António Moita
António Moita 13 de outubro de 2019 às 19:10

O Parlamento é um palco

Ainda que num total de duzentos e trinta, ter apenas um deputado pode fazer toda a diferença. Isto, claro, se o deputado for diferente. Arrisco afirmar que se o PAN não tivesse conseguido eleger em 2015 o seu deputado, hoje não existiria ou seria irrelevante.

Sabemos todos que a política tem uma componente de encenação que lhe é inerente e que, quando bem conduzida, permite destruir um opositor ou fazer chegar uma mensagem aos eleitores de forma muito eficaz. Em certo sentido, o Parlamento é um palco onde diariamente são levadas à cena peças teatrais de maior ou menor qualidade com atores mais ou menos experimentados e populares.

 

Tal como no teatro, o que nos é dado ver não é forçosamente real. Quem nunca viu discussões violentas que ultrapassam muitas vezes a fronteira do aceitável entre políticos que mantêm uma relação pessoal de amizade e até de cumplicidade. E quantas vezes não assistimos também ao contrário. Políticos com relações pessoais muito difíceis, mas que em público se desfazem em cumprimentos e elogios. Este artificialismo pode trazer encanto à política especialmente quando os atores são bons. Mas traz consigo a ideia de que nada do que nos é dado presenciar é para levar muito a sério, o que necessariamente provoca afastamento e descrédito.

 

Os debates quinzenais no Parlamento nacional trouxeram vivacidade ao debate político e, especialmente quando o Governo não dispõe de maioria, são o momento de avaliação das tensões existentes entre as diferentes forças políticas. É normalmente aí que se assiste aos maiores confrontos e onde as falhas, deslizes e insuficiências de cada um são exploradas sem piedade. Mas é também aí que os mais pequenos ocupam um espaço normalmente reservado apenas aos maiores.

 

Ainda que num total de duzentos e trinta, ter apenas um deputado pode fazer toda a diferença. Isto, claro, se o deputado for diferente. Arrisco afirmar que se o PAN não tivesse conseguido eleger em 2015 o seu deputado, hoje não existiria ou seria irrelevante. Arrisco por isso afirmar também que as novas forças políticas recém-chegadas ao Parlamento poderão de aqui a quatro anos conseguir ampliar substancialmente a sua representação parlamentar. Se conseguirem ser diferentes insisto. E Iniciativa Liberal e Chega parecem querer sê-lo. 

 

Enquanto o deputado do PAN beneficiou da forma complacente como foi tratado pelos seus pares, já André Ventura e João Cotrim Figueiredo não terão a mesma sorte. É tal a diferença de posicionamento e de discurso que, mais o primeiro, mas também o segundo, não poderão esperar ser recebidos com qualquer gesto de simpatia ou mensagem de boas-vindas. Os partidos do sistema vão sentir-se ameaçados e não estão preparados para responder a novas narrativas a não ser com as frases do costume. O problema é que boa parte dos eleitores estão fartos das banalidades e ficarão tentados a acolher mensagens de rutura, manifestações violentas antissistema e acusações contra a classe política, propostas radicais na segurança, na justiça, na educação ou nos impostos que, com maior ou menor grau de demagogia e populismo, farão o seu caminho e reforçarão as posições relativas daqueles que estiverem na primeira linha. Por toda a Europa tem sido assim. O início da recomposição do espetro partidário em Portugal começou agora. Vamos ver no que dá este combate pela sobrevivência política entre velhos e novos protagonistas. O palco será o Parlamento e o espetáculo promete. Eu já comprei bilhete para toda a temporada. 

 

Jurista

 

pub

Marketing Automation certified by E-GOI