Fernando  Sobral
Fernando Sobral | Negócios 12 de fevereiro de 2012 às 23:30

Mais estratégia, menos democracia

No Verão passado um alto responsável saudita disse ao antigo chefe de gabinete de Dick Cheney (o vice de George W. Bush), que a mudança de regime na Síria seria benéfica para os interesses da Arábia Saudita.
No Verão passado um alto responsável saudita disse ao antigo chefe de gabinete de Dick Cheney (o vice de George W. Bush), que a mudança de regime na Síria seria benéfica para os interesses da Arábia Saudita. Porque nada poderia enfraquecer mais o Irão do que a perda da Síria. Um novo jogo já estava em marcha e nada tinha a ver com a democracia ambicionada pelo povo sírio. Desde então múltiplas reuniões de opositores, enquadrados pelas grandes potências ocidentais (EUA, França e Grã-Bretanha) e com o apoio do Qatar e da Turquia, têm decorrido um pouco por toda a região. Só faltava um rastilho. E esse já deflagrou em Homs.

Tudo não passa, no entanto, de uma nova forma de mudar o mapa político do Médio Oriente, sobretudo depois de em 2006 Israel não ter conseguido destruir o Hezbollah no Líbano. Ficou evidente uma coisa: a Síria é o elo de ligação do Irão ao Hezbollah.

As sementes foram plantadas e agora começam a dar frutos. Com a pressão crescente sobre o Irão e depois da chamada Primavera Árabe ter mudado a face dos países árabes mediterrânicos, a Síria é a peça que, caindo, poderá solidificar o novo quadro estratégico.

A Síria foi suspensa da Liga Árabe por influência dos países do Golfo Pérsico e foram estes que deram músculo à ofensiva ocidental que terminou com a tentativa de resolução da ONU que foi vetada por Rússia e China. No fundo os interesses estratégicos falam mais alto do que a vontade de criar uma qualquer democracia no país.

O Qatar quer hoje criar linhas de contacto com a Turquia para deixar de estar tão dependente da Arábia Saudita. Esta e os EUA querem, com o apoio de Israel, demolir o poder do Irão.

Os russos não querem perder o seu aliado desde 1957 e que lhes permite ter a única base naval em águas quentes do Mediterrâneo (Tartus). Por isso apoiarão Bashar al-Assad até terem garantias que poderão continuar a operar ali, algo que fazem desde que Catarina, a Grande conquistou Azov no Mar Negro aos otomanos em 1774.

Nos últimos anos os russos perderam as bases navais no Egipto e na Jugoslávia (depois da desintegração desta). Se perderem Tartus é o fim da estratégia definida por Catarina. A China sente, como a Rússia, que se al-Assad cair poderá ser afastada de uma zona vital em termos energéticos, o Médio Oriente. Não seria fácil de engolir. O Irão, em nome da solidariedade xiita, encontrou sempre na Síria um aliado militarizado. Perdê-lo é como perder a mão direita.

A parada está alta e está a ser paga em vidas humanas. E a Turquia (com o seu poder político e militar) é cada vez mais um elo vital em todo o conflito. Se o líder do Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalyun, vive em França como professor da Sorbonne (e é visto como uma medalha de Sarkozy), é na Turquia, e mais exactamente na fronteira síria, que os rebeldes têm sido treinados e armados com armas que vieram dos arsenais de Kadhafi.

No meio estão voluntários do Conselho de Transição líbio e conselheiros britânicos e franceses. Só faltam os aviões da NATO. A Turquia sabe que tem tudo a ganhar. A guerra civil na Síria poderá tornar ainda mais complicado o problema curdo. Apesar dos sunitas serem maioritários na Síria (e os alauitas xiitas, minoritários, dominarem o exército e serem apoiantes de al-Assad), os curdos vivem na fronteira com a Turquia.

Hoje, um terço do Partidos dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) são curdos sírios e os lugares cimeiros da organização são ocupados por originários do país de al-Assad. Há cada vez maiores rumores sobre uma possível declaração de independência do Curdistão iraquiano, onde existem importantes reservas de petróleo. O primeiro-ministro turco Erdogan sabe que a Turquia não pode, por razões internas, ter um território curdo autónomo nas suas fronteiras.

E depois Ankara olha com interesse para a região. Entre 1516 e 1918, a Síria fez parte do Império Otomano. A sua ligação sempre foi umbilical, como se vê na arquitectura e estrutura social do país. As elites urbanas da Síria e da Turquia comungam um ponto-de-vista comum mercantil de "laissez-faire". Enquanto o Egipto é demasiado nacionalista e grande para ser tentado pelo "modelo turco", a Tunísia está longe e a Líbia tem demasiados recursos para ser controlado, a Síria é diferente.

A Irmandade Muçulmana síria já disse que privilegia o "modelo turco" do partido de Erdogan, o AKP. Se al-Assad cair, a Turquia pode ter tudo a ganhar na zona. A complexidade do drama sírio acaba assim por tornar a questão da democracia um mero jogo de palavras.

A frieza do jogo estratégico está sobretudo preocupada com o futuro do regime iraniano, com o controle do petróleo e a perpetuação da influência ocidental. Tudo o resto são danos colaterais. O poeta sírio Adónis escreveu num dos seus poemas: "A loucura é o contínuo encontro com as coisas/e é, ao mesmo tempo, contínua despedida". A loucura vai continuar. Mesmo depois da despedida merecida de al-Assad.

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