David Bernardo
David Bernardo 26 de março de 2018 às 19:30

Tadinho do Facebook 

Estas grandes empresas têm como princípio "é melhor pedir desculpa do que autorização" e, com frequência, quando as apanham nos crimes que cometem já é tarde. Já podem pagar aos melhores advogados que conseguem dar a volta ao sistema.

Mark Zuckerberg, de menino-prodígio, passou a vilão numa questão de dias. O Facebook afinal não é a brincadeira de crianças que parecia. Nas últimas semanas, foram divulgadas notícias sobre várias empresas que conseguiram recolher grande quantidade de dados de utilizadores do Facebook para serem utilizados para diversos fins, incluindo, influenciar as eleições para a presidência dos Estados Unidos. 

 

Na sua melhor T-shirt, Mark seguiu as regras de relações públicas e pediu desculpa, informando que vão lançar uma investigação e que não vão tolerar mais abusos. Abusos estes que eles têm cometido vezes sem conta: "Enganámo-nos a cobrar a publicidade (a nosso favor). Desculpem." Mas não devolveram aos que enganaram; "Jamais vamos cruzar dados entre Facebook e WhatsApp, seria impossível... oops, cruzámos." 120 milhões de multa numa transação de quase 20 mil milhões de dólares. Palmada na mão. 

 

A verdade é que deixámos estas empresas crescer sem controlo, e agora a sociedade começa a pagar o preço. Vários "experts" achavam que estas empresas, Amazon, Google, Facebook, etc., eram uns loucos de Silicon Valley que davam coisas grátis. O que aconteceu foi que entenderam o valor de algo antes que todos os outros o fizessem. O novo ouro, os dados. E demos-lhes (e continuamos a dar-lhes) os nossos dados por um preço baixo. Quem foram os idiotas aqui? Ofereceram-nos e-mail, busca, álbuns de fotos e redes sociais grátis e com isso leram os nossos e-mails, viram as nossas fotos, quem são os nossos amigos, o que vestimos e o que procuramos. Dados! Para que servem os dados? Para nos conhecerem, muitas vezes melhor do que nós mesmos, e com isso preverem os nossos comportamentos e influenciarem-nos no que compramos, decidimos, etc. 

 

A tecnologia esteve por demasiado tempo sem controlo ou legislação, e excelentes campanhas de relações públicas fizeram com que estes empreendedores sejam os novos grandes heróis. As crianças já não querem ser como o Indiana Jones ou o James Bond, agora querem ser como o Elon Musk ou Mark Zuckerberg. 

 

O que fazer? Dois temas mais imediatos podem ter sentido: 1 - Legislação adequada; 2 - Dividir estas empresas em outras mais pequenas.

 

Por exemplo, separar o Facebook em três empresas mais pequenas com menos poder: rede social, WhatsApp e Instagram.

 

No entanto, estas grandes empresas têm como princípio "é melhor pedir desculpa do que autorização" e, com frequência, quando as apanham nos crimes que cometem já é tarde. Já podem pagar aos melhores advogados que conseguem dar a volta ao sistema. As multas ainda que pareçam avultadas, milhares de milhões de euros, com frequência valem a pena para as empresas e não são suficientemente relevantes quando comparadas com o seu valor.  A estratégia da Uber, por exemplo.

 

Estas empresas têm algumas das mentes mais brilhantes do planeta a trabalharem para elas e em temas complexos, como a inteligência artificial, os legisladores nem sequer entendem o impacto futuro das inovações. A globalização real que estamos a viver pela primeira vez na história também tem um impacto profundo, já que muitos países estão dispostos a tolerar os abusos destas empresas a troco de impostos. Ao mesmo tempo, empresas como a Amazon aumentaram quatro vezes os seus investimentos de "lobbying", que lhes permitem influenciar as decisões políticas. Sempre dois passos à frente.

 

O tema não é simples e vai complicar. Os grandes desafios da tecnologia já não são temas de "hardware" ou "software", agora são temas legais, de ética e moral, e a sociedade tem de estar preparada para eles.

 

Partner litsebusiness.com e professor de e-commerce e marketing digital na Nova SBE

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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