José Maria Brandão de Brito
José Maria Brandão de Brito 18 de maio de 2016 às 00:01

Krugman… connosco 

O Governo tem de se fixar nos seus difíceis objetivos e não pode estar constantemente a ser desviado dos seus propósitos com exigências, importantes claro, mas também claramente fora de tempo.

Paul Krugman, economista e Prémio Nobel, que se assemelha a um jovem precocemente envelhecido e, onde está, parece pedir desculpa pela sua presença, quando recentemente passou por Lisboa, fez uma série de afirmações sobre a nossa economia e deixou críticas sobre o caminho que a UE tem vindo a percorrer nos últimos anos. Quero recordar aqui algumas dessas afirmações e tirar conclusões.

 

Acresce que Krugman, que é também um dos mais lúcidos e melhores conhecedores da economia portuguesa, que acompanha há mais de 40 anos, defende que é precisamente na Eurozona que estão os maiores problemas da recuperação da nossa economia. No centro de tudo está o BCE onde, no início, Jean Claude Trichet, um conservador, "tinha um modelo errado" e "fez a Europa perder ímpeto". A atuação do BCE refletida nos bancos centrais acabou por atrasar a superação da crise, que foi lenta e insatisfatória para os países mais atingidos. Dito doutra forma, a UE não conseguindo superar a crise, tolhida por medos e preconceitos vários: da inflação, das políticas orçamentais expansionistas, das crises da dívida, foi transformando a austeridade num conceito intocável e foi repetindo até à exaustão o não há alternativa.

 

O que o atual Governo conseguiu até agora foi precisamente mostrar que existe uma alternativa. E em abono desta tese, Krugman afirma que a teoria económica não falhou, sobretudo, quando defendeu que o avolumar dos problemas era um efeito da austeridade.

 

Mas Portugal nada pode fazer sozinho: só uma consistente política de despesa/investimento, no Centro - na Alemanha, designadamente - pode ter reflexos positivos em toda a UE: tornando mais fortes as economias; viabilizando uma inflação mais elevada em toda a Zona Euro; permitindo às periferias exportar e tornar-se mais competitivas.

 

Aparentemente, o Governo português está a fazer bem as coisas que lhe competem (não tem possibilidade de controlar as conjunturas externas), designadamente porque está a criar condições que acrescem à confiança interna e externa; reiterando o seu europeísmo e a sua permanência no euro; negociando ponderadamente alternativas; não fazendo exigências sobre a dívida; suavizando lentamente os efeitos da austeridade.

 

Daí a conclusão de Krugman, que subscrevo convictamente: "Portanto, a orientação geral está correta."

 

A questão é, por isso, para nós, um problema de tempo: esta mudança, este novo ar que se respira, apesar da recente publicação dos resultados de alguns indicadores económicos, parece dizer o contrário, precisa de serenidade e de ponderação. O Governo tem de se fixar nos seus difíceis objetivos e não pode estar constantemente a ser desviado dos seus propósitos com exigências, importantes claro, mas também claramente fora de tempo. Tem de andar mais devagar do que desejaria para conseguir fazer bem. É preciso saber a cada momento quais são as prioridades e não estar constantemente a acrescentar a lista. Creio que o sábio enunciado que Krugman fez dessas prioridades foi uma das principais mensagens que nos quis deixar.

 

Economista, Professor do ISEG/ULisboa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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