Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 13 de outubro de 2019 às 18:15

Fazer o mal e a caramunha: quando acabam os juros baixos?

Porém, as forças para a continuidade dos juros baixos parecem vencer. As tensões e os interesses acumulados são de tal ordem que a inversão traria custos, de curto e médio prazo, que os actuais quadros políticos não comportam.

"O que os BC (bancos centrais) e a máfia têm em comum: ambos possuem o monopólio do crime, de criar poder de compra do nada e vendem segurança melhor que a concorrência."

 

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil, em 26 de Agosto de 2019 

 

"O ambiente de baixas taxas de juro dos anos recentes pode requerer uma postura mais activa das autoridades macroprudenciais, já que contribuiu para o aumento de vulnerabilidades e riscos para a estabilidade financeira."

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, em 8 de Outubro de 2019

Depois da surpresa da baixa dos juros e da explosiva emissão monetária para níveis nunca vistos, estamos agora com o espanto da sua continuidade, que parece sem fim, para além do período de ataque às manifestações mais agudas da recessão. A insistência nesta política começa a causar mal-estar mesmo internamente aos bancos centrais. Muitos começam a interrogar-se sobre a legitimidade e os efeitos de uma política que se usava apenas em situações de emergência.

 

Os efeitos nocivos são cada vez mais reconhecidos. A redistribuição da riqueza em benefício dos mais poderosos. A ineficácia e perversão na acumulação do capital real e a quebra da produtividade. A acentuação desmesurada do peso do sector financeiro na economia. O prolongamento da duração do ciclo financeiro. O agravamento da instabilidade financeira e económica.

 

Alguns admitem que esta política veio para ficar, a economia pode adaptar-se a esta situação.

 

Outros pensam que isto não se pode prolongar, há que preparar a normalização, que mais não seja para voltar a ter margem em situações agudas que inevitavelmente se irão verificar.

 

Afinal isto pode continuar assim indefinidamente? Se não, quando acaba?

 

Grande parte do erro em curso deve-se à incompreensão de uma das questões mais antigas da teoria económica: a natureza e a função do juro. O erro em curso parte da ideia que o juro é uma variável como as outras, de grande importância é certo, mas que os decisores podem e devem manipular à vontade - com poucos e nenhuns constrangimentos - para obterem os seus objectivos.

 

Ora, o juro representa uma das mais elementares leis económicas: é a manifestação das preferências temporais dos indivíduos. Numa economia de escassez sempre preferimos ter um bem hoje a possuí-lo amanhã. O juro representa o custo que atribuímos a ter o bem amanhã em vez de o ter hoje e tem o papel central na obtenção dos equilíbrios económicos entre o consumo, a poupança e o investimento desejados pelos indivíduos.

 

A intrusão de um agente, a reprimir a formação no mercado de um juro representativo da agregação das preferências temporais dos indivíduos, fixando centralmente, por um longo período, um valor manifestamente abaixo dos desejos mais profundos destes não pode deixar de ter perniciosos efeitos desestruturadores na sociedade.

 

Porém, as forças para a continuidade dos juros baixos parecem vencer. As tensões e os interesses acumulados são de tal ordem que a inversão traria custos, de curto e médio prazo, que os actuais quadros políticos não comportam. A economia vai por isso piorar, a dependência dos juros baixos vai sofrer aumentos brutais e crescentes. A inversão tem de ocorrer para a economia melhorar mas aquela apenas se verificará no rescaldo de rebentamento da bolha dos juros baixos, que só pode ser catastrófico.

 

No centro desse acontecimento estará o excesso da tomada de riscos que os bancos centrais cada vez mais temem e verbalizam mas que não conseguirão enfrentar. O monstro que criaram já não é domável. A normalização da política monetária já não parece possível fora de um contexto reconstrutivo a seguir a uma calamidade económica precipitada por um qualquer acontecimento imprevisível, mas provável, dada a enormidade da acumulação de riscos.  

 

Economista e professor no ISEG

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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