Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 28 de março de 2019 às 21:10

O futuro passa por aqui

Uma das principais fragilidades da economia portuguesa é o modesto crescimento da produtividade. No recente processo de recuperação económica, constata-se que do conjunto das economias sob programa, Portugal observa menores progressos ao nível da produtividade do fator trabalho que Espanha ou Irlanda.

A par de questões associadas ao baixo nível de capital utilizado na produção, o grau de qualificação da força de trabalho é avançado como uma desvantagem comparativa nacional. É ainda um facto que o nível global de escolarização em Portugal é inferior à maioria das economias europeias. Na atualidade, o setor exportador tem desempenhado um papel destacado na expansão económica, apoiado na diversificação setorial e na incorporação de maior valor acrescentado no conteúdo exportado. Como se vê pela intensificação das tensões comerciais, o futuro do sucesso exportador de uma economia depende da sua capacidade de planeamento, inovação e execução - capacidades diretamente associadas à qualificação da população. As economias emergentes, com a China na proa, evidenciam como em poucas gerações um considerável hiato de qualificações poderá ser reduzido com sucesso.

 

A continuação da expansão da economia portuguesa passa por avanços no seu grau de abertura por via do aumento das exportações, colocando a produção nacional em concorrência direta com os produtos do Resto do Mundo. Ora, é imperioso manter a recente capacidade de ganhos de quota de mercado demonstrada, sendo para tal decisivo o progresso a respeito da qualificação da população.

 

Os sinais são favoráveis, na medida em que se assiste a um encurtamento do desajuste educativo. Num estudo recentemente publicado pelo Banco de Portugal sobre a escolarização da força de trabalho portuguesa, constata-se que, para além do aumento do nível de escolaridade, assiste-se a uma transição para ocupações mais exigentes em termos de competências no caso das gerações mais jovens de trabalhadores. Recorrendo de noções de sub ou sobre-escolarização, entendidas como falta ou excesso de escolaridade (apenas educação formal) em relação à adequada para a função desempenhada, no período entre 1995 e 2013, observa-se uma redução da subescolarização de 64,6% para cerca de 35,0%. Em 2013, a subescolarização é inferior a 10% para trabalhadores até 10 anos de experiência enquanto permanece em 60% para trabalhadores com mais de 30 anos de experiência. Por seu turno, a sobre-escolarização, praticamente inexistente (0,9%) no início do período, permanece pouco relevante (5,1% da força de trabalho) em 2013.

 

Importa salientar que as observações de sobre-escolarização acontecem quase em exclusivo no caso de funções administrativas, sendo o nível de subescolarização mais acentuado em funções técnicas. O aumento da proporção de trabalhadores com escolaridade terciária (ensino superior) de 3% para 16% não correspondeu a uma distribuição uniforme intersetorial. Com efeito, os trabalhadores mais qualificados têm sido maioritariamente contratados por serviços (desempenhando funções administrativas); tanto mais que o seu peso tem crescido neste setor por contrapartida com queda do seu peso na indústria transformadora. No que respeita à comparação internacional, Portugal apresenta elevado nível relativo de subescolarização e, em simultâneo, encontra-se entre os países com menos incidência de sobre-escolarização. Esta desvantagem reflete essencialmente os baixos níveis de escolaridade das gerações mais velhas nas profissões com qualificações intermédias, tendo-se esbatido nos últimos vinte anos. Destaca-se ainda o facto (positivo) do diferencial na proporção de profissões altamente qualificadas que se verificava entre Portugal e a União Europeia em 2007 se ter reduzido significativamente na década seguinte.

 

A evolução da qualificação da força de trabalho portuguesa avança da direção desejável, podendo potencializar um salto no produto potencial e ganhos de competitividade. Porém, a tradução deste progresso em acréscimos de produtividade depende da criação de empresas adequadas à absorção das competências geradas, sob pena do esforço de qualificação ser desbaratado.

 

Economista

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