José Maria Brandão de Brito
José Maria Brandão de Brito 29 de junho de 2016 às 19:45

"Goodbye UK…"

É difícil falar do Brexit depois de tudo o que já se escreveu e disse mas, ainda mais difícil, seria silenciar-me. Ficaria com um nó na garganta se calasse a minha estupefação e não partilhasse convosco o mal-estar que sinto.

O Reino Unido parte sem partir porque desde sempre é social, política e economicamente europeu. Enquanto isso a Europa afunda-se em crises que não solucionando vai adiando até chegar o momento em que, uma vez por todas, se tem de definir. Afinal qual vai ser o caminho? Qual vai ser o nosso futuro agora que as ameaças, de repente, se agigantaram e já não se podem evitar olhando para o lado ou fazendo acordos espúrios para simular que não se está paralisado.

 

Foi o medo que fez decidir o RU: de um lado, o medo do que aí podia vir em termos económicos e, do outro, o medo da emigração descontrolada; em ambos os casos os pragmáticos britânicos, em vez de discutirem ideias, deixaram-se arrastar por um irracionalismo imprevisível. Será que o medo também vai tolher a tomada de decisões que se tornam vitais para o futuro da integração europeia? Estaremos à beira da implosão da União Europeia?

 

Curiosamente todos foram apanhados desprevenidos pelo resultado do referendo britânico, todos fiados de que o sim venceria, que o pragmatismo faria um último golpe de rins e que o interesse económico, por fim, se imporia. Não havia plano B, nem tão pouco A para avaliar os colossais impactos do referendo. Nas Ilhas Britânicas, isso ficou claro logo na noite em que se conheceram os resultados e, no continente, os governos dos Estados-membros continuavam distraídos com os seus problemas caseiros. E as primeiras reações são muito preocupantes: uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos seis fundadores, ela mesma inconclusiva, da qual saíram com ar comprometido (a foto do final é uma ilustração silenciosamente gritante de impotência), dizendo palavras de circunstância sem conteúdo.

Trabalho de casa, como gostaria que tivesse sido feito pela Comissão Europeia e os seus milhares de técnicos, fê-lo o Economist, "Out and down. Mapping the impact of Brexit", onde passam em revista as consequências do Brexit, numa brochura de 30 páginas, percorrendo as mais importantes matérias, para já, em causa: os custos políticos e económicos, as finanças, o comércio, a saúde, a energia, as telecomunicações… Que fez a comissão guardiã dos Tratados? Como pretende defender os europeus que não colaboraram no desatino dos britânicos? Afónicos e titubeantes os "leaders" europeus ensaiam um desacreditado eixo Berlim-Paris, a que juntaram Roma, hesitam sobre se devem ou não acelerar a saída do RU e preparam-se para no comunicado do Conselho Europeu a 27 dizerem umas banalidades sobre o sexo dos anjos quando a Europa está mesmo a arder, com as suas crises a consumi-la: na Crimeia, com os refugiados, com a crise do euro a perpetuar-se por uma inatividade irresponsável.    

 

Só faltava mesmo que, depois de tudo o que se passou e do que passámos, o CE decidisse aplicar-nos sanções por "deficit" excessivo: a importância das décimas… ou a orquestra a tocar enquanto o barco se afunda. Seria caricato se não fosse grave. Terá sido por acaso que o tema voltou às primeiras páginas exatamente no dia seguinte a terem sido conhecidos os resultados das eleições em Espanha?

 

"Carpe diem…" sabe-se lá que teto vai cair sobre as nossas cabeças.

 

Economista. Professor do ISEG/ULisboa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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