Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 13 de fevereiro de 2020 às 20:27

As galinhas dos nossos vizinhos

A produtividade, medida pela utilização de capital por unidade de produto, eficiência marginal do capital ou produtividade total dos fatores, é claramente mais baixa em Portugal.

Periodicamente, a avaliação do desempenho económico nacional oscila entre comprazimento e fustigação. Nos últimos anos, a economia portuguesa tem crescido mais que as maiores economias da área do euro, embora tenha perdido terreno face às mais pequenas. Comparativamente com economias da União Europeia de dimensão idêntica em produto per capita e/ou população (como por exemplo: Eslovénia e Eslováquia – ambas da Zona Euro –, ou República Checa e Hungria – fora do euro), a economia nacional tem revelado níveis de expansão mais lentos. Estes quatro países, nos cinco anos terminados em 2018, observaram crescimentos reais médios anuais superiores a 3%1, que comparam com cerca de 2% registados em Portugal.

Apesar da despesa pública e carga fiscal marginalmente superiores em Portugal, inflação, peso do investimento direto estrangeiro (com maior orientação para setores de bens e serviços não transacionáveis em Portugal), investimento em investigação e desenvolvimento, qualificação da força de trabalho, resultados da educação nos três graus de ensino, adoção de tecnologias de informação e comunicação, ou salários apresentam evoluções similares.

As principais diferenças emergem da análise da estrutura do produto interno (abreviadamente PIB). O peso da agricultura e manufaturas nas economias leste-europeias é significativamente mais elevado que em Portugal, onde os serviços, como comércio, atividades imobiliárias, TIC, serviços empresariais, assumem maior relevância relativa. Por exemplo, enquanto a indústria manufatureira representa 31% do PIB na República Checa ou 25% na Eslováquia, situa-se em 18% em Portugal. O comércio com contributo de 25% para o PIB português corresponde a 18% e 20% naquelas economias, respetivamente. A divergência é ainda mais notável quando se confronta a participação das exportações ou o grau de abertura ao exterior. Estas economias evidenciam graus de abertura na ordem dos 80% quando Portugal apenas nos últimos cinco anos se elevou do patamar de 35%, característico de economias de maior dimensão como Espanha ou França. A competitividade preço ainda favorece as economias leste-europeias (neste grupo apenas a Eslovénia apresenta um salário mínimo superior ao português, avaliado em termos de paridade de poder de compra e o nível de preços em Portugal corresponde a 75% da OCDE que compara com 65% na média daquele grupo). A produtividade, medida pela utilização de capital por unidade de produto, eficiência marginal do capital ou produtividade total dos fatores, é claramente mais baixa em Portugal.

Outro elemento distintivo: a demografia. A população portuguesa, concretamente a força de trabalho, é mais envelhecida. A taxa de fertilidade é inferior, no entanto, a percentagem de população estrangeira é mais alta. Ou a poupança: taxa de poupança (nível de endividamento global) é mais elevada (baixo) do que em Portugal.

Analisando as principais diferenças, poder-se-á lançar um olhar moderadamente otimista sobre o futuro económico português. Com efeito, emergem sinais encorajadores. No que respeita à demografia: a taxa de fertilidade interrompeu a queda e o saldo migratório melhorou. A diferença estrutural do PIB está a esbater-se. Porquanto em Portugal assistiu-se a uma recuperação do peso da manufatura (em parte pelo forte encolhimento de setor da construção) e as exportações continuam a ganhar terreno, nas economias de Leste o contributo da indústria e agricultura encontra-se em suave queda. Em termos de preços, registam-se subidas superiores a 20% do salário mínimo (corresponde a 42% do rendimento médio) neste grupo de economias e convergência de poder de compra.

A aproximação de patamares de maior dinamismo económico pela economia portuguesa, baseada na aquisição de características mais favoráveis ao desafio concorrencial global, prossegue. Todavia, o esforço presente carece de impulso decisivo. A reduzida utilização de capital por unidade produzida, a fraca evolução da produtividade total dos fatores, a demografia das empresas, designadamente a dimensão impeditiva de aproveitamento de economias de escala, exigem mudança, para a qual é indispensável maior poupança e a sua melhor aplicação. Sem poupança (ou sem geração de capital), perde-se controlo sobre o caminho e a capacidade de escolha de objetivos e processos é alienada.

 

Sem poupança, perde-se controlo sobre o caminho e a capacidade de escolha de objetivos e processos é alienada.
pub

Marketing Automation certified by E-GOI