João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 29 de janeiro de 2014 às 00:01

A Ucrânia em transe

Um compromisso para novas eleições é, contudo, a solução mais provável e dificilmente resultará daí estabilidade política numa Ucrânia dividida política e culturalmente, dependente financeiramente da Rússia e do seu gás.

 

O presidente Viktor Yanukovitch cedeu ante a escalada de violência fortemente impulsionada pela extrema-direita e as primeiras reticências públicas do seu principal apoiante nos meios de negócios ucranianos.

 

Yanukovitch tirou o tapete ao primeiro-ministro, Mikola Azarov, ao propor no fim-de-semana a chefia do governo ao antigo responsável da economia Arseni Iatseniuk.

 

O líder parlamentar do partido "Pátria" da ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko (a cumprir pena de prisão) recusou e Vitaly Klitschko do "Murro" (antigo pugilista) escusou-se igualmente a aceitar o lugar de vice-primeiro-ministro.

 

A desfeita a Azarov, à frente do executivo desde Março de 2010, deixou em aberto eventuais

O fulgor da extrema-direita é um dos elementos mais perturbantes da crise política ucraniana.

coligações de circunstância no parlamento onde o maioritário "Partido das Regiões" de Yanukovitch votou pela revogação das leis anti-manifestações de protesto impostas a 16 de Janeiro.

 

A nomeação do primeiro-vice-primeiro-ministro, Serhiy Arbozov, antigo responsável do banco central e próximo do presidente, como chefe de governo interino é compasso de espera enquanto prosseguem negociações que podem conduzir a eleições legislativas e/ou presidenciais antecipadas.

 

Maus passos

 

O mau passo de Yanukovitch, ao subestimar a amplitude dos protestos na capital, hesitando, depois, em usar a força em larga escala, pode custar-lhe a reeleição que almejava em 2015.

Os comentários surgidos em órgãos de comunicação social controlados pelo maior magnata do país, Rinat Akhmetov, advertindo contra qualquer recurso à violência e apelando ao diálogo político, foram sinal grave de perda de apoios nos meios oligárquicos ademais insatisfeitos com o favoritismo de cliques ligados ao presidente, como o filho de Yanukovitch, Oleksandr, e o testa-de-ferro, Sergei Kurschenko.

 

Moscovo jogou pelo seguro adquirindo, entretanto, mais 2 mil milhões de dólares de obrigações emitidas por Kiev e elevando desde Dezembro para 5 mil milhões de dólares o montante de empréstimos a dois anos e a uma taxa de 5%.

 

O Kremlin indica assim que cumprirá o acordado, cobrindo as necessidades imediatas da Ucrânia de pelo menos 17 mil milhões de dólares para serviço de dívida e aquisição de gás natural o que consubstancia um apoio substancial e tangível ao invés de uma parceira com a UE sem proveitos e suporte financeiro a curto e médio prazo.

 

Qualquer governo ucraniano, independentemente de ser ou não concretizada uma revisão constitucional de pendor parlamentarista, continuará dependente da ajuda de Moscovo cujos termos para cobertura de emergências financeiras a curto prazo justificaram a recusa de Yanukovitch em assinar um "Acordo de Parceria" com a UE a 21 de Novembro.

     

O fulgor da extrema-direita

                                  

A convergência de forças díspares da oposição potenciou os protestos que ao chegarem ao segundo mês além de abarcarem metrópoles da região ocidental, como Lviv e Ivanovo-Frankivsk, atingiram cidades do Sul e Leste, maioritariamente russófono e apoiante do "Partido das Regiões", em especial Dnipropetrovsk e Zaparojia, mobilizando ainda claques violentas de clubes de futebol em Poltava e Tcherkássi (Centro do país).

 

Na banda da extrema-direita Dmitro Korshinski e seus apaniguados da "Irmandade", alegados "nacional-anarquistas cristão-ortodoxos", lideraram a maior parte das acções violentas na capital, a par dos militantes anti-russos e anti-semitas da "Liberdade", liderados por Oleh Tianibok, quarto maior partido parlamentar.

 

O fulgor da extrema-direita é um dos elementos mais perturbantes da crise política ucraniana.  

A complacência de militantes de outros partidos e de boa parte das classes médias nas regiões Ocidentais para com a violência de extrema-direita foi claro sintoma de desafecto ao poder vigente numa conjuntura em que o arraigado chauvinismo nacionalista se manifestou em protestos anti-russos.  

 

Uma repressão policial brutal, mas limitada e ineficaz, e a cobertura que a comunicação social ucraniana, não enfeudada ao poder e apoiada em grupos económicos independentes de Yanukovitch, deu aos protestos sapou a legitimidade do presidente e do seu governo.

 

Os termos de uma amnistia política ainda em discussão e a difícil aplicação de leis contra actos de apologia do fascismo, aprovadas igualmente na terça-feira, irão marcar os tempos mais próximos em que a iniciativa política aparenta caber aos apoiantes de Timoshenko e Klitschko, com Tianibok na peugada, num jogo de tudo ou nada.

 

Um compromisso para novas eleições é, contudo, a solução mais provável e dificilmente resultará daí estabilidade política numa Ucrânia dividida política e culturalmente, dependente financeiramente da Rússia e do seu gás, contando com a UE como  parceiro comercial de importância similar, e resolutamente oposta a uma integração em alianças militares a Oeste e a Leste. 

 

Jornalista

 

barradas.joaocarlos@gmail.com

 

http://maneatsemper.blogspot.pt/

 

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