Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 02 de outubro de 2019 às 17:28

A democracia vai acabar antes do planeta

Ou Greta leva os seus correligionários a votar e a valorizar a democracia que esta nossa geração alienada lhes ofereceu, ou vai ficar a falar sozinha, e não será por qualquer efeito do aquecimento global…

Não percebo muito bem a lógica intrínseca à ideia de uma greve às aulas para salvar o planeta, a não ser que se acredite que o que se aprende na escola é responsável pelas alterações climáticas e que, por isso, quanto menos lá puserem os pés menos contaminados ficam por lições obscurantistas, administradas pela geração que — na óptica dos promotores da iniciativa — andou a lixar-lhes o futuro.

Mas já sou completamente a favor de manifestações e comícios, e se são as alterações climáticas aquilo de que a geração Instagram precisa para sair à rua e aprender a mecânica do protesto político, assim seja. Fabricar um cartaz, inventar uma palavra de ordem, escrever uma convocatória e preparar uma manifestação são TPC geniais, e que se recomendam. Melhor ainda, se encontraram numa causa destinada a salvar o mundo a adrenalina de entoar com uma multidão uma mesma canção o que, provavelmente, só conheciam dos festivais de verão. Pela minha parte, se fosse empregador, garanto que só contratava gente com provas dadas de participação cívica e política, o que reduzia logo o universo dos candidatos com menos de 29 anos, já que apenas 3,7% milita num partido e 6% faz parte de uma associação.

 

Dito isto, fico com um paradoxo por resolver: porque será que os jovens correm para a rua nos dias de aulas, e não correm para as urnas, onde podiam, de facto, mudar de forma mais eficaz o sistema. Será por as eleições serem ao domingo?

 

Provocações parvas à parte, é neste passo do meu raciocínio que aparece sempre alguém a justificar a escandalosa taxa de abstenção entre os jovens dos 18 aos 29 anos, com o argumento de que, coitadinhos, não votam porque os adultos os desiludiram, porque não acreditam nos políticos e não se reconhecem nos partidos.

Mas se assim é, porque não os lideram eles, ou não inventam outros? Não provam como são capazes de superar aqueles a quem tão alegremente apontam o dedo? Aparentemente porque, segundo dados de um estudo do ICS de 2015, só 17% acredita que a democracia em Portugal funciona. Pior. O livro "Povo vs Democracia", de Yascha Mounk, citado pela revista Visão, contém números de por os cabelos em pé. Nos EUA, e é apenas um exemplo, cerca de 1 em 4 millenials acredita que "a democracia é uma forma má de governar", e crescem de maneira aterradora os jovens europeus que pensam que seria bom ou muito bom "ter um líder político forte que não tenha de se importar com parlamentos ou eleições".

Por isso longa vida à Greta Thunberg, que pelo menos levanta a voz por aquilo em que acredita. Mas se faz muito bem em ralhar aos adultos  — e aqueles de nós que somos pais, sabemos bem como os filhos conseguem garantir que a vaidade nunca nos sobe à cabeça! — pode bem começar a indignar-se com os jovens em nome de quem fala. Os tais que, garante, estão furiosos connosco porque estamos ocupados a discutir se têm boas notas, a pensar na próxima dieta ou a discutir o fim da "Guerra dos Tronos", "enquanto o planeta arde". Garante-nos que "nós, os jovens, não vamos deixar que vocês saiam impunes disto". Quanto a isso, pode ficar descansada porque os adultos que acusa vão estar, em breve, mortos e enterrados, mas o que me preocupa é o futuro destes mesmos jovens. Porque ou ela os mobiliza, levando-os a votar e a valorizar a democracia que esta nossa geração facínora e alienada lhes ofereceu, ou vai ficar a falar sozinha e não será por qualquer efeito dramático do aquecimento global…

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