A Irlanda e a troika Kevin O'Rourke: "Se não conseguirmos um melhor 'mix' de política, o euro não merece sobreviver"

Kevin O'Rourke: "Se não conseguirmos um melhor 'mix' de política, o euro não merece sobreviver"

É um dos economistas irlandeses mais influentes e um dos críticos da estratégia de ajustamento que vem sendo seguida na Europa. Kevin O’Rourke não acredita na desvalorização interna e diz que não há desculpa para a teimosia e rigidez intelectual que o BCE e a Alemanha estão a impar
Kevin O'Rourke: "Se não conseguirmos um melhor 'mix' de política, o euro não merece sobreviver"
Rui Peres Jorge 03 de maio de 2013 às 14:01

Kevin O’Rourke é professor de economia no Trinity College de Dublin e um dos mais conhecidos economistas irlandeses. Leccionou em Columbia, Harvard e Sciences Po (Paris). Tem dedicado muita da sua investigação à história económica e em particular à história da globalização, ao mesmo tempo contribui regularmente para o debate sobre as políticas adoptadas na crise através de participações no VOX e no Irish Economy. É um dos críticos consistentes da estratégia de ajustamento europeia baseada na desvalorização interna no Sul. “Simplesmente não é possível”, diz. 

 

Como está a Irlanda a sair-se com o seu programa de ajustamento?


A Irlanda não se está a sair muito bem. Tivemos uma queda muito abrupta no PIB no início da crise e desde então que temos andado às voltas no fundo. Alguns números do PIB mostram um ligeiro crescimento, mas os nossos dados são muito voláteis e pouco fiáveis – não devem ser mal interpretados por comentadores estrangeiros. O emprego também não parou de cair até ao ano passado. O desemprego, nos 15% é mais baixo que em Portugal ou em Espanha, mas se somar os que trabalham menos que o que desejam o número sobe para 23%. E no caso irlandês há ainda considerar a elevada emigração. A experiência irlandesa, como a portuguesa e espanhola, mostram que as esperanças que se podem ter na desvalorização interna, no sentido de ver os salários a cair em termos nominais, não é suportada pela evidência. Os nossos salários têm estado completamente estagnados. O único país, entre os PIIGS, em que os salários caíram é a Grécia. Mas se é preciso um colapso à grega para que os salários caiam, então talvez seja uma tragédia que não devamos perseguir.

 

Os custos unitários do trabalho na Irlanda estão a cair, ou não?


Isso é também uma miragem estatística. Os custos unitários de trabalho reflectem não apenas a redução de salários – que tem estado estagnada e em alguns casos até têm subido – mas também a produtividade. E aqui que entramos na parte um pouco tremida das nossas estatísticas. Zsolt Darvas, do Bruegel, é o especialista. O que se passa é que, em primeiro lugar, se todos os trabalhadores de baixa produtividade perderem os empregos, a produtividade média dos que ficam sobe. Isso explica uma grande proporção da queda dos nossos custos unitários. Isto é importante porque o argumento a favor da desvalorização defende que os preços relativos ajustam e, nesse caso, as quantidades não precisariam de ajustar. Ora esta queda nos custos unitários está a ser guiada pelas quantidades e não pelos salários. O segundo elemento é que as nossas estatísticas de produtividade são muito dúbias, especialmente no que diz respeito às  empresas multinacionais com emprego muito baixo.

 

A Irlanda não é sucesso que dizem?


Deixe-me falar sobre esse suposto sucesso. Em primeiro lugar está a ficar cada vez mais evidente que, a não ser que tenhamos crescimento forte rapidamente, a Irlanda ficará insolvente. Um segundo ponto é que os nossos bancos ainda não estão tratados. Há um número muito elevado de hipotecas em atraso e isso arrisca criar novos buracos nos balanços dos bancos. Nesse caso, o Estado terá de novamente recapitalizar os bancos e essa é mais uma razão para estar pessimista sobre a solvência.

 

O Governo garante que não colocará nem mais um euro em qualquer bancos...


Não acredito em declarações desse tipo.

 

Porquê?


Porque toda a experiência passada revela que eles entrarão com dinheiro se o tiverem de fazer. Uma alternativa ao dinheiro do Governo seria o Mecanismo Europeu de Estabilidade entrar com dinheiro, é que neste momento já não há muitos obrigacionistas que possam perder dinheiro, foram todos reembolsados. Outra hipóteses seria forçar perdas aos depositantes, mas esse é um cenário que nem se quer imaginar.

 

A Irlanda tem um défice de 7,5% e uma dívida a chegar aos 120%: esse era o objectivo ou falharam as metas?


Nós temos atingido todas as metas, mas se não houver crescimento o peso da dívida no PIB irá continuar a subir.

 

Como é que conseguem crescer?


