Manuel  Falcão
Manuel Falcão 06 de dezembro de 2019 às 10:31

Batotice regionalizada

Num país com a nossa dimensão geográfica e populacional não consigo compreender a defesa que alguns políticos, na maioria profissionais dos respectivos aparelhos partidários, fazem da regionalização.
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"Existem apenas duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana."
Einstein

Batotice regionalizada
Num país com a nossa dimensão geográfica e populacional não consigo compreender a defesa que alguns políticos, na maioria profissionais dos respectivos aparelhos partidários, fazem da regionalização. Posso compreender, e desejar até, que se criem mais mecanismos de descentralização e se aperfeiçoem os existentes, posso aceitar que se aumente o papel e competências dos municípios, desde que recebam os meios necessários para isso e que eles próprios tornem o seu funcionamento mais transparente. Mas num Estado Central com tantas ineficiências como o nosso, criar aparelhos regionais apenas vai multiplicar essas ineficiências e as burocracias que as acompanham. Mais: num Estado onde a corrupção atinge níveis tão elevados, muitas vezes a nível local das autarquias, fazer a regionalização é aumentar os territórios da corrupção, é fomentar o controlo dos aparelhos administrativos pelos aparelhos partidários a uma escala ainda maior. Eu não quero ter mais Estado, quero sim ter um Estado menor e melhor. Mas quando penso na regionalização vejo apenas mais potenciais caciquezinhos, mais poderzinhos, mais serviços duplicados, menos eficácia, maiores prejuízos para os cidadãos, muito provavelmente mais taxas e impostos. A regionalização não é uma questão ideológica que divida os partidos - há dirigentes pró-regionalização nos principais partidos, até porque os seus defensores vêem oportunidades acrescidas para espalhar uns lugares e aumentar o tráfico de influências. Aos principais e mais envelhecidos partidos, aqueles onde o aparelhismo e a corrupção andam de braço dado, a regionalização interessa para proveito próprio, mesmo que seja má para o país. Por saberem isso os seus defensores querem criá-la de forma encapotada, meio escondida, ir criando factos consumados - foi o que António Costa andou a fabricar com alguns autarcas que lhe são próximos nestes últimos tempos, foi aquilo que o Presidente da República travou, alertando para a marosca.

Dixit
"É preciso encontrar formas, públicas e privadas, de agir face à grave crise da comunicação social"
Marcelo Rebelo de Sousa

Semanada

O Tribunal de Contas arrasou os planos das câmaras municipais contra incêndios nas zonas rurais acusando-os de falta de eficácia um terço dos alunos portugueses com 15 anos ou mais só lê quando é obrigado e para 22% dos estudantes a leitura é considerada uma perda de tempo há disciplinas, como o Português, em risco de ficar sem professores no espaço de uma década só seis das 20 dioceses portuguesas criaram comissões de protecção de menores o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou Portugal por condições degradantes em duas cadeias em Outubro o CDS já caiu dos 4,4% alcançados para 2,9% das intenções de voto, o mesmo valor que a Iniciativa Liberal e menos que o Chega segundo a Marktest mais de cinco milhões de portugueses utilizam serviços de mensagens instantâneas em vez de SMS a falta de verba impede traduções do roteiro dos museus do Algarve há mais de três mil edifícios públicos contaminados com amianto e a substância causou 126 mortes nos últimos quatro anos o desemprego de longa duração entre as pessoas com deficiência aumentou 15% na última década todos os meses são legalizados em Portugal, em média, cinco novos cultos religiosos Portugal tem o terceiro pior investimento público per capita da União Europeia.

O regresso do papel
A revista britânica The Face foi minha assídua companhia ao longo do tempo em que existiu, entre 1980 e 2004. Gostava da forma como abordava os temas, gostava da sua paginação, gostava da sua edição fotográfica. Após um interregno de 15 anos eis que ela volta às bancas, continuando com algumas das suas características. A revista no entanto ganhou um novo território, no digital. Agora há uma edição trimestral em papel e uma edição permanente online. A equipa editorial do papel tem a mesma dimensão da equipa do digital e vendo ambas percebe-se que houve o cuidado de pensar num projecto misto, que combina a magia do papel impresso com as possibilidades que o online oferece. Stuart Brumfitt é o seu novo editor e no editorial do primeiro número da nova fase de vida da revista publica uma fotografia sua, de 1997, então um adolescente sentado ao lado da mãe mas a folhear um exemplar da Face original. É uma simbólica nota no arranque desta nova série. Os temas são os de sempre, um mix de música, locais da noite, cultura urbana, moda, artigos que vão de uma reportagem no El Club de Barcelona a uma produção fotográfica com Rosalia. Mas há temas novos, como ambiente e animais, ao lado de um questionário a Liam Gallagher, dos Oasis. A publicação tem 312 páginas de bom papel bem impresso. Dado curioso: entre os anunciantes da versão em papel, logo no início da revista, estão empresas online como a Netflix, Amazon Prime ou a Farfetch e publicidade a conteúdos como uma exposição da Tate Modern ou o filme Joker. O mundo está a mudar e mesmo para as empresas da economia digital é preciso procurar audiência noutros suportes. Na imagem estão as duas capas alternativas do primeiro número da nova série da Face, que pode ser comprada na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88.

