Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 08 de janeiro de 2015 às 00:01

[592.] Alguns slogans em inglês e um em português

Já não se volta atrás: os slogans das marcas internacionais são publicados em inglês. Alguns publicitários, desobedecendo à lei, já nem publicam a tradução portuguesa num canto dos anúncios.

 

O inglês serve para unir consumidores de todo o mundo. Se um anúncio de uma marca global não tivesse algum texto em inglês - mesmo sendo francesa ou sul-coreana - estranhava-se.

 

Mesmo as frases mais anódinas são destacadas em inglês nos anúncios, como "A escolha de George Clooney" no de relógios Omega, "A elegância é uma atitude" no reclame dos relógios Longines ou "Celebre os seus momentos inesquecíveis de Natal" no de jóias Pandora.

 

A marca de roupa e relógios Timberland criou um problema aos tradutores. O inglês "Best then. Better now" foi traduzido num cantinho do anúncio por "Já era bom. Agora está melhor", quando, no original, o relógio já "era o melhor" e "agora mais ainda".

 

Outra tradução difícil é a da frase abstracta, em letras gigantes", "One day you will", do whisky Glenfiddich. Os publicitários traduziram por "Um dia conseguirá", tratando-nos por "tios", sendo que no original se pretendeu o sentido bíblico que obriga ao tratamento por tu: "Um dia conseguirás". Mas pode ser que este whisky de malte seja mais para "tios" do que para a malta. O reclame mostra uma paisagem marítima escocesa com um veleiro. O slogan tem uma carga filosófica cada vez mais frequente na publicidade. A linguagem comercial apropriou-se, ou até substituiu o peso dos pensadores no discurso público, fazendo ela o proselitismo filosófico de pacotilha: resume o sentido da vida numa frase destinada a accionar valores morais que desencadeiem a compra de produtos. A frase de assinatura da marca da bebida associa esta intenção de espiritualidade com a palavra-chave espírito: "The spirit of a pioneer". Para quê perguntar aos filósofos desta publicidade "Um dia conseguirás" o quê? É o que o leitor quiser. Pode ser: navegar no mar escocês, conquistar o mundo ou, se isso não puder ser assim à primeira, comprar uma garrafa de Glenfiddich.

 

Os publicitários dos relógios Patek Philippe sabem que as tradições são inventadas (leram Hobsbawm) e ordenam-nos "Begin your own tradition". Um modelo de relógios Citizen manda-me voar mais alto em inglês: "Go Higher". Os publicitários traduziram "go" por "voar", ficando a frase de acordo com a imagem, que mostra o relógio pairando acima das nuvens. Da metáfora - subir mais alto - passamos à literalidade de voar mais alto. Perde-se um pouco a filosofia de pacotilha, ganha-se na materialidade do produto, ainda para mais chamado "piloto", Pilot. A marca francesa Lacoste também filosofa em inglês: "Life is a beautiful sport". Na fotografia está um rapaz a levantar-se numa peça metálica da zona industrial de um porto. É um lindo desporto, a vida.

 

Já no domínio da filosofia da ciência, mas em português, a publicidade de um relógio IWC remete para a teoria evolucionista de Darwin: "Sobrevivência do mais forte", diz o anúncio em letras enormes. O anúncio refere-se ao modelo relojoeiro "Galapagos Islands" (não poderia ser Ilhas Galápagos, claro). O texto faz uma mistura assaz bizarra entre o darwinismo, nunca referido, as Galápagos e o produto: "A adaptação às condições adversas" no arquipélago "é uma prova de natural superioridade, exemplificada por este cronógrafo em particular". Refere "outro paralelismo", ao comparar a "superioridade no terreno" da iguana ao relógio. O que não se entende é a superioridade absoluta do relógio sobre as Galápagos, pois, ousa-se dizer que o arquipélago deve "em parte" a "sua existência às receitas" da venda deste relógio! Pobres Galápagos!, que só existem "em parte" devido a um relógio. Nem Darwin se lembraria desta evolução. 

pub

Marketing Automation certified by E-GOI