Edson Athayde
Edson Athayde 28 de janeiro de 2020 às 19:30

Para não esquecermos o Dia da Memória

Saímos de milénios em que o meio mais expressivo de se contar a história era a oralidade para cairmos no colo dos meios digitais, tão confiáveis quanto a boca de uma vizinha fofoqueira ou as lembranças de um político aldrabão.

É mais fácil esquecermos o que não queremos lembrar do que lembrar o que não podemos esquecer. A nossa memória, como qualquer coisa humana, é falha, tendenciosa, manipuladora, obtusa.

 

Gostaria de concordar com Eduardo Galeano, que dizia: "A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais do que eu: e ela não perde o que merece ser salvo."

 

Perde, perde sim. Não fosse isto o Dia da Memória das Vítimas do Holocausto não precisaria ser assinalado a cada 27 de janeiro. Foi o que aconteceu esta semana, um pouco por todo o mundo.

 

A novidade, ao menos para mim, 75 anos após a libertação de Auschwitz-Birkenau, foi perceber que o negacionismo ao Holocausto saiu definitivamente da gaveta em que estava guardado junto com o antissemitismo.

 

O ar dos tempos é aquele que inclui movimentos de braços ao ar em reuniões partidárias aqui da aldeia, um secretário da Cultura de um país continental como o Brasil a recitar Goebbles ao som de Wagner, um Presidente dos EUA a passar a mão na cabeça de neonazis pois, afinal, há pessoas boas e más em qualquer movimento (discurso após Charlottesville).

 

Sem memória não há história ou há um arremedo desta. A memória social é o tecido que fabrica algo a que chamamos contexto, o barro com que construímos uma ideia da verdade.

 

É por isso que governos autoritários gostam de queimar livros ou impedir a circulação dos que considera danosos para a narrativa que pretendem contar. É por isso que os jovens (de qualquer geração) teimam em desafiar o que os mais velhos dizem sobre o passado. Jovens são autoritários por natureza, querem reescrever tudo aquilo que não viveram, reinterpretar os factos históricos à luz dos seus próprios valores.

 

Quando a informação começou a circular maioritariamente de modo físico (através de publicações em papel, pinturas, películas fotográficas ou fitas de áudio e vídeo), a humanidade ficou iludida com a noção de que a história havia se tornado em algo gravado na pedra.

 

Pura ingenuidade. Saímos de milénios em que o meio mais expressivo de se contar a história era a oralidade para cairmos no colo dos meios digitais, tão confiáveis quanto a boca de uma vizinha fofoqueira ou as lembranças de um político aldrabão.

 

Qualquer adolescente tem em seu telemóvel ferramentas boas o suficiente para modificar áudios, imagens, textos. Qualquer um pode criar ou repercutir a verdade que bem entender.

 

Não temos mais compromissos com a ciência, com a plausibilidade das coisas, com o sentido comum.

 

Assim como o facto de a Terra ser redonda tornou-se numa crença opcional, podemos decidir o que queremos lembrar e do jeito que queremos. O algoritmo pensa como nós e, por isso, pensa por nós e, por isso, nada pensamos.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a partir de um texto do escritor Marcelo Rubens Paiva: "A memória não é apenas uma pedra com hieróglifos entalhados, uma história contada. Memória lembra dunas de areia, grãos que se movem, transferem-se de uma parte para a outra, ganham formas diferentes, levados pelo vento. Um facto hoje pode ser relido de outra forma amanhã. A memória é viva. Pensamos hoje com a ajuda de uma parcela pequena do nosso passado."

 

Publicitário e Storyteller

 

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