José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 09 de abril de 2018 às 20:33

A natureza mecanicista dos ciclos económicos

Taxas de juro artificialmente baixas estimulam o crédito e induzem níveis excessivos de consumo e investimento inadequado. O resultado é a aceleração do PIB e a subida da inflação.

A FRASE...

 

"As suas narinas já sentem finalmente o cheiro nauseabundo da recessão?"

 

Albert Edwards, Société Générale, 29 de março de 2018

 

A ANÁLISE...

 

As flutuações económicas são causadas por inúmeros fatores. Guerras ou catástrofes naturais, revoluções tecnológicas ou alterações radicais na ordem económica mundial influenciam a atividade global. Mas estes são fatores não recorrentes que, por si só, não causam ciclicidade. É certo que uma sucessão destes fenómenos pode criar uma sucessão de ciclos. Mas à medida que as economias se vão tornando mais complexas cada vez é menor o impacto de fatores isolados. Com uma exceção: a política monetária.

 

Oscilações nas taxas de juro diretoras e nos montantes de liquidez disponibilizados pelos bancos centrais provocam movimentos sincronizados em todos os quadrantes económicos que geram um padrão cíclico da atividade. Taxas de juro artificialmente baixas estimulam o crédito e induzem níveis excessivos de consumo e investimento inadequado. O resultado é a aceleração do PIB e a subida da inflação. Acontece que o caráter insustentável da despesa agregada coloca o sistema à mercê de um endurecimento da política monetária, que se torna inevitável pelas pressões inflacionistas acumuladas. A reversão das más decisões de consumo e investimento provocam um abrandamento ou contração da atividade e a queda da inflação, circunstâncias que apelam a uma política monetária expansionista. É esta alternância entre condições monetárias acomodatícias e restritivas que cria flutuações recorrentes na atividade, pelo que se conclui que os ciclos económicos são essencialmente ciclos de crédito ditados pela ação dos bancos centrais.

 

A relevância empírica desta mecânica é reveladora. Nos EUA, por exemplo, dos treze ciclos de endurecimento da política monetária registados desde 1950, dez redundaram em recessão. É claro que em economia não há lugar a determinismos, mas com o segundo mais longo ciclo expansionista desde o pós-guerra e um processo de normalização das taxas de juro que entrou no seu terceiro ano, a probabilidade de recessão nos EUA nos próximos doze meses começa a ser significativa.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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