Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 25 de julho de 2016 às 19:29

O mundo está cada vez menos violento

Não cortem o pescoço ao mensageiro das boas notícias, porque é verdade: vivemos o período mais pacífico da história da humanidade.

Descobri que não é ao mensageiro das más notícias que toda a gente quer cortar a cabeça, mas aquele que entrega boas notícias. Basta ver como sempre que alguém se atreve a dá-las, é imediatamente acusado de ingénuo ou manipulador. A explicação para este catastrofismo talvez esteja inscrita no nosso DNA, sob a forma de alguma vantagem evolutiva em estarmos mais preparados para o perigo do que para a segurança, mas contamina a nossa capacidade de ler a realidade. E de ser feliz.

 

Não admira que quando o professor de Harvard, Steven Pinken afirma que "provavelmente vivemos atualmente o momento mais pacífico de toda a História da humanidade", sinta necessidade de avisar o público da sua TED Talk que tem dados para fundamentar a "obscenidade" que proferiu. Gráfico após gráfico, Pinker fundamenta que ao longos dos milénios a violência tem vindo a cair paulatinamente em todo o planeta. Contrariando a ideia prevalente de que antigamente é que se vivia em harmonia, recorda que nas sociedades primitivas a probabilidade de morrer às mãos de outro ser humano era altíssima (de 15% a 60%). Por comparação, se a mortalidade em guerras tribais tivesse prevalecido durante o século XX, mesmo contando com as vidas perdidas nas duas Grande Guerras, ter-se-iam registado dois biliões de mortes, em lugar de 100 milhões.

 

Pinker socorre-se também do trabalho do criminologista Manuel Eisner para demonstrar que a taxa de homicídio na Idade Média era de cerca de 100 mortos por 100 mil pessoas/ano, sendo que hoje, em sete o oito países europeus, entre eles Portugal, há "apenas" um homicídio por 100 mil pessoas/ano. No período de algumas décadas apenas decresceram igualmente o número de mortos em conflitos armados, revoltas étnicas, "holocaustos" e golpes militares, tanto na Europa como nas Américas (mesmo na do Sul), de 65 mil mortos por conflito/ano, na década de 50, para menos de 2 mil mortos por conflito/ano no século XXI.

 

Mas então se é assim "porque é que há tanta gente que se engana tanto num assunto tão vital?", pergunta o psicólogo que estudou a mente nos laboratórios do MIT. Pinker responde à questão com uma longa lista de razões, como por exemplo: porque hoje há mais e melhor jornalismo, porque num mundo global sentirmos todas as tragédias como próximas, porque, que o diga Donald Trump, ninguém atrai votos para a sua causa dizendo que as coisas estão cada vez melhores...

 

O mais grave é que esta distorção da realidade impede-nos de estudar o que nos tem levado à paz. Pinker admite que não sabemos exatamente o que será, mas lança pistas como, por exemplo, menos anarquia (em que matamos por medo de morrer); mais confiança numa organização social que faz justiça; mais valor dado à vida, graças a mais saúde e prosperidade; uma economia global, que tornou evidente que as pessoas são mais valiosas vivas do que mortas, baixando a violência "por razões egoístas". E depois há a expansão do nosso círculo de empatia, essa capacidade de nos pormos no lugar do outro. As viagens, as novas tecnologias, a literacia têm permitido, diz Pinker, estendê-la da vila para a tribo, da tribo para a nação, da nação para a humanidade, e até a outras espécies. A forma como reagimos a um atentado em Nice ou em Cabul, a uma ferida no joelho dos nossos filhos ou às provações das crianças em campos de refugiados, provam bem que ainda estamos muito longe da perfeição. Mas é bom saber que para a frente é que é o caminho.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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