José Maria Brandão de Brito
José Maria Brandão de Brito 12 de abril de 2016 às 19:55

A Europa nos seus labirintos 

O excesso de informação mata a informação. O facto de se tratar de uma expressão óbvia não me dispensa de a relembrar aqui, naquele que é, seis meses depois, o meu artigo de regresso às páginas deste jornal. Vem isto, mais uma vez, a propósito da Europa.

Das suas hesitações, dos seus temores, da sua inqualificável forma de não resolver as crises com que constantemente se debate, porque teima em não as encarar com frontalidade, porque trata cada uma como se fosse um caso isolado quando, afinal, tudo está ligado a duas questões fundamentais: à liderança alemã cada vez mais isolada e titubeante e à gestão errática que pratica por não conseguir forma de se libertar da inexorabilidade dos 28 ciclos políticos que a sujeitam e lhe permitem pouca margem de manobra.

 

A Europa, mais bem dito, a UE que ainda continua a ser um projeto em construção mudou radicalmente de rumo ao aceitar pacificamente reduzir esse projeto à sua dimensão financeira. Há de facto uma crise económica e, sobretudo financeira, mas é neste ponto que a informação produzida, diariamente em catadupas, vai passando, sucessivamente, para segundo plano outras crises que, mesmo sendo provisoriamente esquecidas, não deixam de estar dolorosamente vivas. São essas crises que quase paralisam o que podia ter sido um caminho de progresso e bem-estar, que culminou em 2001 com a adoção da moeda única. Previa-se então o prosseguir da construção de uma Europa pujante e solidária com o desenvolvimento de outras geografias, apoiando e apoiando-se nas economias emergentes, assegurando o seu lugar no mundo. Afinal o lançamento do euro estava mal preparado o que, juntando a adesão precipitada dos países do Leste e à displicência com que nos primeiros tempos foi encarada a crise da "subprime" importada dos EUA, deu origem à enorme recessão que, depois de muitos milhões perdidos, ainda dura submergindo os progressos feitos em mais de meio século de existência. Por isso, a UE não só mudou como perdeu o rumo: por falta de timoneiros à altura e por tibieza na forma como atuaram.

 

Faltam líderes e sobram crises: a provocada pelos ataques terroristas que mostram à exaustão como nem perante este perigo e toda a barbaridade que comporta convencem as autoridades de segurança da importância de uma cooperação total e solidária; a da Grécia a agonizar com um duro programa de resgate e a braços com uns milhares de refugiados; a agressão russa à Ucrânia, a merecer apenas cautelosas reações face à enormidade da força exibida pelos russos e, mesmo assim, a dar pretexto para manifestações de euroceticismo, com o aconteceu com o recente referendo holandês; a paralisia expectante provocada pelo referendo britânico depois das enormes cedências que foram feitas; a dos refugiados e/ou emigrantes, para a qual foi encontrada uma solução que envergonha os europeus e menospreza os seus valores sem salvar outro importante "acquis" que é Schengen.

 

Ninguém é capaz de dizer basta!? A Europa à deriva vai adiando as decisões até ao momento em que já não vai poder esperar mais. A desesperança cresce e os resultados já estão à vista: a Europa fragmenta-se a várias velocidades e modalidades até se consumar alguma coisa irreparável. Assim, caminha tristemente para a irrelevância e para suicidas soluções nacionalistas e xenófobas.

 

Professor do ISEG/Universidade de Lisboa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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