governo em soluções de política. O objectivo foi eliminar redundâncias nos sectores público e limitar reduções salariais. Esse acordo levou a um período de paz social durante um período muito difícil em que os impostos estavam a subir e os salários a descer.  

 

O que correu mal agora?


O acordo enfrentou dois problemas. Em primeiro lugar, a crise durou muito mais que o esperado. O acordo foi até 2014 e havia a expectativa que a crise poderia terminar antes. Como isso não se verificou, surgiu a necessidade de o renegociar. Além disso, a falta de crescimento interno implicou que a situação orçamental se manteve-se muito exigente:  e daí o conselho da troika de que se consigam mais poupanças e cortes adicionais.

 

É um sinal de erosão da concertação social?


Não haver um acordo é algo novo. Mas até 2014 há um acordo que ainda válido. Eu esperaria que as coisas acalmassem e que se recomeçassem negociações. O Governo faria bem em evitar um período de contestação laboral, e portanto penso que voltarão a tentar negociar as poupanças de mil milhões de euros por um período de três anos.

 

Os irlandeses não se manifestam e têm um baixo nível de greves. Porquê?


Não temos de facto grandes greves e não tivemos nada similar às manifestações que outros países tiveram, muitos deles com menos medidas de austeridade. Há vários factores que ajudam a explicar. Um é que não há um historial: antes desta crise, houve quase duas décadas de processo activo de concertação social entre patrões, sindicatos, Governo e outros representantes sociais. Havia um movimento em conjunto. Nesse período não tivemos de facto greves ou protestos, com excepção da guerra do Iraque em que houve uma marcha de protesto. Por outro lado, a violência da crise em 2008 foi tão dramática no desemprego – que mais ou menos triplicou num ano – que as pessoas olhavam à volta a percebiam que existiam pessoas em situação pior que as delas.

 

Isso dificulta a vida dos sindicatos em organizar um grupo coeso de resistência…


Não vimos de facto muitas greves.


Há uma divisão a abrir-se no mercado de trabalho: verificamos aumentos de salários e emprego entre os sectores mais qualificados, o que reflectirá em parte o desempenho do sector exportador. Mas há uma contracção sustentada de emprego nas indústrias de serviços de salários mais baixos e mais orientadas para a economia interna
 

Como é a diferença entre sector privado e sector público? Em Portugal a Função Pública é um pouco vista como os que se portaram mal e precisam de cortes. Na Irlanda também é assim?


Com o colapso e a perda das receitas artificialmente inflacionadas pela bolha imobiliária ficou um grande buraco para tapar: e por isso foram necessários aumentos de impostos para todos, além dos cortes na função pública. Agora, também há essa divisão aqui e, especialmente no sector privado, há quem tenha a visão de que o sector público desperdiça dinheiro, que os funcionários recebem demais e que são precisos cortes salariais significativos.

 

E recebem?


A evidência económica que temos não aponta para que salários dos trabalhadores da Função Pública sejam particularmente excessivos, na maioria dos níveis. Considerando os benefícios sociais e pensões, seja justo dizer com os dados oficiais que parece haver um pequeno prémio.  

 

Qual foi o corte de salários na Função Pública desde que a crise começou?


Terá sido na ordem dos 10%, mas os impostos aumentaram e por isso o rendimento disponível teria caído bastante mais.

 

Se eu perder o meu emprego hoje o que me vai acontecer? Levo muito tempo a encontrar outro emprego? Tenho aceitar uma redução salarial significativa?


Depende muito das qualificações. Há uma divisão a abrir-se no mercado de trabalho: verificamos aumentos de salários e emprego entre os sectores mais qualificados, o que reflectirá em parte o desempenho do sector exportador. Mas há uma contracção sustentada de emprego nas indústrias de serviços de salários mais baixos e mais orientadas para a economia interna. Para quem tem qualificações elevadas as oportunidades permanecem. Para os outros é muito difícil, pois com uma taxa de desemprego de 15% e muito subemprego é difícil entrar.

 

A taxa de desemprego considerando o subemprego e os que não procuraram emprego está nos 23%...


Isso sublinha os desafios e faz temer que, quando a recuperação chegar – e nós continuamos à espera – tenhamos um período de crescimento sem criação de emprego, pois inicialmente as empresas poderão limitar-se a absorver os que estão a trabalhar menos horas do que desejam.

 

O mercado de trabalho é muito flexível aqui, em termos de horas de trabalho e de alteração de condições?


É flexível, especialmente para os menos qualificados. Dado o nível de desemprego, as pessoas estão dispostas a ser flexíveis.

 

Os mercados de trabalho mais flexíveis tendem a reflectir mais rapidamente os choques, mas também a recuperar mais depressa. Aqui isso não está a acontecer. Porquê?


O crescimento é muito baixo e está concentrado no sector exportador que não é tão trabalho-intensivo como o sector doméstico. A economia interna encolheu muito, vinda de um ponto artificialmente elevado, e continua a encolher. No terreno, pelo País fora, as coisas não estão a mover-se: essa falta de actividade económica não  gera empregos.

 

Dado que o sector exportador é tão grande, as políticas adoptadas não prestaram a atenção necessária à economia doméstica?


No início havia a ideia de que faríamos o ajustamento interno, garantiríamos o financiamento da economia no médio prazo, e o crescimento externo puxaria pela economia. A troika poderia assim ir embora em breve.

 

E agora, como está essa história?


Bom, continuamos a fazer o ajustamento interno, o Governo e a troika foram bem sucedidos a lidar com o perfil de financiamento da dívida, mas o crescimento externo não chegou e isso forçou um ajustamento interno maior para tentar atingir o objectivo de défice de 3% do PIB em 2015. Quando a recuperação externa chegar nós estaremos muito bem.

