Manuel  Falcão
Manuel Falcão 03 de maio de 2019 às 12:11

Lições espanholas

Aprende-se sempre alguma coisa a olhar para a relva do vizinho. Vem isto a propósito das eleições espanholas e do seu resultado.
Back to basics
"Anda tudo desequilibrado, o mundo devia parar, mas segue em frente."
V S Naipaul

Lições espanholas
Aprende-se sempre alguma coisa a olhar para a relva do vizinho. Vem isto a propósito das eleições espanholas e do seu resultado. Há quem veja no desfecho uma possibilidade de exportação da geringonça lusitana e quem já imagine António Costa numa cátedra de negociação política numa das grandes universidades madrilenas, com Pedro Sánchez, embevecido, a beber as suas palavras na primeira fila do auditório. Por muito que esta imagem possa ser simpática para alguns, ela não representa, porém, a verdadeira questão que o resultado das eleições gerais em Espanha evidencia. Além do tema das soluções governativas possíveis, e antes de se chegar à exportação da geringonça, vale a pena olhar para o que se passou e que provocou uma queda brutal do Partido Popular e uma alteração da paisagem política espanhola, com a entrada em cena, forte, da extrema-direita. A minha interpretação pessoal é que a causa do rápido fortalecimento da extrema-direita espanhola radica na fraqueza do PP, no resultado da sua governação e na sua inconsequência, e não num mero problema de táctica de campanha eleitoral. Visto daqui, parece-me que foi o PP que abriu a porta à extrema-direita ao descurar a Espanha fora das grandes regiões urbanas e industriais - o voto nas regiões mais rurais explica muito do que sucedeu e uma análise da geografia eleitoral merece atenção. Este fenómeno do peso eleitoral do voto não urbano é, aliás, comum noutras eleições: na Europa e, por exemplo, nos Estados Unidos na eleição de Trump. Quando toca a votos, os países não são o que o eleitorado urbano pretende. Em Portugal criou-se um vazio na direita tradicional que deixou, pelo menos por agora, de ser umas alternativa de poder. O descontentamento do seu eleitorado vai procurar uma alternativa de voto - foi o que aconteceu em Espanha e será o que, a continuarem as coisas assim, mais cedo ou mais tarde, aqui acontecerá. A responsabilidade não será dos eleitores. Será de quem os ignorou e, assim, os perdeu.

Semanada
Nos últimos 24 anos, a Igreja em Portugal perdeu quase mil padres há quatro dioceses (Porto, Lamego, Funchal e Santarém) contra a criação de comissões para analisar queixas de abusos sexuais feitos por padres um homem que cumpriu dez anos de prisão por crimes sexuais reincidiu e violou quatro mulheres em Lisboa no primeiro mês após a sua libertação a receita fiscal cresceu cerca de 10% no primeiro trimestre face a igual período do ano passado o crédito à habitação concedido pelas instituições financeiras a particulares até fevereiro cresceu 13,1% face ao mesmo período de 2018 e totaliza já 1,5 mil milhões de euros o valor do metro quadrado de habitação já aumentou 7% em termos médios nacionais, face ao final de 2018 os reembolsos da ADSE estão a demorar cerca de seis meses os "vistos gold" dão ao Estado cerca de 24 milhões de euros por ano; as zonas do Interior do país perderam mais de uma centena de farmácias nos últimos seis anos o ensino superior privado ganhou dez mil alunos em quatro anos; as viagens dos portugueses motivadas por férias e lazer aumentaram 4,2% no ano passado a percentagem de trabalhadores por conta própria em Portugal é de 15%, superior à média da União Europeia 88,6% dos pagamentos realizados em estabelecimentos comerciais em 2018 foram feitos com cartão bancário; as autarquias lideram as queixas por recusa de acesso a documentos oficiais.

Dixit
"O oportunismo eleitoral actualmente dominante faz-me lembrar uma imagem televisiva em que o actual primeiro-ministro português, pouco antes das eleições de 2015, confessava ao jornalista que lhe perguntara se iria aliar-se ao PSD: Ainda se o líder fosse Rui Rio…"
Manuel Villaverde Cabral 

Como funciona a mente
O processo criativo é algo que me fascina - e perceber como ele varia de pessoa para pessoa e de caso para caso ainda mais. "Devoção", de Patti Smith, agora editado em Portugal pela Quetzal, é um livro sobre o processo criativo, sobre os pequenos passos que antecedem uma ideia, sobre o caminho que leva da ideia à sua concretização. "A inspiração é um mistério recorrente e invisível", avisa logo Patti Smith nas primeiras linhas. E, mais à frente: "O destino dá uma ajuda, mas não a ajuda toda. Eu andava à procura de uma coisa e encontrei outra muito diferente", conta, para recordar como lhe surge uma ideia. Este é um diário que mistura notas de viagem com referências a locais ou autores que marcam a autora e, também, de forma fascinante aliás, o relato do quotidiano e das rotinas para além da sua faceta pública. Além deste lado de relato, há uma envolvente "short story", que dá o nome ao livro, "Devoção" (e o texto inicial do livro "Como funciona a mente" esclarece a forma como nasceu essa história), alguns poemas, notas e fotografias. "Um sonho não é um sonho" é o texto que resume o sentido do livro: "Porque escrevemos? - pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve. Porque não nos podemos limitar a viver." Boa tradução de Helder Moura Pereira, a partir da edição original, de 2017.