É impossível conseguirmos crescimento por nós próprios. Precisamos de mais apoio de políticas da Zona Euro. A não ser que consideremos sair do euro, o que é uma hipótese que talvez devêssemos ponderar, só vamos conseguir crescimento se o BCE for muito mais radical nas suas políticas, em termos de corte de taxas de juro, mas também em termos de políticas de alívio quantitativo [“quantitative easing”], como todos os outros bancos centrais no planeta.

 

O que é mais preocupante, o excesso de dívida no sector privado ou no sector público?


A dívida pública é um sintoma do problema, não é o problema. A dívida privada e as consequências dessa dívida para os balanços dos bancos comerciais é um verdadeiro problema e um peso enorme sobre o crescimento. Nós não temos bancos que estejam a funcionar, temos bancos “zombie”. E vamos continuar assim até que os créditos que precisam de ser reestruturados o sejam, e que os bancos sejam recapitalizados.

 

Há uma pressão crescente nos últimos meses para lidar com os problemas da dívida privada. O governo apresentou novos leis e regras de insolvência. O FMI pede testes de stress aos bancos ainda este ano. Pensa que o problema poderá estar resolvido no próximo ano?


Acho que vão tentar evitar assumir perdas e manter o espectáculo na estrada o máximo de tempo possível. E isso são muito más notícias: nos ficaríamos muito melhor assumindo as perdas à cabeça. Isso poderia implicar que a nossa dívida saltasse para níveis insustentáveis. Mas visto que muito provavelmente teremos de reestruturar a dívida pública de qualquer forma, especialmente se a Zona Euro continuar a sua estratégia louca de política económica, então mais valia fazê-lo já e seguir em frente.

 

A sua perspectiva é diferente da que recebemos dos relatórios da troika que, mostrando preocupação com as mesmas áreas, não dramatizam. Na verdade a Irlanda é o exemplo...


A troika fez tanta asneira que precisa desesperadamente de poder apontar para uma história de sucesso.

 

Acha que a Irlanda conseguirá regressar aos mercados até ao final deste ano?


Por agora as coisas parecem bem, e por isso provavelmente sim. Mas estamos ainda muito vulneráveis a desenvolvimentos na Zona Euro. A grande questão não é tanto saber se conseguimos regressar aos mercados no final deste ano, mas antes se conseguimos permanecer nos mercados. E isso é muito menos claro – sendo que o pior de todos os resultados seria regressar e depois ser excluído novamente daqui a uns anos.

 

Parece provável que a Irlanda regresse aos mercados com o apoio de um dos programas cautelares, com condicionalidade, possibilitando o acesso ao programa de compra de dívida do BCE. Isso será um problema político? Será um segundo resgate?


As pessoas querem ver a troika a sair e se houver algum tio de condicionalidade isso será um desafio político. Mas o grande problema político é o facto da economia estar a ter um desempenho muito, muito mau. De as pessoas estarem a lutar com desemprego elevado, com hipotecas para pagar. Outro grande problema político é que, nesta fase, há uma grade fadiga de austeridade, como se viu no chumbo do acordo de Croke Park [acordo de poupanças entre Estado e função pública, em vigor entre 2010 e 2014 e que está a ser renegociado ].

 

Quão importante foi este chumbo no acordo Croke Park?


Penso que aplicarão os cortes de salários uma forma ou outra e nesse sentido não tem grande impacto. Mas do ponto de vista simbólico é importante, porque nunca tinha acontecido nada assim de 1987.

 

Não espera nenhuma melhoria significativa na economia irlandesa nos próximos três anos?


Não, a não ser que a política macroeconómica da Zona Euro mude.

 

E por mudanças entende o quê?


Além da actuação do BCE, a Europa precisa claramente de estímulo orçamental onde há espaço para o fazer. Isso pode ser ao nível de países individuais que tenham margem ou pode ser feito ao nível da Zona Euro ou da União Europeia como um todo, com fundos do banco europeu de investimento, por exemplo. É preciso atirar a esta crise com tudo o que temos. Se isto não for feito daqui a três anos poderemos não ter euro. E, francamente, se não conseguirmos um melhor “mix” de política macroeconómica, o euro não merece sobreviver.

 

O BCE argumenta que está a fornecer toda a liquidez que os bancos possam precisar e que, dado que a economia europeias depende muito dos bancos, não faz sentido estar a comprar activos...


É claro que faz sentido comprar activos. Em primeiro lugar, considerando teoria “standard” de política monetária, o que precisamos agora é de uma política tradicional de “alívio quantitativo”. Mas em segundo lugar, se pensar nas taxas de juro das empresas na periferia do Sul, elas são muito mais elevadas que em países como a Alemanha. Isso dá um argumento directo para comprar dívida de empresas.

 

Vê isso como o instrumento para acabar com a fragmentação financeira na Zona Euro. Quando ouve Mario Draghi e o BCE dizer que está preocupado com fragmentação...


