Carlos Almeida Andrade
Carlos Almeida Andrade 12 de agosto de 2016 às 00:01

Mais rápido, mais alto e mais forte? A economia dos Jogos Olímpicos

Com a medalha de bronze obtida por Telma Monteiro, Portugal chegou ao total de 24 medalhas no seu historial de participação nos Jogos Olímpicos.

Em 2012, Portugal conquistou uma medalha de prata; em 2008, obteve uma de ouro e uma de prata; em 2004, duas de prata e uma de bronze; e em 2000, duas de bronze. Como deve ser avaliado este registo, que é frequentemente classificado como uma desilusão? E como devem ser encaradas as expectativas de que Portugal poderia obter cinco a 10 medalhas nos Jogos do Rio? O sucesso individual de um atleta depende do seu talento, trabalho, sacrifício e alguma dose de obsessão em ser o melhor. Mas, olhando para o desempenho por país, tem sido possível estimar, com um grau elevado de aproximação, o número de medalhas obtidas em função de factores económicos e sociais. Logo à partida, a dimensão de um país, medida pela sua população. Quanto maior a população, maior a escala da prática desportiva e maior o número de talentos. A capacidade económica - medida, por exemplo, pelo PIB per capita - é também um factor diferenciador, reflectindo uma maior capacidade de investimento em instalações desportivas, maiores apoios financeiros aos atletas e melhores condições ao nível da saúde e alimentação (um forte financiamento público do desporto olímpico pode também resultar de estratégias de afirmação política em regimes centralizados). Outros factores incluem o desempenho em Jogos passados e a vantagem de ser o país anfitrião. Países com maior participação feminina no desporto tendem, também, a exibir melhores desempenhos.

 

Diversos modelos incorporando estas variáveis têm conseguido estimar resultados muito próximos dos observados. Por exemplo, um destes modelos ("Olyimpic medals: Does the past predicts the future?", Julia Bredtmann, Carsten J. Crede e Sebastian Otten, Significance, Royal Statistical Society, June 2016) estimou que os EUA deveriam ter conquistado 105 medalhas nos Jogos de 2012, em Londres, o que compara com o resultado obtido de 103. No caso do Reino Unido, a estimativa de 60 medalhas compara com o resultado de 65. No caso de França, 39 vs. 34. No caso de Itália, 26 vs. 28. E, no caso de Espanha, 18 vs. 17. Por regra, não surgem referências explícitas a Portugal mas, aplicando alguns destes modelos à realidade social e económica portuguesa, estima-se a obtenção de uma a duas medalhas nos Jogos do Rio, abaixo da sugestão de que Portugal deveria obter cinco a 10 medalhas. Mesmo admitindo uma melhoria no futuro, os factores explicativos do desempenho olímpico não se alteram significativamente em poucos anos. No caso português, os resultados podem também ser restringidos pela clara concentração dos recursos no futebol (é também neste desporto que os jovens vêem, predominantemente, modelos de sucesso a replicar). Note-se que nada disto impede que Portugal obtenha, nos Jogos do Rio, um desempenho melhor do que o estimado. Estes modelos explicam tendências. O que se pretende afirmar é que a obtenção de uma, duas ou três medalhas não deveria ser vista como uma desilusão. E qualquer resultado acima disto deve ser entendido como superando as expectativas. O que é um erro é exigir resultados em função de uma percepção errada da realidade. Algo que é extensível a outras dimensões da vida do país, como a económica. E que nos leva, muitas vezes, a exigir coisas que achamos que devemos ter sem, antes disso, nos preocuparmos em criar as condições para as podermos ter.

 

Economista 

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