Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 14 de dezembro de 2014 às 19:18

[590.] Smart fortwo

A publicidade do Smart apresenta-o como automóvel exclusivamente urbano. O slogan diz: "Novo Smart fortwo. Por uma cidade mais viva." Os reclames televisivos transmitem a mesma mensagem, mas o anúncio de imprensa condensa-a, facilitando a análise.

 

A imagem mostra dois exemplares do carro em planos inclinados, sugerindo a sua agilidade. Um deles acaba de chegar de uma cidade virada ao contrário, no topo do anúncio. Em baixo, à saída do reclame, outros prédios altos acolhem o carrinho. Outro Smart sobe uma rampa igualmente de grande inclinação, uma "rua" que é cruzada por outra também estilizada, em apertada curva parabólica.

 

O texto do anúncio reitera o slogan e o simbolismo da imagem: "A cidade é onde o Smart gosta de viver. A agitação, a energia e os espaços pequenos são as grandes paixões do citadino original." Esta publicidade é, assim, radicalmente contrária à de muitos automóveis que procuram inculcar a ideia de que são ao mesmo tempo bons para a cidade e para o campo. O Smart é radicalmente urbano. Aliás, só por receio não usa a palavra "radical", tão associada aos desportos urbanos. Fica-se por "citadino original", traduzido do inglês "urban original", uma aproximação aos desportos radicais sugeridos na estilização dos percursos urbanos na imagem, onde as ruas mais parecem um "stakeparque" do que asfaltados arruamentos cheios de automóveis e buracos.

 

Andando no vaivém dos "half-pipes" urbanos, o carro e seu uso são um divertimento. As cores dos carros, em laranja ou azul vivo, contaminam as descidas do percurso deste smart-skate. Não podia faltar a palavra "paixão", emocionalizando o automóvel. Como não atribuir "paixões" à máquina, se ela transporta condutor e passageiros para a "agitação" da cidade transformada em "half-pipes"? O carro é primordialmente para adolescentes e jovens. Trata-me por tu. Numa imagem de promoção no site da marca, aparecem onze pessoas em redor ou em cima do carro: dez rapazes ou raparigas, apenas um de fato e gravata. Um homem um pouco mais velho, também de fato, olha para o carro de longe. Estes dois homens formais estão ainda a aderir ao Smart, enquanto os mais jovens e informais já tomaram conta dele: no topo do Smart está um rapaz de skate - claro! - e uma rapariga usa um computador Apple, assim associando a rebeldia comercial e inovadora desta marca irónica ao Smart.

 


O anúncio em análise não se fica pela "paixão" do Smart pela cidade, prosseguindo para a "paixão" da cidade por ele: é um amor correspondido. Diz assim: "Mas também há bons motivos para a cidade retribuir o amor do novo fortwo: design desportivo", etc. Claro que nem o carro nem a cidade podem "amar", porque isso é próprio dos humanos: a cidade representa agora o público-alvo da campanha, a miudagem que estuda e se diverte no espaço urbano, com um piscar de olho aos jovens trabalhadores de colarinho branco.

 

O slogan português mais parece uma palavra de ordem ecologista - "por uma cidade mais viva" - do que uma mensagem comercial. Aos publicitários portugueses deve ter parecido que ficava mal o uso do "amor" no slogan, como no inglês "loving the city". Deixaram a "paixão" e o "amor" para desenvolvimento do texto. Em qualquer caso, a fortíssima associação da campanha ao estilo de vida urbano, sem sair das curvas e da inclinação do "half-pipe" urbano, era essencial tendo em conta as características do próprio automóvel, que o site diz claramente não ser veloz nem adequado às auto-estradas. Não admira, por isso, que as curvas do "halp-pipe" no anúncio sugiram a sua finalização imaginária, quer dizer, o carro anda em círculos dentro e só dentro da cidade, não saindo dela.

 

eduardocintratorres@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI