Jorge Marrão
Jorge Marrão 12 de fevereiro de 2014 às 00:01

Minoria ruidosa

O agente Governo a quem confiámos a busca do bem público dedica-se na maior parte do tempo a responder a clientelas públicas e privadas, que utilizam os media, com a conivência cobarde das oposições, para acicatar os ânimos dos eleitores que dificilmente aceitam o xadrez histórico em que estão metidos.

 

Só políticos insanos é que podem governar contra os que os vão expulsar. Resta saber como a sociedade forma a sua opinião sobre os políticos. Hoje, tem de se governar de acordo com uma minoria ruidosa pretensamente maioritária que se publica, e que se faz ouvir a toda a hora, e das formas mais inesperadas. O país parlamentarizou a informação e análise, com jornalistas que informam com opinião, políticos que são pretensamente informadores e analistas que apenas fazem política. Travestimos as funções de poder, contra-poder e de informação, e ninguém declara os seus interesses e as suas ideologias.

Na vida política democrática subsistirá sempre o paradoxo de um governo viver pouco tempo, mas as consequências das suas acções perdurarem no tempo. A verdade aplicar-se-á a este Governo, como aos anteriores. Um bom Governo é sempre aquele que faz boas políticas! E estas, enquanto se governa, quem as define? Naturalmente que o escrutínio caberia aos media, "think tanks" e sociedade civil em geral.

Mas, os media reflectem um alinhamento anti-poder básico, ao apresentarem as histórias pessoais, dramas familiares e erros humanos nas instituições públicas e privadas como representação totalitária da realidade e das mudanças necessárias, cabendo a última responsabilidade ao "solucionador magno" que seria o Governo/Estado.

Os media cavalgam hoje ondas (Miró, urgências médicas, emigração, falta de medicamentos, excesso ou falta de despesa pública, impostos a mais ou a menos, regulamentos omissos ou intrusivos, decisões dos tribunais, etc.), esperando, como na Nazaré, que estas afoguem o adversário, ou nos deslumbrem pela dimensão do problema que arrastam.

As vagas nunca são redentoras, mas querem-se desmoralizadoras. Em geral, tudo serve para explicar que o que se passa na sociedade só pode ser responsabilidade do Governo. É preciso agitar, para que nada se mude.

A sociedade não se responsabiliza, porque há um encarregado omnisciente: o Estado. A visão salazarista que nada existe para além do Estado tem hoje herdeiros inesperados: claramente a esquerda comunista e folclórica, alguns dos que aspiram ao poder de governar, os revoltados dos partidos do Governo, e os opositores da oposição. E os media dão corda a tudo isto.

Não há honestidade intelectual entre os agentes políticos. Não há elogios recíprocos entre os partidos que governaram o País nas últimas décadas. Vivemos no faz e desfaz perpétuo. Tudo serve de arma de arremesso. Os partidos lutam pelas preferências do votante mediano, aqueles que maioritariamente sofrem as consequências das mudanças, e navegam no politicamente correcto. O centro serve para a próxima alternativa atingir o poder. É o círculo vicioso do eleitor que elege a sua prioridade momentânea. As instituições, e os políticos que as servem, não protegem o longo prazo, mas o efémero do ciclo eleitoral.

Governar hoje é um exercício épico, se se quiser reformar alguma coisa. Porque se confunde Estado e Administração Pública com a sociedade, e esta aprisionou-se daqueles, e aqueles desta, numa entropia infernal.

O agente Governo a quem confiámos a busca do bem público dedica-se na maior parte do tempo a responder a clientelas públicas e privadas, que utilizam os media, com a conivência cobarde das oposições, para acicatar os ânimos dos eleitores que dificilmente aceitam o xadrez histórico em que estão metidos. Quando a sociedade descrê dos seus políticos, dos seus jornais e televisões, e os políticos da sociedade que governam, esta abdicará e entregará o poder e a ordem a alguém. Vamos ter um ordenador: a Europa do Euro, e seremos assim uns figurantes vencedores.

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