Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 27 de agosto de 2019 às 15:59

Maximizar o valor acionista?

Nas últimas décadas contudo tem reinado no mundo, e entre nós de forma exacerbada, a tese da maximização do valor acionista – que combina um misto de dividendos com valorização bolsista.

Duas teses têm-se digladiado no mundo empresarial. De um lado os defensores de que o objetivo da gestão é o de maximizar o valor acionista e de outro os que defendem que a gestão deve equilibrar os interesses de todas as partes interessadas (Stakeholders), i.e. acionistas, trabalhadores, fornecedores, clientes e comunidade.

 

Esta segunda visão tem em conta que o sucesso da empresa não de deve unicamente ao capital investido pelos acionistas, mas também ao trabalho e empenho dos seus funcionários, à preferência e lealdade dos clientes, à qualidade das matérias-primas, produtos e serviços dos fornecedores e ao apoio e suporte de toda a comunidade. Assim sendo não é justo que apenas os acionistas sejam recompensados. Para assegurar este equilíbrio é, naturalmente, necessário assegurar a independência da gestão e a sua não subordinação a um único grupo de interesses, nomeadamente ao dos acionistas.

 

Nas últimas décadas contudo tem reinado no mundo, e entre nós de forma exacerbada, a tese da maximização do valor acionista – que combina um misto de dividendos com valorização bolsista.

 

Em Portugal uma exceção a esta visão foi a gestão do Eng. Jardim Gonçalves que do zero construiu o maior banco privado português com presença internacional diversificada e relevante em várias geografias. Todos se recordam da sua filosofia de independência da gestão. O sucesso dependia de um justo equilíbrio entre as várias partes envolvidas. Tudo isso se perdeu quando a sua gestão foi abruptamente substituída por outras centradas e dependentes unicamente dos acionistas.

 

Vem isto a propósito da recente decisão da Business Roundtable, a mais importante associação de presidentes executivos do mundo, antigo bastião da tese da maximização do valor acionista, de alterar a sua visão e passado a defender a tese do equilibro de interesses das várias partes interessadas.

Em nota de imprensa (ver aqui) de 19 de agosto último a Business Roundtable diz claramente que se afasta da primazia acionista e adota a visão da necessidade da empresa equilibrar os interesses de todas as partes interessadas (Stakeholders). Pode ler-se "Cada uma das partes interessadas é essencial. Comprometemo-nos a valorizar cada um delas, pelo futuro sucesso das nossas empresas, das nossas comunidades e do nosso país".

 

Que visão tão radicalmente diferente da que têm ainda a maioria das grandes empresas portuguesas, empenhadas apenas em gerar o máximo valor acionista mesmo que à custa dos empregados, fornecedores, da sua comunidade e, consequentemente, do seu país.

 

A Business Roundtable inclui nos seus órgãos sociais personalidades como Jamie Dimom (CEO do JP Morgan Chase), Safra Catz (CEO da Oracle), Alex Gorsky (CEO da Johnson and Johnson), Marillyn Hewson (CEO da Lockheed Martin), Doug Mcmillon (CEO da Wallmart), Chuck Robbins (CEO da Cisco), Virginia Rometty (CEO da IBM) e tantos outros presidentes das maiores empresas mundiais. Não é, obviamente, um coito de radicais de esquerda.

 

Economista

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