 

As pessoas duvidam do sucesso do programa da troika?


Inicialmente as pessoas perceberam que a Irlanda tinha vivido acima das possibilidades e precisava de fazer um ajustamento e valorizaram a estabilidade do resgate. O problema é que, com o tempo, o programa ficou cada vez mais dependente do ajustamento interno: a economia doméstica está a pagar um preço bastante elevado pela falta de dinamismo externo. 

 

Cinco a seis anos depois da crise começar o défice orçamental continua em cerca de 7,5%? Como é que pode ser fechado?


Penso que começam a perceber que há mérito neste momento em estimular a economia doméstica de alguma forma. Isso poderia ser financiado através de dinheiro do fundo europeu de investimento, de dinheiro de fundos de pensões ou com investimento de empresas semi-publicas de água ou electricidade. Isso permitiria investir na criação de activos de longo prazo com criação de empregos no curto prazo.

 

Isso é o que o Governo está a dizer que quer fazer. Diz até que tem um programa de investimento públicos em infra-estruturas no terreno para os próximos anos. Qual é a diferença?


O Governo tem sistematicamente acabado o ano com menos despesa de capital do que a que planeou no Orçamento. No início, o Governo não fez nada sobre a economia doméstica, mas há medida que a crise se prolonga há uma percepção de que poderão ter de fazer qualquer coisa. No entanto, continuam mais a falar do que a implementar.

 

E que áreas poderiam ser?


Há um ano que vimos propondo um fundo de investimento de 15 mil milhões em infraestruturas, como o sistema de abastecimento de água que precisa de ser renovado. O mesmo se passa com a banda larga. O objectivo é apostar em projectos que garantam um máximo de retorno em termos de crescimento interno, de empregos e de receita fiscal.

 

Porque é que os impostos não sobem mais, visto que a carga fiscal é relativamente baixa? A receita de contribuições sociais é mesmos muito baixa, metade da portuguesa…


Nós somos uma economia de impostos baixos e cobramos menos impostos do que realisticamente poderemos e deveremos para no longo prazo para fornecermos serviços públicos. É muito difícil aumentar impostos na Irlanda. Penso que há uma percepção crescente de que a Segurança Social está sub-financiada e que tanto trabalhadores como empregadores terão de pagar mais. A taxa paga pelos trabalhadores é de 4% e a dos empregadores é de 10,5%. São valores muito baixos, os fundos da segurança social estão em défice e têm de ser financiados pelo Orçamento. Isto não é sustentável

 

Dada a violência da crise, e as taxas baixas, porque é que as taxas de impostos ou de segurança social não sobem?


Nós aumentámos os impostos por um bom bocado. Os impostos sobre o rendimento subiram, os impostos indirectos também, a segurança social dos trabalhadores foi reformada de forma a que acabou por subir. Não alterámos os impostos sobre as empresas. O Governo tem defendido que o ajustamento tem de acontecer dois terços pelo lado da despesa, e nós defendemos que no último orçamento o ajustamento deveria ter sido feito 85% por impostos e apenas 15% pela despesa.

 

O programa aqui também se baseia numa regra de dois terços do lado da despesa?


Sim e nós defendemos que há potencial para aumentar as receitas, nomeadamente pela tributação dos mais ricos. O grupo de 20% de contribuintes com mais rendimentos paga uma taxa de imposto sobre o rendimento de cerca de 26%. Precisamos também de alguma reforma nos impostos sobre as empresas.

 

O problema do excesso de dívida privada e de incumprimentos é grave?


Os bancos estiveram muito hesitantes em lidar com os problemas associados às dívidas das famílias. E só agora é que o Governo e o banco central se tornaram um pouco mais agressivos na pressão sobre os bancos. Sem uma solução nesta frente temos dois efeitos: as famílias afectadas não podem gastar – este é um número relativamente grande de famílias, mas não devemos exagerar: é gerível. O segundo efeito é um impacto indirecto que leva os bancos a serem continuamente cautelosos sobre como e a quem emprestam dinheiro. Esse conservadorismo que os bancos impuseram a si próprios tem sido um peso sobre a economia doméstica e também por isso o investimento está em nível mínimos.

 

Será mais difícil gerir a dívida pública ou a dívida privada?


Neste momento a dívida privada é um assunto mais importante. O Governo conseguiu em certa medida controlar a dívida pública, nomeadamente com a renegociação das notas promissórias e com a extensão da maturidade dos empréstimos. Nós estamos a conseguir financiar-nos a taxas de juro relativamente baixas e, com o tempo, com a economia a crescer, penso que será gerível.

 

E dívida privada?


Esse é um problema maior pois essencialmente ainda não começou a ser tratado. O Governo vai lançar um conjunto de recomendações na área insolvência e de reestruturação de dívida e estabeleceu metas aos bancos. Estamos a começar a lidar com isso. Tem existido alguma falta de vontade de tomar as decisões difíceis que, em alguns casos, significa assumir perdas nessa dívida.

 

A Irlanda regressará aos mercados no final deste ano? Precisará de algum apoio adicional?


A troika está muito determinada em sair e querem ser vistos a sair para provar a países como Portugal e outros que eles efectivamente chegam e saem. Isso será um desafio pois ao decidirem sair têm de garantir que não precisam de regressar. Isso irá requerer algum tipo de garantia de financiamento que possa ser oferecido caso a Irlanda enfrente dificuldades no acesso aos mercados nos anos seguintes. E é claro que quando saírem isso não irá resolver o problema da economia estagnada, do desemprego elevado, de quase 16% dos desempregados serem de longa duração e de mantermos a necessidade de pedir emprestado grandes quantidades de dinheiro.

 




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