Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 17 de janeiro de 2020 às 09:20

O dr. Centeno não lida bem com a verdade

O dr. Centeno não lida nada bem com a verdade. Se o BCE não estivesse no mercado, desde 2015, a comprar dívida (entre elas a portuguesa), os juros da dívida nunca teriam caído para o patamar em que se encontram hoje.

A FRASE...

 

"A redução consistente nos juros pagos é um reflexo estrutural daquilo que acontece neste momento em Portugal."

Mário Centeno, Conferência da Ordem dos Economistas, 15 de janeiro de 2020

 

A ANÁLISE...

 

O ministro das Finanças tem um problema: tudo o que de bom acontece em Portugal, deve-se a ele. Tudo o que de mau sucede, é atribuível a outros. Desta vez, o assunto foram os juros. Num discurso proferido na 15.ª conferência da Ordem dos Economistas, Centeno atirou-se à ideia de que os juros baixos se devem à sua política (orçamental) e não ao BCE. Essas taxas, diz o ministro, "não são por causa do BCE; são consequência da credibilidade orçamental que Portugal ganhou desde 2016".

 

O dr. Centeno não lida nada bem com a verdade. Se o BCE não estivesse no mercado, desde 2015, a comprar dívida (entre elas a portuguesa), os juros da dívida nunca teriam caído para o patamar em que se encontram hoje. Nem os juros portugueses, nem os espanhóis, nem os gregos... nem italianos. Mais: nem sequer os juros alemães (o país com maior credibilidade orçamental no mundo) teriam caído para os valores atuais. Desvalorizar, por isso, o papel do Banco Central Europeu neste processo é uma manifestação de vaidade que não encontra correspondência na competência de Mário Centeno.

 

Significa isto que a política orçamental portuguesa não contou para a baixa dos juros? Não. Mas também não foi a política seguida pelo governo no 1.º semestre de 2016. É bom recordar que os juros portugueses chegaram a encostar nos 4% enquanto Centeno e Costa defendiam uma política económica baseada nos estímulos orçamentais e no consumo... Só no segundo semestre, quando os mercados e as agências de rating perceberam que o Governo dizia uma coisa e fazia outra (cativações brutais de despesa, mesmo nas barbas de PCP e Bloco de Esquerda), é que as coisas mudaram.

 

Mário Centeno devia pensar duas vezes nas coisas que diz. Não só porque declarações como as de 4.ª feira são motivo de risota generalizada em Frankfurt... mas porque no mesmo dia em que fez aquelas declarações, a Comissão Europeia veio dizer que o Orçamento para 2020 consagra um aumento do défice estrutural (ao contrário do que dizia o documento que o Governo enviou a Bruxelas em abril passado). Ouch!

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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