... então cheguem-se à frente com o dinheiro

 

Da perspectiva de um professor de história económica, o que o impressiona mais na gestão europeia desta crise?


A total incompetência na gestão e a extensão em que a rigidez ideológica está a colocar em risco não apenas o euro, mas todo o projecto europeu. Não há qualquer desculpa para, no início do século XXI, defender que as economias avançadas podem prosseguir uma estratégia de recuperação baseada na desvalorização interna. Não há desculpa intelectual: nós sabemos que não funciona. E ainda assim as pessoas que interessam no centro não querem ouvir. Eles terão um grande fardo de responsabilidade se isto colapsar devido à sua teimosia.

 

A desvalorização interna pretende conseguir ganhos de competitividade através de reduções salariais. Portugal tem de facto um problema de competitividade. A Irlanda também terá em algumas áreas. Como se resolve?


Muitas regiões têm problemas de competitividade porque houve um fluxo sistémico de capital de zonas da Zona Euro com abundância de capital para zonas onde o capital faltava. Isso conduziu a aumentos de salários, de preços, e bolhas de activos. E agora há um problema de ajustamento. Muito infelizmente não temos moedas para desvalorizar -  seria muito mais fácil se não tivéssemos integrado a Zona Euro. E acho que há um número crescente de pessoas que se apercebe que o euro foi um erro catastrófico. Mas agora que estamos cá, isso também não significa que o ajustamento tenha de ser feito via quedas nominais de salários na periferia. Isso é uma coisa que nunca vai acontecer de forma sistemática. Simplesmente não é possível.

 

Mas então o fazer?


Uma solução muito melhor, já que estamos algemados nesta terrível experiência monetária, seria ter um pouco mais de inflação no “core”. E uma evolução positiva que devemos reconhecer é que têm existido aumentos de salários na Alemanha nos últimos anos. E isso é um muito bom sinal. Vamos precisar mais disso, muito mais.

 

É muito critico da Zona Euro, mas ocorreram  mudanças significativas. Há uns anos seria impensável ter um fundo comum para financiar países ou para ter um programa de compra de obrigações no BCE (OMT). Como vê estas respostas?


Esses instrumentos atacaram aos problemas errados. Os verdadeiros problemas são o desemprego e a depressão em vários países. O OMT não faz nada para lidar com isso. Para isso precisamos de coisas muito mais tradicionais, como o alívio quantitativo e taxas de inflação mais elevadas. Em segundo lugar, pode haver avanços na reforma institucional mas estão a ocorrer a um passo muito, muito lento. E não é claro que chegue a tempo: com países a caminho de depressões e as pessoas sem verem uma luz ao fundo do túnel  acabará por haver uma reacção política.

 

O que isso significa?


Precisamos agora de um movimento em direcção a muito mais federalismo na Zona Euro. Politicamente não é certo que o consigamos e a forma como esta crise está a ser mal gerida está a torná-lo cada vez menos provável.

 

Os erros de politica económica na Zona Euro resultam essencialmente de imperfeições políticas na Zona Euro?


Resultam com certeza de imperfeições políticas, como fica evidente do caso cipriota. Mas temos de culpar o poder das ideias e das ideologias. Temos um banco central europeu incrivelmente conservador, rígido e doutrinário. E temos políticos incrivelmente rígidos e doutrinários no país que tem mais poder neste momento.

 

Espera que alguma coisa mude com as eleições na Alemanha?


Esse o momento da verdade. Há muitas pessoas que estão a aguentar pensando que depois das eleições, se o SPD chegar ao poder, mesmo que numa grande coligação, as coisas possam mudar. Se depois das eleições as coisas não mudarem, então terá chegado o tempo das pessoas em toda a Zona Euro pensarem activamente em como terminar esta experiência da melhor forma.

 

Escreveu um artigo sobre radicalismos político na grande depressão. Vê sinais disso agora?


Épocas diferentes, respostas radicais diferentes. A Grécia é o paralelo mais óbvio com o período entre guerras visto que a Aurora Dourada é claramente um partido fascista, que está a beneficiar da crise e isso é muito perigoso. Noutros países as respostas estão a ser muito mais benignas: Peppe Grilo é radical mas não abjecto, no sentido que não é anti-emigrantes, por exemplo. Se terminássemos com radicais como Pepe Grilo seria um cenário comparativo melhor.

 

Qual é foi o maior erro de política aqui na Irlanda?

     

O maior erro foi o original de em 2008 garantir toda a dívida. Isso foi um erro chocante. Poderemos nunca chegar a saber se o BCE teve algum papel indirecto nisso. Se tiverem não deixaram impressões digitais. E portanto temos de admitir que foi um erro nosso, nossa culpa. Isso deve ser distinguido da decisão de 2010 de garantir a dívida dos bancos. Isso foi o BCE e aí pode culpar-nos por não defendermos mais os nossos interesses. 

 

 




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