João Costa Pinto
João Costa Pinto 13 de janeiro de 2020 às 19:25

Os bancos e a economia - (III)

Entretanto acumulam-se efeitos colaterais perversos, que vão desde a penalização do aforro até à distorção da avaliação do risco, passando por uma transferência de rendimento a favor de devedores e de investidores financeiros.
1. A avaliação da situação actual dos nossos bancos - em particular, o modo como estão a financiar a economia - deve ser feita à luz das pressões que estão a moldar a actividade bancária na Europa do euro. Pressões que resultam da acção convergente do BCE e da Supervisão Única, conduzida num contexto internacional marcado pela incerteza e por novos riscos.

 

Para compreender o impacto global da acção do BCE sobre os bancos, temos de avaliar as implicações da sua decisão de prolongar - por tempo indefinido - uma política assente em taxas de juro negativas. Tradicionalmente - num contexto de taxas de juro positivas - a política monetária procurava influenciar as decisões dos agentes económicos - investidores, consumidores e aforradores - através da manipulação das taxas de juro oficiais(*). Um "corte" favorecia a procura de crédito bancário, com reflexos positivos sobre a actividade económica e o emprego. Na Europa do euro este era o mecanismo responsável por mais de dois terços do financiamento de toda a actividade económica.

 

A crise financeira de 2007/2008 veio bloquear este mecanismo, devido à convergência de múltiplos factores: à exposição de bancos sistémicos europeus, primeiro, ao mercado americano de instrumentos de elevado risco, depois, às dívidas soberanas de economias muito alavancadas; à fragmentação dos mercados interbancários; à deterioração rápida da situação económica da Zona Euro.

 

Como resultado, o volume de crédito bancário caiu, enquanto crescia a liquidez que os bancos parqueavam no balanço do BCE. Este, alarmado com a ameaça de deflação, impôs juros negativos aos depósitos dos bancos e injectou volumes crescentes de liquidez nos mercados.

 

Ao contrário da política monetária tradicional - conduzida num ambiente de taxas de juro positivas - esta medida do BCE não procura favorecer o financiamento da actividade económica através do aumento da procura de crédito, mas antes "forçar" os bancos a incrementar a oferta de crédito. O que, por sua vez, pressupõe um quadro macroeconómico favorável ao aumento da procura de financiamento. No entanto, na ausência deste enquadramento - dado que as economias da Zona Euro continuam a debater-se com um crescimento anémico - a liquidez tende a acumular-se no balanço dos bancos que, por sua vez, privilegiam aplicações com baixo custo de capital e/ou com rendimento mais elevado - dívida pública, imobiliário e consumo. Deste modo o financiamento ao tecido produtivo permanece "atrofiado" - em particular ao investimento e à inovação. Entretanto acumulam-se efeitos colaterais perversos, que vão desde a penalização do aforro até à distorção da avaliação do risco, passando por uma transferência de rendimento a favor de devedores e de investidores financeiros.

 

2. Para além, no entanto, do impacto da política monetária, a compreensão das transformações que estão a mudar a actividade bancária passa ainda por ter presente a acção da Supervisão Única. Esta adoptou uma orientação que se propõe impulsionar um movimento de concentração bancária, com um objectivo último: favorecer o desenvolvimento dos mercados de capitais.

 

As vendas forçadas de carteiras de créditos de baixa qualidade e risco elevado por parte de muitos bancos e que resultam de pressões regulamentares crescentes, contribuem para acelerar este processo (a continuar). 

 

(*) - taxas de juro do BCE

Economista

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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