Inquietações
Pedro Cabrita Reis (na imagem) regressa a Serralves 20 anos depois da sua primeira exposição naquele espaço. A Roving Gaze (Um Olhar Inquieto) é o nome do projecto que agora apresenta e que foi especificamente concebido para os espaços de Serralves. A exposição assume-se como uma única obra de grande escala que evoca o percurso e a vida do artista sem preocupação cronológica. Inclui estruturas concebidas para o local, fotografias de obras de Cabrita desde 1999 até agora, ao mesmo tempo que apresenta objectos, desenhos, documentos e outros trabalhos que fazem a ponte entre a vida da pessoa e a obra do artista. A exposição fica em Serralves até final de Março do próximo ano. Em Lisboa, até 20 de Dezembro, pode ainda ver estudos de Manuel Caldeira, desenhos de Pedro Sousa Vieira e pequenos bronzes de Rui Chafes na exposição "SI SOL FLAT", no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), no Antigo Mercado de Xabregas, Rua Gualdino Pais. Ainda em Lisboa, uma chamada de atenção para a exposição de pinturas Manuel Gantes, que vai estar na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria) até 21 de Dezembro. Por fim André Guedes mostra "Formas Antigas, Novas Circunstâncias" na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1.º) até 18 de janeiro.

Canções populares
Harry Connick Jr. é um dos grandes responsáveis pelo ressurgir do jazz cantado. Ele surgiu numa espécie de regresso às origens já que no início o jazz cantava-se e dançava-se em vez de se ouvir sentado numa sala de concerto. Connick, há uns anos, trouxe este lado de diversão de volta ao jazz. Cabe aqui dizer que Connick, além de cantor, pianista e até actor é um músico experiente e talentoso, capaz de fazer arranjos complexos e dirigir uma orquestra como aliás fez neste disco de homenagem a Cole Porter. Comecemos pela voz: neste disco Connick está cada vez mais parecido com Sinatra e o seu trabalho nas 13 canções que escolheu para "True Love: A Celebration Of Cole Porter" mostra-o a dirigir em estúdio uma orquestra de 16 músicos para a qual compôs todos os arranjos. As maiores surpresas no repertório escolhido são as duas canções da injustamente esquecida banda sonora de Cole Porter para o filme "High Society" - "You’re Sensational" e "Mind If I Make Love To You?". O disco começa com uma boa versão de "Anything Goes", um arranjo inesperado em "All Of You" e interpretações arrebatadoras de "I Love Paris", "In The Still Of The Night" e, sobretudo, de "Begin The Beguine", uma das minhas canções favoritas de Porter. O CD está disponível no Spotify.

Pensamentos ociosos
Todos os dias me surpreendo com a falta de memória e a ingenuidade das afirmações de arguidos e testemunhas interrogadas nos principais processos em curso nos tribunais portugueses.

Um local essencial
A minha grelha de avaliação de um restaurante baseia-se em coisas simples: qualidade da matéria-prima, qualidade e inovação da sua confecção, serviço, ambiente, e, no final, a relação qualidade-preço considerando os itens anteriores. Muitos novos restaurantes não passam nesta grelha de avaliação logo nalgumas coisas fundamentais. Felizmente há excepções e há umas semanas conheci uma delas - o Essencial, o novo restaurante do chef André Lança, que abriu em meados deste ano depois de uma passagem pelo Palácio do Governador. André Lança estudou em França e tem uma clara devoção pela cozinha francesa, que felizmente aproveita de forma criativa para uma adaptação mais portuguesa. O Essencial é um exemplo de boa arquitectura de restaurante num espaço relativamente pequeno, muito bem aproveitado, onde o conforto dos clientes foi de certeza parte importante do caderno de encargos. O menu vai variando, este é um daqueles restaurantes onde se evita a rotina e volta e meia aparecem umas surpresas. Nesta altura do ano, a sazonalidade é marcada pelas trufas enquanto a tradição é assumida pelo foie gras. Logo no couvert há a boa surpresa de o pão ser da Terrapão, acompanhado por manteiga da ilha do Pico (uma das nossas melhores) e banha de porco mangalica do Fundão (muito bem temperada e trabalhada). Nessa noite pela mesa passaram, nomeadamente, foie gras, pâté en croutes com pickles, gnocchi com cantarelos e cebola fumada, sela de borrego e codorniz com puré de batata. Os comensais ficaram satisfeitos e devo dizer que estes foram os melhores gnocchi que comi em muitos anos. Nas sobremesas, a pastelaria é também influenciada pela tradição francesa e ganha destaque um mil-folhas de caramelo salgado e uma tartelete de tangerina. A garrafeira é bem escolhida, entre vinhos portugueses e estrangeiros, e o serviço de mesa, quer na comida quer nos vinhos, é exemplar. Se quiser pode trazer o vinho que o restaurante aceita servi-lo mediante uma taxa de rolha. O Essencial fica na Rua da Rosa 176 e o  telefone é o 211 573 713.

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