Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 26 de agosto de 2018 às 20:00

Processo de desalavancagem continua, mas muito devagar! 

Se analisarmos o endividamento pelos três segmentos, famílias, empresas e setor público, verificamos que quem desalavancou mais nos últimos anos (em % do PIB) foram as famílias e as empresas.

Banco de Portugal divulgou recentemente os últimos dados da alavancagem/endividamento do setor não financeiro.

Se atendermos à dívida das famílias, empresas e setor público, no final do primeiro semestre de 2018, esta atingiu um valor equivalente a 367,7% do PIB, ou seja, quase quatro anos da riqueza gerada em Portugal.

 

Apesar da recente redução do indicador (381,6% do PIB em junho de 2017), esta é modesta tendo em conta o atual ciclo positivo da economia. O endividamento da economia é ainda muito elevado, situação preocupante, à medida que o atual ciclo de taxas de juro na Europa está mais perto do fim.

 

Provavelmente em 2019, sendo difícil nesta altura antever se no primeiro ou no segundo semestre, iremos assistir ao início do ciclo de subida das taxas de juro na Europa. Quando tal acontecer e face aos elevados volumes de dívida, os encargos financeiros facilmente irão progredir numa amplitude bastante razoável.

 

As taxas de juro estão em mínimos históricos e, qualquer subida em valor absoluto, irá traduzir-se numa grande variação relativa.

 

Se analisarmos o endividamento pelos três segmentos, famílias, empresas e setor público, verificamos que quem desalavancou mais nos últimos anos (em % do PIB) foram as famílias e as empresas.

 

Do total do endividamento face ao PIB em junho de 2018 (367,7%), as famílias representavam 72,4% do PIB (74,8% um ano antes); as empresas privadas representavam 133,2% do PIB (138,4% um ano antes) e o setor público não financeiro representava 162,1% do PIB (168,4% um ano antes).

 

No segmento das famílias, a principal fonte de endividamento é o crédito à habitação. O peso deste tipo de dívida no final de junho de 2018 era de 50,5% do PIB (53,2% um ano antes).

 

No segmento das empresas privadas, o valor de 133,2% do PIB estava distribuído da seguinte forma: microempresas em número de 344 mil era de 33,3%, pequenas empresas em número de 34 mil era de 22,1%, médias empresas em número de 6 mil era de 24,8%, as grandes empresas em número de mil era de 42,1% e as sedes sociais em número de 2 mil era de 10,9%.

 

Ou seja, a dívida abunda em todos os segmentos de empresas, desde a mais pequena à maior. As empresas nacionais são mais alavancadas que a média europeia. Os capitais próprios deveriam ser superiores. Não sendo, esta situação coloca as empresas mais endividadas numa situação frágil, face à ação de fatores de risco como a inversão do ciclo económico ou a redução do ritmo de expansão do PIB, a subida das taxas de juro, o peso da estrutura de custos fixos das empresas, maiores dificuldades de geração de negócio e de libertação de margens pela entrada de novos concorrentes ou pelo acréscimo do protecionismo comercial (subida de tarifas alfandegárias), entre outros.

 

Finalmente, no segmento do setor público não financeiro, o valor dos 162,1% de endividamento face ao PIB é repartido em 158,6% pela administração pública (que inclui algumas empresas públicas) e 3,6% pelas empresas públicas que não estão incluídas na administração pública.

 

Neste segmento, a redução da dívida deveria ter sido mais rápida nos últimos dois anos, aproveitando o ambiente económico benigno.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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