Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 04 de dezembro de 2018 às 09:30

[780.] Raposeira, Beirão d'Honra, EDP

Trata-se de uma tendência geral: os publicitários atentam à imagem e aos "conceitos" e pouco à gramática.

No Natal os anúncios de bebidas alcoólicas para as festas alegram as páginas e os ecrãs.

 

Num anúncio de espumantes Raposeira, há um chão de pepitas de ouro, onde seria demais ver também incenso e mirra; manchada a página por bolhinhas brancas de festa, luz e espumante, a garrafa de bruto Raposeira, ainda fechada, já se inclina ligeiramente para entornar o vinho. Tudo certo, mas comum. O que destaca o anúncio é o slogan sobreposto a dourado, coincidindo com o ouro em fundo e com a cor do rótulo da garrafa: "À grande e à francesa." Dado que só na região demarcada de Champagne se pode usar o nome, o slogan usa com felicidade uma frase ainda comum na língua para sugerir a associação do espumante ao champanhe.

 

Outro anúncio de bebidas usa a ironia na publicidade. É raro, por assumirem os publicitários que somos néscios sem capacidade para a descodificar (mesmo que a maioria de nós a use diariamente), dá gosto ver o anúncio de licor Beirão d'Honra. Chama a atenção por obrigar a pensar: "Um presente sem grande futuro." Na imagem vêem-se uma caixa da garrafa (o presente), três cálices com licor e a garrafa já quase vazia: bebe-se logo que se recebe de presente. As narrativas em vídeo em torno do mesmo slogan são também irónicas e divertidas.

 

Sem referir o Natal, um anúncio de EDP tem um ligeiro toque de festas, na celebração da amizade e nas cores quentes. A EDP fornece um produto intangível que é provavelmente o segundo mais importante para a vida actual, a seguir à bem tangível alimentação. A energia não se vê. As eléctricas costumam centrar-se nos serviços ou em equipamentos. A EDP apostou agora nos beneficiários: as pessoas. São consumidores, mas não usa essa palavra. Como acontece amiúde, a mensagem desta publicidade oculta a sua natureza comercial.

 

O slogan é "a energia das pessoas". A palavra energia é usada, menos em referência ao bem fornecido pela empresa e mais à força de acção da gente, como seria na frase "pessoas com muita energia". Além disso, individualiza, o que convém na sociedade mais egocêntrica de sempre, a nossa: "Cuidar de um, cuidar de todos." Coloca o Eu antes do colectivo, sem esquecer o carácter universal do serviço.

 

A foto mostra três raparigas sorrindo para a câmara. Estão em casa, porque é em casa que os indivíduos são clientes da EDP. Poderia ser uma selfie. Três egos unidos pela amizade: uma loira, com um grosso colar dourado ou de ouro, uma morena de cabelos longos, com dois finos colares de ouro ou dourados, outra de cabelo curto com um ligeiro toque radical, diferente no seu colar de ferro que parece feito de clips. A frase final é um pouco rebuscada para uma compreensão rápida, mas desenvolve o conceito: "Escolhemos coisas diferentes. É a energia com que o fazemos que nos torna iguais."

 

Somos diferentes, temos egos diferentes; mas a energia individual com que cada um a faz "torna-nos iguais". É rebuscado que sejamos iguais por causa da força de vontade de fazermos "coisas", mas é publicidade, ninguém leva a mal. A confusão gerada pela frase é que o "nós" que escreve a frase é atribuído às pessoas (a começar pelos leitores), mas parece ser a voz do anunciante dizendo "é a energia com que nós, a EDP, o fazemos". Há também uma incongruência gramatical que dificulta a percepção da frase, pois seria mais adequado escrever "é a energia com que as fazemos", às "coisas diferentes" e não à sua escolha. Trata-se de uma tendência geral: os publicitários atentam à imagem e aos "conceitos" e pouco à gramática. 

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