Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 23 de maio de 2013 às 00:01

[513.] Herbal Essences, Linic Men, TRESemmé

Em letras pequeninas, o anúncio tem a hombridade, ou a feminilidade, de nos informar que o "sistema Liso Keratina" só funciona se "utilizado com ferro de frisar". Não se pode ter tudo. Mas, com o champô e o ferro, conquista-se os homens.

Lavar o cabelo provoca um orgasmo? Se a leitora ou o leitor acham que não, é porque não usam o champô certo. Vejam o anúncio de Herbal Essences e poderão mudar de ideias.


Talvez o local ajude. A moça lava o cabelo numa queda de água do tipo turístico-paradisíaca algures numa selva magnífica. Mal coça a cabeça com o champô, logo se aproxima do clímax com uns "ã! Ã! Ããã"! que anunciam o desfecho orgásmico nos segundos imediatamente a seguir, já que num anúncio rápido o orgasmo tem de ser muito precoce: "Sim! SIM!", grita ela. Se não lhe tocou no ponto G, pelo menos o champô atingiu-lhe o cocuruto.

Não sei se os publicitários viram Meg Ryan a fingir um orgasmo no filme "When Harry Met Sally", mas parece. Seja como for, inventar um orgasmo provocado por um champô não lembra ao careca.

É certamente um problema que os publicitários de champôs têm de enfrentar: como diferenciar um produto que a generalidade dos consumidores não diferencia em prateleiras abarrotadas dos supermercados? Mais difícil ainda: como diferenciar produtos que provavelmente não se diferenciam? Cabe aos publicitários, coitados, a tarefa extenuante de inventar ficções que distingam o "seu" champô dos outros.

Em versão masculina, a marca Linic optou pelo orgasmo da velocidade: é ele mesmo, o nosso Cristiano Ronaldo, quem aparece, quem mexe no cabelo e na poupinha, quem dá a sua inconfundível voz e maneira de falar à bebé para dizer "Caspa. Comichão. Oleosidade", tudo inimigos do bem-estar capilar que este champô se propõe combater velozmente. Conduzido pelo nosso Ronaldo, o carro, símbolo fálico, entra num túnel, símbolo vaginal, como já dizia o camarada Freud. Está lá tudo. É só olhar.

Os 30 segundos do anúncio começam com Ronaldo no escuro e de semblante carregado. Mas chega a referência a Linic Men, para homens, portanto. Ao volante do seu bólide, dominando firmemente a manete das mudanças, Ronaldo enfrenta e destrói no túnel os três obstáculos que o separam da luz, da conquista: a caspa, a comichão e a oleosidade. Ronaldo tira os três — no túnel, ao túnel. E chega ao destino, um local de passadeira vermelha onde o aguarda uma pequena multidão de admiradoras.

Agora sem orgasmo, para não cansar as leitoras e os leitores, regressamos aos champôs femininos. O "sistema Liso Keratina" da marca TRESemmé, de Unilever, não promete sexo assim tão fácil como os outros dois reclames televisivos, mas promete um valor altíssimo: a libertação da mulher! Mas a libertação de quê? Da opressão masculina? Dos salários mais baixos? Não!, a libertação do cabelo! Diz a voz queque com má dicção, que me obrigou a ouvir meia dúzia de vezes: "Antes, deixava o cabelo frisado controlar a minha vida." É impressionante como o controle férreo de toda uma vida se deva à forma (livre!) da cabeleira, mas a nossa protagonista, não esqueçamos, não tem nada na cabeça além de cabelo.


Diz ela sobre o momento da sua libertação: "Até que o meu cabeleireiro me sugeriu uma nova gama que controla o frisado até 48 horas." Ah, 48 horas de liberdade! E tudo graças a keratina, ou queratina, não sei qual delas, pois a embalagem usa as duas grafias, da mesma maneira que "TRESemmé" deve ser uma maneira de poder pôr o mundo a falar o francês "très aimée", muito amada, com uma grafia inventada.

Mas não é apenas graças ao champô: em letras pequeninas, o anúncio tem a hombridade, ou a feminilidade, de nos informar que o "sistema Liso Keratina" só funciona se "utilizado com ferro de frisar". Não se pode ter tudo. Mas, com o champô e o ferro, conquista-se os homens. E não só: o "sistema" "deixa o meu cabelo tão alisado que até o meu cabeleireiro adora". Até esse gajo!

eduardocintratorres@gmail.com

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