Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 01 de abril de 2015 às 21:00

[604.] Pantene, Garnier

Um anúncio da Pantene tem dificuldade em lidar com a água, o mais extraordinário dos elementos necessários à vida.

 

Um anúncio da Garnier tem dificuldade em lidar com o nome de um dos mais maravilhosos produtos inventados pela Humanidade, no Mediterrâneo. O que se passa com os publicitários?

 

Um anúncio de produtos para o cabelo Garnier, em especial champô e condicionador, centra-se na ideia de vender mais do que um produto a quem lava o cabelo todos os dias. Cria o problema (lavar o cabelo todos os dias faz mal) e a solução (os produtos Garnier). Começa por meter medo aos que lavam o cabelo diariamente: "Lavar o cabelo diariamente pode danificá-lo…" Mas mete medo apenas por um segundo, porque logo a seguir informa que a Pantene criou uma "tecnologia" (!) que "neutraliza os efeitos negativos causados pelos minerais oxidantes presentes na água", isto é, neutraliza os efeitos negativos causados… pela água. Por isso, "quanto mais vezes lavar o cabelo com o novo Pantene, mais saudável e menos danificado ficará".

 

A lógica implícita é extraordinária e imbatível: lavar a cabeça com água faz mal, pior ainda se for todos os dias; este produto neutraliza os efeitos negativos de lavar a cabeça com água; com este produto já pode lavar a cabeça todos os dias com água, aliás, convém lavar muitas vezes, pois "quanto mais vezes" o fizer, melhor.

 

Esta parte do texto do anúncio informa que "esta tecnologia" está "Clinicamente Comprovada", assim mesmo, com cês maiúsculos. Para o comprovar, remete para uma nota de pé de página que me deixou tão completamente baralhado que nem sei explicar porquê. Diz a nota: "Em champô. Champô + Condicionador vs. Champô sem condicionador, assumindo lavagem diária." Não faço ideia do que isto quer dizer, mas se isto é uma "tecnologia" "Clinicamente Comprovada", vou ali e já venho.

 

O anúncio não acaba aqui. Tem uma pergunta de cultura geral em grande destaque: "Sabia que o champô não é suficiente para um cuidado completo do cabelo?" Esta é aquela parte em que a publicidade tenta convencer que um só produto não basta, são precisos dois. Dois? Qual dois! Três, quatro ou cinco é que é! O observador precisa de usar "pelo menos" um condicionador, "para hidratar, proteger e manter o cabelo forte". Mas, fica implícito que "hidratar, proteger e manter e manter o cabelo forte" não chega, porque "o ideal é utilizar um regime de utilização completo - champô, condicionador, máscara, tratamento sem enxaguar, styling".

 

Se este anúncio me deixa com muitas dúvidas sobre as capacidades dos seus publicitários em convencer-me - digamos que não lhes comprava um carro em segunda mão -, já a campanha do champô e outros produtos para cabelos da Garnier insultou-me na minha identidade de cidadão da Europa mediterrânica. Estes produtos aparecem com o nome "Ultra Suave Azeitona Mítica" e publicitam "o poder da azeitona para nutrir sem pesar os cabelos secos".

 

Tal como o anúncio da Pantene, também este apresenta uma pergunta de cultura geral, sob o título "Sabia que?". E diz a resposta: "O óleo de azeitona é um poderoso elixir (…) utilizado desde a antiguidade." Todos os produtos mostrados - champô, amaciado e máscara - referem este "óleo de azeitona virgem" miraculoso, "um óleo excepcional". As três embalagens aparecem rodeadas de raminhos de oliveira, de azeitonas, de uma tacinha e de uns pingos do "óleo de azeitona".

 

Pois eu senti-me insultado na minha inteligência porque em nenhum lado o anúncio diz o verdadeiro nome do produto natural tão glorificado nesta publicidade: é azeite! Azeite! Azeite! Azeite! Azeite!

 

eduardocintratorres@gmail.com 

 

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