Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 11 de agosto de 2016 às 20:20

A curiosidade salvou o gato

Ser curioso é vital para aprender, para ser criativo, inovar e gerar riqueza. A curiosidade é vital para progredir, para intervir no mundo, para melhorar a sociedade. Sem curiosidade tudo perde interesse, perde energia e desaparece.

No entanto, o ditado popular "a curiosidade matou o gato" parece sugerir o contrário; não queiras saber demais, não te metas onde não és chamado, vê o que aconteceu ao curioso do gato… Mas a expressão de facto não diz isso; bem pelo contrário.

 

Foi o Nobel da Física, o austríaco Erwin Schroedinger que cunhou a expressão "a curiosidade matou o gato". Na primeira metade do século XX, Schroedinger foi uma figura eminente na mecânica quântica, ramo da física que estuda a matéria nas suas mais diminutas dimensões, e que é a base científica em que assenta o mundo digital.

 

Ora no mundo quântico nada é real até ser observado. A observação cria a realidade; literalmente. Para descrever este estranho mundo, Schroedinger propôs uma experiência pensada. Em traços gerais, tratava-se do seguinte: um gato vivo é colocado numa caixa totalmente opaca; assim que a caixa é fechada um mecanismo dentro da caixa entra em funcionamento; ele vai libertar comida ou veneno mortal e há 50 por cento de probabilidades para cada possibilidade. A caixa fecha-se e o mecanismo funciona. O tempo passa e a pergunta é esta: o gato está vivo ou morto? Não sabemos. O gato está dentro da caixa num estado que, disse Schroedinger para ilustrar o mundo quântico, é o de "vivo e morto". A curiosidade - abrimos a caixa - mata o gato. Ou salva o gato. É a nossa participação no mundo, é a nossa curiosidade, que cria o mundo, que o muda. A realidade é o que criamos com o nosso comportamento no mundo. Fazer é chave. Quem pensa muito, diz um ditado chinês, fica com um pé no ar.

 

A realidade manifesta-se intervindo, sugere a mecânica quântica. O mundo revela-se quando agimos, comentou o filósofo francês Jean-Paul Sartre. É a maneira como participamos no mundo que cria a realidade. Numa era de grandes mudanças e de inovação, nos planos social e individual, nacional e global, nunca é demais frisar que a realidade cria-se intervindo, mexendo-nos, participando. Por isso, as pessoas apoiam o que criam, talvez não tanto por uma questão de orgulho, mas porque o que criam é o que para elas é real, é o gato que salvaram.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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