Zona Euro Um ano depois do adeus à troika, Grécia vê juros da dívida cair para metade

Um ano depois do adeus à troika, Grécia vê juros da dívida cair para metade

Os juros da dívida grega a dez anos baixaram de 4% para 2% durante os últimos 12 meses, período em que o país já esteve fora do programa de ajustamento que durou oito anos.
Um ano depois do adeus à troika, Grécia vê juros da dívida cair para metade
Reuters
Tiago Varzim 20 de agosto de 2019 às 13:29
No primeiro ano em que esteve sem a aplicação do programa de ajustamento que durou oito anos, a Grécia viu os seus juros da dívida a dez anos baixarem de 4% para 2%. Esta terça-feira, 20 de agosto, marca um ano desde que Atenas disse adeus à troika com uma "saída limpa", tal como Portugal tinha feito em 2014. 

A 20 de agosto de 2018, o primeiro dia em que a Grécia esteve fora do programa de ajustamento, os juros associados às obrigações gregas a dez anos fecharam no mercado secundário a 4,295%, um valor semelhante ao que os investidores cobravam a Portugal ou à Irlanda quando estes países disseram adeus à troika. Um ano depois, a 20 de agosto de 2019, os juros estão nos 1,99%. Foi no mês passado, a 24 de julho, que os juros passaram a negociar abaixo dos 2%, um mínimo histórico, tal como noticiado pelo Negócios.

Esta é uma queda significativa (cerca de dois pontos percentuais) dos juros da Grécia em dois anos, mas que não pode ser dissociada dos desenvolvimentos no mercado de obrigações. Durante o último ano, os juros das obrigações soberanas da Zona Euro caíram de forma abrupta em praticamente todos os países, incluindo Portugal, onde os juros a dez anos se aproximam de 0%, um cenário nunca antes visto. Na Alemanha e na Holanda os juros da dívida com maturidade até 30 anos estão todos em terreno negativo.
A justificar esta queda dos juros das dívidas soberanas no mercado secundário esteve inicialmente (no início deste ano) a expectativa de que a desaceleração da economia europeia fosse obrigar o Banco Central Europeu (BCE) a baixar os juros e/ou a aplicar mais medidas de estímulos. Isso ficou mais visível quando o BCE decidiu em março lançar uma nova linha de empréstimos "baratos" à banca (TLTRO III). Mais tarde, prolongou ainda mais o horizonte em que prevê que os juros diretores se mantenham em níveis historicamente baixos. 

Contudo, nos últimos meses, com o agravamento da disputa comercial entre os EUA e a China, a desaceleração da economia deu lugar ao risco de recessão, o que afastou cada vez mais os investidores de ativos de risco e os aproximou de ativos de refúgio, como as obrigações soberanas, cujo risco de incumprimento tende a ser inferior. Esse risco de recessão levou à reação da política monetária com a maior parte dos bancos centrais a baixar juros. A Fed já o fez em julho e a expectativa é que o BCE o faça em setembro.

O enquadramento externo terá sido determinante para a queda dos juros na Grécia, mas as evoluções internas também tiveram o seu papel. Desde logo, o Governo grego continuou sujeito à monitorização apertada das instituições europeias e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que continuam a visitar Atenas a cada trimestre e a divulgar relatórios sobre a execução das medidas já programadas, o que dá confiança aos investidores de que o país continuará a cumprir os compromissos.

A isto acresce o resultado das eleições realizadas no início de julho: a vitória dos conservadores da Nova Democracia, sob a liderança de Kyriakos Mitsotakis, com maioria absoluta, foi recebida com otimismo por parte dos mercados com os juros a reagirem em queda. 

Além disso, recorde-se que o acordo alcançado no Eurogrupo que permitiu a "saída limpa" da Grécia, sem nenhum programa cautelar, incluiu uma tranche para os cofres gregos que reforçou a almofada financeira e ainda uma extensão de dez anos dos prazos de pagamento dos empréstimos. Estas duas medidas permitem melhorar a capacidade da Grécia de reembolsar a dívida nos próximos anos, afastando o cenário de incumprimento que esteve na mente dos investidores durante os anos da crise das dívidas soberanas da Zona Euro.

Ainda assim, o risco mantém-se: a dívida pública da Grécia corresponde a quase o dobro do PIB do país (181% em 2018), mantendo-se como a maior da Zona Euro.

Bruxelas "celebra" um ano de Grécia sem troika
A Comissão Europeia fez questão de assinalar o aniversário de um ano da conclusão do programa de ajustamento da Grécia. Em comunicado divulgado esta terla-feira, 20 de agosto, Bruxelas argumenta que "os indicadores confirmam que, apesar de ainda haver trabalho por fazer, os esforços realizados estão a resultar em benefícios tangíveis".

Como exemplo, a Comissão refere o desemprego que caiu para 17,6% em abril de 2019. "Apesar de ainda ser uma taxa inaceitavelmente alta, é a primeira vez que o indicador está abaixo dos 18% desde julho de 2011", argumenta a Comissão, referindo que a taxa de desemprego chegou a estar perto dos 30% em 2013.

A mensagem para o futuro é clara: as autoridades gregas têm de continuar a "focar-se na resolução total das consequências económicas e sociais dos anos da crise".



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