Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 19 de fevereiro de 2019 às 20:25

MBAs tenham cuidado, muito cuidado! 

Perplexidades e provocações em torno do conceito de “networking”. E um aviso: todo o cuidado é pouco para que o MP não o confunda com aquele outro crime que dá direito a prisão.

"Alto lá!", pensei eu ao deparar-me com o descritivo de todas as vantagens de fazer um MBA, "mas se isto tudo for verdade é mais do que certo que esta malta toda vai dar com os costados numa cela ao lado do Armando Vara. E ainda pagam por cima".

 

Exagero? Não me parece, caramba, porque se aquilo que prometem for verdade, não é previsível outro resultado. Querem ver? Traduzo para português, porque todos estes programas são escritos em inglês - visão tinha o engenheiro Sócrates quando espalhou cartazes pela cidade a oferecer "Inglês para todos" - Adiante.

 

Ora muito bem, onde é que eu ia. Já sei. A traduzir para português as promessas do "Acess MBA", que diz assim: "O 'networking' do MBA é uma das vertentes mais importantes da experiência que oferecemos. Use o seu 'networking' com sabedoria e vai ganhar acesso a uma fortuna de oportunidades."

 

O Acess MBA, por exemplo, assegura que um estudo feito entre ex-alunos do MBA revelou que o "networking" era uma das três razões mais importantes que levavam a escolher aquele tipo de formação. E acrescentam: "O 'networking' é a chave do sucesso da sua carreira." Mas avisam: "Deve ser feito como deve ser" para atingir o objetivo proposto. Entendido. E qual é o objetivo proposto? Tenha calma, que explicam tudo. O objetivo final é, e cito, "construir uma teia de relações mutuamente úteis que permitem usufruir de uma quantidade imensa de oportunidades".

 

A especificação desta atitude perante a vida que, asseguram, acaba por garantir emprego à maioria dos finalistas, está presente em todos os programas, de uma forma ou de outra, quando se aconselha a que nunca peça um favor ou uma oportunidade, sem oferecer alguma coisa em troca. Deixo no original, que pensando bem tem mais impacto: "Ask how you may be able to help them. Always offer to give back." ("Pergunte como pode ajudá-los. Ofereça sempre uma contrapartida"). Como? Primeiro troque e recolha informação, depois recolha nomes, de seguida faça amizade, e por fim pergunte o que pode fazer por eles. De preferência num "Breakfast with CEOs". Aliás, como diz o The Lisbon MBA, fica a garantia - depois de desembolsados 38 mil euros, por um ano de aprendizagem - que se sai de lá com "uma 'network' de contactos profissionais que serão a chave para a gestão de uma carreira vitalícia".

 

Ou dito de outra forma, "Ajudas-me com o ferro velho?", "Claro, Pá!", "E como te posso pagar o favor?", "Deixa lá isso, mas por acaso estava-me a apetecer um robalo fresquinho." E choldra com eles.

 

Ai meu Deus, pensei eu com genuína aflição, será que o Vara e o Penedos tiraram algum destes cursos e estavam só a tentar competir para o quadro de honra? E a fruteira sem asas no valor de 1.897 euros, e o centro de mesa de 1.800 euros resultavam da enorme capacidade de pôr em prática o que aprenderam?

 

Fui a correr procurar os CV dos respetivos senhores, e não é que Armando Vara fez uma pós-graduação em Gestão Empresarial no ISCTE, que segundo vejo no site custa 7.900 euros por um curso de 200 horas, que ainda por cima arruína a sexta à noite e o sábado de manhã durante um ano. Quanto a José Penedos, encontrei apenas referência a "cursos de gestão no estrangeiro".

 

Estou absolutamente certa de que deve haver uma linha muito marcada entre o conceito de usar a "rede" de influências para obter vantagens e os crimes de nome semelhante. Mas confesso a minha dificuldade em a descortinar com nitidez. Decididamente, estou mesmo a precisar de tirar um MBA…

 

Jornalista

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