Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 09 de agosto de 2018 às 20:02

Deixe como encontrou, por favor  

A sustentabilidade do modelo económico deve ser enquadrada, no mínimo, com seguinte objetivo: deixar o planeta como se encontrou.

Nos últimos anos, observam-se fenómenos climáticos extremos, conduzindo a cenários de catástrofe como incêndios descontrolados, secas prolongadas, chuvas torrenciais, terramotos, maremotos,… É inquestionável que no passado quaisquer destes acontecimentos extremos também ocorreram; não constituindo absoluta novidade aquilo a que se assiste na atualidade. Encontram-se relatos de fomes, pestilências, variações extraordinárias de condições climáticas, ou extinções maciças de espécies. Contudo, a ação humana em relação a estes acontecimentos é, presentemente, maior que no passado e as suas consequências imediatas estão igualmente mitigadas no curto prazo.

 

Se o modelo económico atual caracterizado por elevado ritmo de consumo, produção global massificada, e crescente afastamento de ciclos naturais é diretamente responsável pela elevação do nível de vida de muitas populações, contribuindo fortemente para a redução de enormes bolsas de pobreza em múltiplos países, é igualmente devedora de um padrão de forte rotatividade do consumo. O ciclo de vida de um produto manufaturado encurtou - todos os quatro anos se espera que o automóvel seja substituído, todos os dois ou três anos se antecipa a compra de um novo telemóvel, ou o ciclo da moda deixou de se cingir a duas estações para ser um contínuo de avanços de coleção. A alimentação libertou-se do ciclo da natureza, contando poder-se comer, por exemplo, morangos todo o ano. O peixe ou a carne colocados nas prateleiras dos supermercados resultam de processos de industrialização com a proliferação de unidades industriais de produção de suínos, aves de capoeira, ou douradas e robalos. A concentração das populações em grandes cidades favorece igualmente o corte da ligação ao ciclo da natureza.

 

As sucessivas ondas de revolução industrial e a recente globalização estão a exercer uma forte pressão sobre os recursos do planeta e a sua capacidade de renovação. Certamente, no futuro, este padrão de produção e consumo poderá ser suportado sem colocar em causa o equilíbrio do planeta. Nesse sentido, um reencontro com a natureza e o seu ciclo podem ser importantes. De igual modo, o modelo de transportes, em vez de ser dominado por questões de automóveis elétricos ou automáticos, deverá passar por uma lógica de partilha de transporte ou uma nova versão de transportes públicos. O princípio de reutilização, reciclagem ou recuperação de materiais, peças, utensílios, deverá dominar as preocupações na produção e consumo. A procura pela satisfação hiperbólica das necessidades individuais favorecerá o desenho e entrega únicos, reduzindo a necessidade de embalagem, mas colocando desafios à distribuição e logística.

 

Neste momento, a pegada da humanidade afigura-se uma impressão demasiado forte. Donde, enquanto não se evoluir para um modelo económico mais sustentável, importa engendrar uma transição suportável. Na medida em que cada geração faz uma ocupação temporária do planeta, deve-se encarar esse estabelecimento como arrendamento de um espaço. Assegurando que não existe um retrocesso no processo de redução global da pobreza e mantendo avanços regulares de produtividade, importa garantir que a qualidade de vida intertemporal (outra forma de dizer será: a saúde do planeta) não é posta em risco. A sustentabilidade do modelo económico deve ser enquadrada, no mínimo, com seguinte objetivo: deixar o planeta como se encontrou numa perspetiva de sustentabilidade intertemporal de condições de vida. Ou seja, se não se conseguir melhorar, pelo menos, evitar estragar.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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