Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 22 de março de 2018 às 20:50

Como mentir bem no currículo

Nem todos inventam com Berkeley, mas é fácil imaginar a quantidade de pessoas que revisitam mentalmente as suas omissões, mentirinhas ou mentiraças no CV durante a defenestração de um Barreiras Duarte.

Quem escrever "como mentir no" na barra de pesquisa do Google obtém como primeiro resultado automático "como mentir no currículo". Vem à frente de candidatos à partida mais óbvios: "como mentir no dia 1 de Abril", "como mentir nos impostos" ou "como superar uma mentira num relacionamento". É um indicador pouco científico, concedo, mas não deixa de ser um sinal: muita gente mente nos seus currículos. Não são todas mentiras com estatuto de "visiting scholar em Berkeley", mas vão certamente da omissãozinha à pura mentira.

 

Até certo ponto isto faz parte do sistema. Numa peça no jornal Dinheiro Vivo com o sugestivo título "Devo mentir no currículo para tentar conseguir o emprego?", publicada em 2014, uma guru de currículos não foi ao ponto de aconselhar a mentira, mas recomendou várias pequenas omissões e truques para branquear longos períodos sem trabalhar ou outras realidades desconfortáveis. As histórias más são para "saltar" ou, em alternativa, devem ser contadas "de forma positiva". Os conselhos para as entrevistas que se juntam aos currículos são quase sempre no sentido do auto-inflacionamento - a aparência é tão ou mais importante do que a realidade.

 

Numa cultura de pressão para o sucesso, na batalha por status numa economia difícil, o valor das habilitações académicas é muitas vezes reduzido ao de uma credencial para pôr na lapela. Não admira por isso que tanta gente caminhe sobre a linha fina que separa a omissão e da mentira no CV. Não surpreende que tanta universidade venda grandes notas a dissertações de mestrado ilegíveis - como a de Feliciano Barreiras Duarte, cujas "conclusões" se tornaram virais na internet -, que tanta gente recorra ao plágio desbragado ou que insista em fazer um curso-relâmpago com exames ao domingo. Acontece em Portugal e em toda a parte: com grandes executivos nos Estados Unidos (antes de ser o analista mais bem pago nos anos 90 em Wall Street, Jack Grubman mentiu ao dizer que tinha passado pelo prestigiado MIT), com advogados reputados em Inglaterra, com vários políticos em ascensão na Alemanha, na Hungria, na Roménia ou em Espanha, onde corre neste momento uma polémica sobre o mestrado de uma destacada dirigente do PP.

 

Para quem está a tentar subir no sector privado ou nos bastidores dos partidos, a mentira bem plantada é um risco que pode compensar durante algum tempo (apesar da frequência com que os directores de recursos humanos dizem que apanham os mentirosos). Mas quando alguém chega a um cargo de destaque na política, a mentira transforma-se num fardo. Nuno Crato fez história quando foi à SIC expor as fragilidades óbvias do currículo do seu colega Miguel Relvas, a gota final que levou à demissão de Relvas. A mentira no CV de um político tornou-se inaceitável e, de caminho, virou arma de arremesso eficaz contra os adversários.

 

Não quero que o leitor pense que tenho pena de Barreiras Duarte - não tenho - ou que estou a relativizar a diferença entre uma omissãozita aceitável (quem nunca?) e uma mentira óbvia. O que quero dizer com tudo isto é que a tentação para falsificar o CV é tanto de políticos como de muito boa gente. Imagino a quantidade de pessoas que devem revisitar mentalmente as suas omissões, mentirinhas ou mentiraças no currículo quando a defenestração de um Barreiras Duarte aparece nos media. Talvez tenham tido sorte ou talvez tenham mentido bem - não será por acaso que quando escrevemos "como mentir no" no Google, um dos resultados mais populares seja "como mentir bem no currículo".

 

Jornalista da revista Sábado

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