José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 15 de outubro de 2015 às 20:50

Progresso e desigualdade

Angus Deaton, o escocês laureado com o Prémio Nobel da Economia de 2015, é um académico tão original como corajoso. Original, pela forma refrescantemente interdisciplinar como aborda os temas, juntando nas suas análises o rigor da matemática com os ensinamentos da história e a perspetiva da ciência política.

Corajoso, por ter conduzido o seu percurso intelectual sem vassalagem à asfixiante ortodoxia keynesiana, que molda a produção económica nas universidades de topo que sempre frequentou. A par de um punhado de outros céticos do primado da engenharia social, Deaton recusa a fórmula consensual de resolução dos temas da pobreza e da desigualdade: atirar dinheiro para o problema.

 

Após incursões sobre as determinantes do consumo, que deram a este académico britânico radicado em Princeton os primeiros laivos de notoriedade, nos últimos anos os seus trabalhos têm versado sobre a relação entre o crescimento e a desigualdade. Como ele próprio assume no seu mais recente livro ("The Great Escape - Health, Wealth, and the Origins of Inequality", 2013), o seu interesse pelo tema da fuga da pobreza e o modo como o aborda é muito influenciado pela história de sucesso da sua ascendência direta. Conta Angus no prefácio do "The Great Escape" que seu pai, Leslie, começou jovem a trabalhar numa mina de carvão no Norte de Inglaterra, algures entre as duas grandes guerras, com a ambição máxima de emular o seu pai na função de supervisor na mina. A Segunda Grande Guerra, ao reclamar a incorporação do jovem Leslie na força expedicionária britânica, haveria de furtar-lhe o destino provável da dura vida de mineiro e expô-lo ao risco de morte em combate. Mas outra desgraça, a tuberculose, haveria de o isentar da operação que ceifou quase todos os camaradas da sua companhia. Já em tempo de paz, Leslie estudou à noite, empregou-se numa firma de construção civil e decidiu, ele próprio, tornar-se engenheiro, ambição que lhe tomou uma década de árduo estudo, que acumulou com a sua profissão e a educação de dois filhos. Angus, o filho do miserável mineiro tornado engenheiro civil, foi para Cambridge estudar Matemática, tornou-se professor de Economia e, desde esta semana, Prémio Nobel. Como Deaton escreve no seu livro "as fugas [da pobreza] deixam pessoas para trás, e a sorte favorece uns e não outros; elas criam oportunidades, mas nem todos estão igualmente equipados ou determinados para as aproveitar. Por isso, a história do progresso é também a história da desigualdade". É notório o destaque dado por Deaton à Sorte nos processos de fuga da pobreza e da formação da desigualdade social, noção que é implicitamente inaceitável na conceção dos muitos adeptos da engenharia social, segundo os quais a combinação correta de especialistas e recursos tudo resolvem. Outro elemento que Deaton ressaltou como crucial para a Fuga é o Tempo, essa entidade passiva, que torna vazia as pretensões dos "engenheiros sociais" mais ardentes, mas que constitui uma promessa (otimista) de progresso humano. Por quanto, se o crescimento económico levanta todos os barcos, não os levanta todos ao mesmo tempo. Deaton é perentório em afirmar que a desigualdade é frequentemente a consequência do crescimento; portanto, não pode ser considerada má em si mesma. E vai mais longe, ao reconhecer que a desigualdade pode ser fundamental para acelerar a Fuga da pobreza, ao criar o exemplo e a ambição para aqueles que num primeiro momento ficam para trás na luta contra a privação. Mas a desigualdade pode também ser perniciosa se os primeiros a conquistarem a prosperidade se valerem do poder adquirido para criar um sistema rentista. Isso pode assumir uma forma mais brutal de sabotagem do elevador social, por exemplo, restringindo o acesso generalizado a cuidados de saúde e educação, ou uma forma mais subtil de submissão da população a um torpor assistencialista que cristaliza a desigualdade original. É neste contexto que Deaton se insurge contra a prática corrente de ajuda ao desenvolvimento dos países mais pobres, atestando que "com os enormes fluxos de ajuda relativamente ao PIB, as restrições associadas à necessidade de gerar fundos domesticamente são removidas e os autocratas recompensados. (…) Amplos fluxos de ajuda conferem aos tiranos a oportunidade de explorar os seus próprios governados, usando a sua pobreza para atrair os fundos que os perpetuam no poder".

 

O progresso gera desigualdade e vice-versa, numa dança que a História desde o início da Revolução Industrial mostra ter sido globalmente virtuosa, no sentido da clara melhoria das condições de vida da população. Onde esta dialética falhou e ainda falha é nos países onde o poder do Estado veda a possibilidade ou anestesia a vontade de desenvolvimento que é inato à condição humana.

 

Chief economist do Millenniumbcp

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub

Marketing Automation certified by E-GOI