Política Nacionalizações e função pública afastam Costa de Catarina

Nacionalizações e função pública afastam Costa de Catarina

Quatro anos após protagonizarem um debate que mostrou as bases para o entendimento pós-eleitoral, o encontro televisivo desta noite entre os líderes do PS e BE traçou novas "linhas vermelhas" em matérias económicas.
Nacionalizações e função pública afastam Costa de Catarina
Lusa
António Larguesa 06 de setembro de 2019 às 22:33

Alinhados na defesa das conquistas salariais e sociais obtidas na legislatura que agora está a terminar – e em que foram aliados para afastar a direita do poder –, António Costa e Catarina Martins divergiram no debate televisivo desta noite em torno de várias matérias económicas, com destaque para as nacionalizações e para a função pública.

 

Depois de ser acusado pela coordenadora do Bloco de Esquerda de ter apresentado um "programa pouco concreto" e que remete contas para o Plano de Estabilidade apresentado a Bruxelas que "não chegam" para pagar algumas rubricas, como o prometido aumento dos funcionários públicos segundo a inflação, o secretário-geral socialista frisou que "a normalidade da atualização salarial vai ser retomada a partir de 2020" e deixou uma primeira alfinetada à companheira de geringonça.

 

"A negociação de salários não é feita entre os partidos, é feita entre o Governo e os sindicatos. Hoje temos condições para repor a normalidade e vamos negociar com os sindicatos da Função Pública. A função dos partidos não é serem porta-vozes dos sindicatos, mas do interesse geral do país", atacou António Costa. No programa eleitoral, o Bloco propõe aumentos reais de 1% nos salários e o crescimento do número de funcionários em 40 mil na próxima legislatura.

 

Na área do trabalho, à semelhança do que tinha feito há dias Jerónimo de Sousa (PCP), a líder bloquista recordou ao chefe do Executivo que subsiste "um enorme problema com legislação laboral". "Há medidas, como o pagamento de horas extras, que não foram emendadas da troika. Houve o alargamento do período experimental. No país há imensa precariedade e problemas a alastrar, como o ‘outsourcing’. Os trabalhadores por turnos também não tiveram ainda resposta. Para o PS parece que está tudo bem", lamentou Catarina Martins, que não conseguiu arrancar garantias futuras da boca do socialista.

 

Por outro lado, António Costa colou ao programa do Bloco de Esquerda um selo de irrealismo, alegando que "propõe um aumento de 30 mil milhões de euros de despesa anual com um conjunto de investimentos", equivalentes a quase 15% do PIB. "Todos gostávamos disso, mas governar é fazer escolhas. Um programa de Governo tem de fazer opções, não pode ser uma lista de prendas de Natal", sintetizou.

 

Sem levantar o pé do acelerador, o líder do PS chumbou a hipótese de contrair dívida para o programa de nacionalizações da ANA, CTT, REN e Galp proposto pela interlocutora, contabilizando, por exemplo, que o dinheiro necessário para recuperar a petrolífera para a esfera pública equivale à despesa corrente com o Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Não vou gastar 10 mil milhões de euros dos portugueses a nacionalizar a Galp quando temos de reforçar a saúde e o investimento no SNS não é suficiente", concluiu.

 

Na resposta, após criticar o candidato a primeiro-ministro por "agrupar vários anos e vários projetos para fazer malabarismos" com os investimentos incluídos no programa do BE, Catarina Martins explicou, por um lado, que há estratégias menos custosas – e lembrou a Costa como recuperou o controlo maioritário da TAP no início da legislatura. Por outro, daria prioridade à operação dos CTT e, no caso da REN, não sendo possível avançar desde já com a reversão integral da venda aos chineses, começaria por nacionalizar o sistema global de gestão de energia da companhia energética.

 

Colagem à estabilidade e fuga à espanhola

 

No plano político, que dominou a primeira parte da entrevista, Catarina Martins mostrou "orgulho" pelo desempenho da geringonça entre 2015 e 2019, referiu que os parceiros à esquerda "deixaram sementes para o futuro", mas também reconheceu que "seguramente [houve] fracassos, como no caso da precariedade e dos professores; e erros, como o Novo Banco e o Banif".

 

Reclamando que "o BE nunca faltou à estabilidade da vida das pessoas" e avisando que "uma maioria absoluta [do PS] é perigosa", sustentou ainda que o partido "assumiu enorme responsabilidade nas propostas que fez nos últimos quatro anos" e deu provas da capacidade" de compensar as propostas de aumento da despesa. E deu até o exemplo do chamado Imposto Mortágua, que incide sobre o património imobiliário de luxo, que irá arrecadar 180 milhões de euros - suficientes para cobrir os 134 milhões que custa o aumento extraordinário das pensões.

 

Já António Costa, que há dias alertou que fortalecer o BE e enfraquecer o PS poderá minar a estabilidade política do país, disse ser "muito claro que é necessário o PS ter força porque é o fiel do equilíbrio desta solução" governativa à esquerda e dramatizou que a elogiada "solução à portuguesa não se pode converter numa solução à espanhola", em que a extrema-esquerda bloqueia a investidura do líder socialista.

 

Ainda assim, neste debate transmitido pela RTP, o secretário-geral socialista foi claro ao prometer que continuará a dar corda à geringonça na próxima legislatura. "Nestes quatro anos aprendemos a trabalhar em conjunto e ter capacidade de compromisso e respeito mútuo. Não abri uma porta de diálogo com o PCP, o BE e o PEV para ser eu agora a fechar essa porta. Demorámos muitos anos a derrubar o muro [que separava as forças de esquerda] e ele não deve voltar a ser construído", concluiu.




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