Mudança “cirúrgica” nas grávidas poupa idas ao estrangeiro

O Hospital de Gaia foi pioneiro em Portugal no procedimento cirúrgico intra-uterino minimamente invasivo de distúrbios ou malformações fetais, estimando na primeira década uma poupança de dois milhões de euros.
Mudança “cirúrgica” nas grávidas poupa idas ao estrangeiro
A anestesiologista Ana Milheiro ajudou a criar protocolos de actuação. Trabalho exige também a gestão de expectativas das pacientes.
Paulo Duarte
Cansado de ver uma média de quatro dezenas de grávidas portuguesas serem enviadas todos os anos para tratamentos no estrangeiro, sobretudo Espanha, França e Inglaterra, o médico Francisco Valente meteu na cabeça que iria "preencher a lacuna" que existia no Serviço Nacional de Saúde e criar em Vila Nova de Gaia o primeiro centro no país habilitado a fazer procedimentos cirúrgicos intra-uterinos minimamente invasivos de distúrbios ou malformações fetais.


54.000
Investimento
O Centro Hospitalar investiu 28.400 euros no emissor laser e no material de fetoscopia, com a Fundação EDP a suportar o restante.


Custos emocionais para os casais ao serem enviados para locais desconhecidos; despesas para o Estado por ter de pagar mais caro por esse serviço fora do país; e impactos até ao nível de "resultados menos bons", uma vez que a burocracia, a marcação das viagens ou a falta de disponibilidade momentânea dos centros estrangeiros acabava por "interferir algumas vezes no tratamento atempado da patologia, com riscos para os fetos". Face a estes constrangimentos, o coordenador do Centro de Diagnóstico Pré-Natal propôs à administração do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho este pioneiro projecto de cirurgia fetal.

O hospital teve esse mérito e a preocupação de investir na saúde materno-infantil do país. Foi sempre uma prioridade da administração.  Francisco Valente
Coordenador do Centro de Diagnóstico Pré-Natal do Centro Hospitalar Gaia/Espinho

O projecto foi aprovado em 2013 e os anos seguintes foram dedicados à compra dos equipamentos e à formação de uma equipa multidisciplinar, constituída por quatro cirurgiões (três obstetras e uma pediátrica), três anestesistas e três instrumentistas. Conceição Lopes é uma das enfermeiras que está na mesa de operações a providenciar os materiais delicados.

O arranque de um projecto tem sempre arestas a limar, mas o ideal é começar com alicerces bem fortes. Porque se isto cresce num terreno de areia, às vezes as coisas desmoronam-se Ana Milheiro
Anestesiologista do Centro Hospitalar Gaia/Espinho

Com formação em Enfermagem e pós-graduação e décadas de experiência em cirurgia endoscópica, à gaiense de 59 anos é exigida também versatilidade e conhecimento das técnicas médicas para acompanhar alterações na cirurgia. E ainda capacidade de organização, pois cabe-lhe articular os recursos e mobilizar os meios humanos e materiais sempre que surge um caso novo. "Este projecto foi uma coisa inovadora, feita de raiz. E com a boa vontade das pessoas - isto é quase por carolice - temos feito algumas cirurgias", detalha.
Na preparação e depois na mesa de operações é essencial a função da enfermeira Conceição Lopes no apoio aos cirurgiões do Hospital de Vila Nova de Gaia.
Na preparação e depois na mesa de operações é essencial a função da enfermeira Conceição Lopes no apoio aos cirurgiões do Hospital de Vila Nova de Gaia.
Paulo Duarte
Custos e proveitos

O investimento feito pelo Centro Hospitalar, que serve directamente 360 mil pessoas nos concelhos de Gaia e Espinho, rondou 28.400 euros, entre material de fetoscopia e 20% do preço do emissor laser. O restante (25.600 euros) acabou por ser suportado pela Fundação EDP, na sequência de uma candidatura apresentada junto da instituição. "O hospital teve esse mérito e a preocupação de investir na saúde materno-infantil do país. Foi sempre uma prioridade", elogia o médico, que desde 2001 lidera este centro que integra a obstetrícia e ginecologia da unidade nortenha.

Este projecto foi uma coisa inovadora, feita de raiz. E com a boa vontade das pessoas - isto é quase por carolice - temos feito algumas cirurgias. Conceição Lopes
Enfermeira do Centro Hospitalar Gaia/Espinho 

Em Abril de 2018, ao final do primeiro ano, tinham sido feitas 11 cirurgias a grávidas de todo o país - de Braga a Portimão, passando por Vila Real, Coimbra ou Lisboa -, com grau de sucesso idêntico ao registado lá fora. Estimando a poupança directa acima de 4.000 euros por cada intervenção (diferença entre os 5.000 euros que custa no estrangeiro e os 900 euros em Gaia), Francisco Valente extrapola para uma década um corte de custos de cerca de dois milhões de euros na despesa do Estado.
O centro liderado desde 2001 por Francisco Valente integra o serviço de obstetrícia e ginecologia do Centro Hospitalar Gaia/Espinho. Anualmente realiza uma média  de sete a oito mil exames no âmbito do diagnóstico pré-natal.
O centro liderado desde 2001 por Francisco Valente integra o serviço de obstetrícia e ginecologia do Centro Hospitalar Gaia/Espinho. Anualmente realiza uma média de sete a oito mil exames no âmbito do diagnóstico pré-natal.
Paulo Duarte
Exercendo um papel importante no contacto pré-operatório com as pacientes e consciente de que a população obstétrica é, à partida, muito motivada - "são grávidas que sabem que têm uma gravidez de risco e querem fazer de tudo para salvar os dois seres" -, a jovem anestesista Ana Milheiro também esteve envolvida desde o início, tendo inclusive participado na criação de protocolos e fluxogramas de actuação que abrangem todas as possibilidades. "O arranque de um projecto tem sempre arestas a limar, mas o ideal é começar com alicerces bem fortes. Porque se isto cresce num terreno de areia, às vezes as coisas desmoronam-se", frisa a clínica.


Mais serviço, menos custos

Futuro? Alargar a outras patologias

Feitos há mais de dez anos em outros países da Europa e América, estes procedimentos só começaram a ser disponibilizados às grávidas portuguesas na Primavera de 2017, a partir do Hospital de Gaia, que foi pioneiro no país - entretanto, a lisboeta Maternidade Alfredo da Costa também começou a fazer cirurgia fetal. "Deixou de ser preciso ir lá fora. Essa foi a inovação: criar o centro e o local, treinar a equipa, adquirir o material. Ocupar essa posição que não existia e melhorar o serviço no SNS, com custos adequados", resumiu o responsável. Os centros estrangeiros ajudaram na formação inicial e continuam a prestar apoio científico. O futuro? Além de atrair mais grávidas, o centro gaiense ambiciona "alargar o projecto a outras patologias".

A figura

Francisco Valente
Coordenador do Centro

Licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1977, Francisco Valente foi o mentor do projecto para realizar cirurgias fetais no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. Natural de Ovar, onde nasceu há 65 anos, o especialista em obstetrícia fez toda a carreira neste hospital. "Este projecto surgiu espontaneamente, foi muito pensado e não houve a pressão para abrir de um momento para o outro", frisa o médico, acarinhado e respeitado pela equipa. Sobre a reacção dos casais, responde que "têm mostrado muita gratidão e confiança, o que é muito compensador e motiva a continuar". "É o que vamos fazer nos próximos anos", prometeu.





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