Edson Athayde
Edson Athayde 13 de agosto de 2019 às 19:15

Quem vai ao vento perde o assento

O certo é que algumas das maiores oportunidades que tive aconteceram justamente por eu estar a trabalhar quando quase todos estavam a banhos.

O provérbio que dá título a este texto é muito usado no Brasil. A sua leitura é simples: quem sai a passear pode perder o lugar. Num país com centenas de milhões de habitantes e taxas de desemprego sempre altas, mais do que uma frase rimada serve como aviso, presságio ou ameaça. Tirar férias incorre em riscos profissionais.

 

Ao menos não era assim quando lá trabalhava, há quase trinta anos, antes de vir para cá. Pobre e sem herança, não ia ao vento muitas vezes, preocupado que estava com os assentos que ocupava.

 

Ao chegar ao Velho Continente, deparei-me com outra realidade. As férias não eram percebidas como um presente envenenado dos patrões e sim como um direito inalienável. Demorei para me acostumar com esta visão. Até hoje tenho dificuldades em adaptar-me.

 

Veja bem, estou a falar das minhas férias não das dos outros. O ponto de vista é estritamente pessoal. Quem sou para dizer o que é melhor para A ou B.

 

O certo é que algumas das maiores oportunidades que tive aconteceram justamente por eu estar a trabalhar quando quase todos estavam a banhos.

 

Se tirar todo o equivocado glamour relacionado à atividade publicitária, área na qual labuto, o que resta é que sou um mero prestador de serviços. Há muito pouco de diferente entre um restaurante e uma agência de publicidade. Nunca sabemos que cliente poderá entrar pela porta, mas sabemos que se a porta estiver fechada ou o cozinheiro na praia a faturação será negativa.

 

De um jeito ou de outro sempre gozei os meus dias de férias devidos. Apenas usei-os estrategicamente, em benefício do desenvolvimento da minha carreira. Parece uma receita simples, mas o curioso é que em quase quarenta anos de lida, em três países, foram raras as pessoas que cruzei com atitudes parecidas. Às vezes, o óbvio é poderosíssimo.

 

Não confunda estar disponível quando há poucos a trabalhar com estar no trabalho a fingir que faz alguma coisa. Não há nada pior do que tentar enganar aos outros ou a si próprio. Estamos a falar de transformar produtividade numa ferramenta de ascensão profissional e não em como ludibriar o calendário.

 

O tema surgiu-me devido à época, claro. Mas também porque nunca vejo esse tipo de discussão. É como se as férias fossem obrigatórias de se tirar sempre nos mesmos meses do ano. E como se o mundo parasse quando vamos ao vento. Pois não pára. E se parou um dia, hoje não pára mais. Pense nisso não só para garantir o assento, mas para talvez o trocar por outro mais acima.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar a cronista Marta Medeiros: "Estou a sair de férias. Volto assim que me encontrar." 

 

Publicitário e Storyteller
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