Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 28 de outubro de 2015 às 20:20

Chanel, Hugo Boss, CB12, Citröen, Toyota 

Em cada momento, há uma cor que entra na moda, que é imposta pelos modistas de Paris, Milão ou Nova Iorque. Também pela publicidade. O vermelho esteve no "top", mas agora parece que entrámos na fase azul, como Picasso.

As cores saltam da natureza para a subjectividade humana, tornam-se cultura. Durante séculos, o luto nas cortes europeias fazia-se de branco. Depois, o preto impôs-se. Agora, vejo na passadeira dos funerais na Basílica da Estrela que o branco voltou. Actrizes e outras mulheres em moda exibem a tristeza de branco. O mundo é composto de mudança.

 

As empresas que vivem tanto de um nome como dos seus produtos criam a sua aura comercial, a que chamamos marca. Estudam as tendências na sociedade. Fazem grupos de foco com líderes sociais secundários, os chefes e os subchefes de empresas que influenciam os outros em seu redor, um fenómeno conhecido como a comunicação em dois passos, neste caso da marca para esses líderes e destes para os restantes. Curiosamente, os grupos de foco e outros estudos de mercado almejam pressentir as tendências dos líderes secundários para depois criarem "imagens de marca" que correspondam ao que eles já anseiam mas ainda não exprimem por completo: e, quando os produtos vêm embrulhados nas ideias que, difusamente, exprimiriam nos estudos de opinião, identificam-se - e compram.

 

Intuo que estamos numa fase de valorização do comportamento racional, da necessidade de alguma harmonia nas relações de trabalho e sociais, depois da fúria da competição desenfreada na concorrência na empresa, nas relações emocionais e físicas. Sai de cena o vermelho - sangue, paixão, irracionalidade - e entra em cena o azul. Já cá andou, agora regressa. São fases da psique colectiva.

 

O perfume masculino de Chanel chama-se azul, Bleu de Chanel. A gente vê o frasco, lindo como sempre, e lê "Bleu" como quem lê uma mensagem psicológica, um slogan. Ah! Bleu! Num famoso anúncio realizado por Scorsese, o jovem, no final, pensava e mudava de vida, mas o que dominava era a paixão. Aqui, o homem veste o cheiro da razão, o azul, em vez do cheiro da paixão. As duas páginas do anúncio mostram o frasco de líquido azul em grande plano do lado esquerdo; do lado direito domina um homem jovem, o costume. O fundo do anúncio é azul escuro. O homem veste uma camisola azul. E tem os olhos azuis. A luz vem de fora, do lado superior direito, onde está também a palavra Chanel, ela própria luz que ilumina os líderes secundários. Tudo azul.

 

Quatro páginas adiante, na mesma revista, o actor Gerald Butler pousa para uma água de cheiro de Hugo Boss, Man of Today. O frasco é dourado, essa, sim, uma cor sempre na moda, mas o resto? Azul. Butler veste um fato azul escuro. A gravata azul escura. E, em pano de fundo, Nova York, o rio Hudson - azul.

 

Folheio a revista. CB12, um produto para um "hálito irresistível", não embrulha essa irresistibilidade em cores quentes. O logótipo é azul, o frasco azul e branco sobre um fundo azul de água. O texto não suscita a vontade de paixão, mas de aumento da "confiança", que resulta da razão, não da paixão. E o plano de pormenor do homem jovem na fotografia é a preto e branco, mas não totalmente: o olho esquerdo do homem, o único visível, foi colorido de azul.

 

Azul por todo o lado. Até um dos novos motores da Citröen se chama "BlueHDi", o carro mostrado é azul e um desenho esquemático do conta-quilómetros é também azul. Duas páginas adiante, o novo Toyota Avensis é também azul e a cidade em que circula - azul. Continuo a folhear a revista. Os anúncios centrados no vermelho parecem do passado. Talvez para o ano, ou daqui a dois anos, o encarnado regresse, quem sabe? Por agora este mundo parece ter abrandado para pensar. 

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