Jorge Marrão
Jorge Marrão 30 de setembro de 2019 às 20:00

A ambição do retrocesso

Os que se exasperam com a lentidão reformista portuguesa, pobreza do país e das suas instituições lançam-se aos Descobrimentos ou à emigração, ou conformam-se. São os conservadores de esquerda e direita.

A FRASE...

 

"Voltou (Catarina Martins) metaforicamente ao verão de 1975 de que parece ter saudades mesmo sem o ter vivido." 

 

Manuel Alegre, Público, 23 de Setembro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

O poeta e político Manuel Alegre teve de relembrar o PREC no seu artigo no Público. E porquê? Ao recordar o PREC, recordou o reformista Sá Carneiro e a alternativa ao estado das coisas. O panorama do pluralismo democrático reformista do centro e centro-direita alargou-se com os tradicionais e novos partidos, mas o método de Hondt pode tramar tudo isto. O Governo recuperou a troika com os anestesiantes de fórmula europeia: BCE, conjuntura internacional, impostos e cativações. Uma fórmula como outra qualquer. As contas que afinal já parecem estar certas, fruto da conversão dos "keynesianos" do défice ao expansionismo da austeridade, levaram mais uma vez parte significativa do debate eleitoral para a contabilidade pública.

 

Os media deleitaram-se com a disputa entre os Ronaldos das finanças do PS ou PSD. Quem tem o melhor? Os credores agradecem, o país também, e a Europa regozija-se. A ambição lusa confina-se a não abanar o edifício social e económico prevalecente, ou a retroceder. Relembra-me sempre os abaixo-assinados contra a mudança atávica: o que se disse do Centro Cultural de Belém, do Parque das Nações, da conversão do edifício Monumental, da Ponte Vasco da Gama, das lojas obsoletas no Chiado agora convertidas em locais para explorar o turismo, das barragens e das renováveis, das grandes superfícies e comércio tradicional, da transformação das empresas públicas mal geridas e das privadas que são contra o povo porque afinal dão lucro. A nossa idiossincrasia: protestamos, mas depois esquecemos. Os que se exasperam com a lentidão reformista portuguesa, pobreza do país e das suas instituições lançam-se aos Descobrimentos ou à emigração, ou conformam-se. São os conservadores de esquerda e direita. Não podemos deixar de ser portugueses.

 

O que não falamos nas eleições: da ambição dos portugueses, da falta de pujança das empresas portuguesas para assumirem risco por causa do Estado, dos efeitos dos ventos da Europa e do mundo, do país dual que não tem solução, com um interior em que nem a paisagem se escapa, da poupança que não temos, do envelhecimento que coarta o crescimento, da juventude desempregada e dos salários mil euristas. Oxalá que o país não se adie, porque atrasado na globalização já está. 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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