Então e a escultura?
Gosto do espaço físico da Galeria Valbom - com a ampla sala térrea e a grande "mezzanine". Até 22 de Maio, ali pode ser vista uma exposição que mostra um lado relativamente pouco conhecido de Júlio Pomar, o de escultor. "Então e a escultura?" é o título da exposição que mostra um conjunto de esculturas em bronze, produzidas em Paris em 2003 e 2004 - ao todo, 22. Além das esculturas, estão expostas sete "assemblages", seis serigrafias e um conjunto de 73 desenhos apresentados em vários núcleos, com início em 1946 e que vão até 2006. Em muitos destes desenhos, reconhece-se a preparação de outras obras - desde logo algumas das esculturas aqui presentes, mas também estudos para alguns dos seus quadros. Estão ainda presentes 75 publicações ilustradas por Júlio Pomar e também alguns livros de artista. A obra de Pomar tem vindo a valorizar-se em termos do mercado de arte em Portugal e praticamente todas as peças expostas estão disponíveis para coleccionadores. A Galeria Valbom, que organizou a exposição, editou um catálogo e comercializa igualmente uma peça produzida pela Vista Alegre com base num desenho de Pomar. A Valbom está aberta entre as 13 e as 19h30, de segunda a sábado, na Avenida Conde de Valbom 89-A.

Ao que isto chegou
A Polícia Judiciária de Leiria deteve um homem de 34 anos que falsificava notas de 20 euros para pagar serviços sexuais de prostitutas; o tribunal condenou-o a pena suspensa.

Voz arménia
Arani Agbabian tornou-se conhecida quando trabalhou com Tigran Hamasyan, um músico de jazz arménio, fortemente influenciado pela tradição musical das suas origens. Arani Agbabian é também de ascendência arménia, embora tenha nascido na Califórnia, em Los Angeles. Começou a estudar piano aos sete anos e foi cantando sobretudo com base no repertório folk do seu país e também com grupos vocais búlgaros. Foi como vocalista que trabalhou com Tigran Hamasyan, além de ter desenvolvido uma carreira a solo, em áreas como a ópera contemporânea, a dança e "performances" multimédia. Em 2014, gravou o seu primeiro disco a solo, "Kissy", e este ano surgiu "Bloom", que assinala a sua estreia na ECM. É um trabalho baseado exclusivamente no piano e voz de Arani e na percussão de Nicolas Stocker. A produção foi do próprio fundador da ECM, Manfred Eicher, e a sonoridade adequa-se ao carácter envolvente das melodias tradicionais arménias, que são a base deste trabalho. Em "Bloom", Arani Agbabian reinterpreta hinos sagrados, temas tradicionais e também composições dela própria e em colaboração com Stocker, nos quais a proximidade ao jazz improvisado é assinalável. Destaque para os temas "Patience", "Mother", "The River", "Full Bloom", para o tradicional "Anganim Arachi Ko" e "The Water Bride". O disco evidencia os desafios vocais e rítmicos da tradição musical arménia e é fruto de uma conjugação exemplar do delicado trabalho do piano, da voz e da percussão. "Bloom", edição ECM, no Spotify.

Um prazer picante
Quando mais leio "press releases" de restaurantes com conceito e de "chefs" que só pensam em menus de degustação, mais me apetece descobrir restaurantes simples e despretensiosos. Já tinha ouvido falar do "Tentações de Goa", um restaurante em plena Mouraria, perto do Martim Moniz, na Rua S. Pedro Mártir, uma ruela escondida por onde se entra a partir do fundo da Rua da Madalena. O espaço não é muito grande, a sala é simples mas vibrante de luz, a clientela é completamente diversificada, com boa dose de turistas. O serviço é muito simpático, os preços são honestos, quer na comida, quer nos vinhos. A confecção é naturalmente a puxar para o picante, mas nalguns casos pode indicar-se a intensidade pretendida. Comecemos pelas entradas - foram provados uns bons bojés, acompanhados do correspondente chutney de coentros, e umas surpreendentes chamuças de camarão. Nos pratos, testou-se o caril de camarão com quiabos, o caril de caranguejo e o biryani vegetal - tudo acima do que é a média de muitos restaurantes indianos da capital. A sobremesa, partilhada, foi uma babinca tradicional, talvez um pouco mais adocicada do que se esperava. Por mim, o destaque foi para as chamuças de camarão (que são bem picantes) e para o caril de caranguejo, que estava superior. O arroz basmati estava no ponto. As Tentações de Goa encerram aos Domingos e feriados, o telefone é o 218 875 824 ou 914 814 043 e aceita reservas.
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