José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 30 de novembro de 2015 às 00:01

Shift + F9

Estou certo que o BCE se orienta pelas melhores intenções, mas como a história nos ensinou em múltiplas ocasiões, os fins nem sempre justificam os meios, sobretudo quando se trata de experiências sociais que cortam radicalmente com as práticas estabelecidas.

A FRASE...

 

"As circunstâncias que determinaram a redução da taxa de depósito dos bancos para o seu atual valor [-0,2%] traduziam um quadro macroeconómico que entretanto se alterou."

 

Mario Draghi, entrevista no Il Sole 24 Ore, 31 de outubro de 2015

 

A ANÁLISE...

 

Quando o BCE reduziu a taxa de juro de depósito para -0,2%, Mario Draghi asseverou que se tinha atingido o limite mínimo das taxas de juro. Estávamos em setembro de 2014 e a taxa de inflação na área do euro era de 0,3%. Em março seguinte, o BCE iniciou um massivo programa de compra de dívida pública (QE), com o desígnio de aproximar a inflação de 2%. Chegados a outubro de 2015, a economia da UEM acelerou, o crédito bancário despontou, mas a inflação manteve-se em torno de zero.

 

Perante a ineficácia da política prosseguida, os economistas do BCE voltaram a debruçar-se sobre os seus modelos macroeconómicos em busca de uma solução portadora de inflação. Em sentido figurado, alguém fez Shift + F9 (função que no Excel refaz os cálculos) para incorporar as alterações de circunstâncias a que alude Draghi, ao que o modelo presumivelmente respondeu com a recomendação de mais uma dose de QE e de diminuição da taxa de juro dos depósitos para valores ainda mais negativos. Que essas medidas signifiquem que o BCE passe a deter cerca de 20% do "stock" da dívida pública dos países da UEM é provavelmente visto como uma distorção necessária para o bem económico comum. De igual modo, que taxas de juro negativas sejam uma aberração, cujas consequências nenhum modelo pode antecipar com fiabilidade, parece ser um detalhe de somenos gravidade.

 

Na entrevista supracitada, Draghi afirmou que a credibilidade de um banco central reside na capacidade de atingir os seus objetivos e não na forma ou grau de manipulação dos instrumentos. Estou certo que o BCE se orienta pelas melhores intenções, mas como a história nos ensinou em múltiplas ocasiões, os fins nem sempre justificam os meios, sobretudo quando se trata de experiências sociais que cortam radicalmente com as práticas estabelecidas.

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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