Manuel  Falcão
Manuel Falcão 14 de fevereiro de 2020 às 11:18

Um congresso virado para o passado

Na semana passada, o PSD fez o seu primeiro congresso após uma grave derrota eleitoral, num panorama de aumento da abstenção, de descrédito generalizado no sistema político e partidário.
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Fazer coisas simples é muito complicado.
Martin Scorsese

Um congresso virado para o passado
Na semana passada, o PSD fez o seu primeiro congresso após uma grave derrota eleitoral, num panorama de aumento da abstenção, de descrédito generalizado no sistema político e partidário. Quem tivesse ouvido os dirigentes actuais do PSD acharia no entanto que estava tudo bem. Poucas intervenções tiveram a coragem de olhar para a cúpula social-democrata para dizerem: o Rei vai nu (ou o Rio vai seco)... Ironia à parte, a verdade é que faltou uma reflexão séria e organizada pelos poderes vigentes sobre o que provocou a derrota e o que faz com que o PSD tenha cada vez menos votos nas grandes cidades e nos eleitores mais jovens. A intervenção mais incisiva sobre estas matérias foi a de José Eduardo Martins, que chamou a atenção para a incapacidade demonstrada pelo seu partido em compreender como os tempos têm mudado, quais as aspirações dos eleitores mais novos, o que fazer para conquistar abstencionistas. Dei por mim a ouvir a sua intervenção (curta, sete minutos, disponível no YouTube) e a pensar que José Eduardo Martins é, na verdade, o líder que o PSD precisava para, como ele afirmou, deixar de "estar entalado entre uma direita reaccionária e uma esquerda folclórica", desenvolvendo um programa que combata na sociedade "as desigualdades que fazem as pessoas fugirem cada vez mais para os extremos". José Eduardo Martins não é, no entanto, um conspirador aparelhístico, é um adepto do reformismo na sociedade e no sistema político, e tem ideias claras que exprime de maneira frontal. Isto, num partido em que o aparelhismo é premiado, transforma-se num problema. Como ele disse, "as pessoas deixaram de votar no PSD, porque deixámos de acompanhar os tempos". Ou o sistema muda ou tudo vai ter tendência a piorar.

Semanada

Os empréstimos para compra de casa concedidos em 2019 foram os maiores dos últimos 10 anos e totalizaram 11,6 mil milhões de euros o preço das casas subiu, em dez anos, 4,5 vezes mais do que os salários arrendar uma casa em Lisboa exige uma taxa de esforço na ordem dos 58%, mais do que em Barcelona ou Berlim nos últimos quatro anos, o Governo cumpriu apenas 11% do plano Ferrovia 2020 em Portugal, foram importados no ano passado cerca de 80 mil veículos usados a diesel com uma média de idade de 5,5 anos a idade média dos automóveis ligeiros era de 12,7 anos no final do ano passado em 2019, ocorreram em Portugal mais mortes que nascimentos pelo 11.º ano consecutivo no ano passado, foram recebidas 676 denúncias de pornografia infantil: o tribunal da relação de Coimbra permitiu o regresso ao activo de um comandante da GNR condenado por aliciar uma menor com mensagens eróticas l segundo a Marktest, o número de utilizadores de internet em Portugal é de 6 milhões e 387 mil, o que corresponde a 74,6% da população e, desde 1997, a percentagem de utilizadores de internet aumentou quase 12 vezes também segundo a Marktest, há cerca de 5 milhões de ouvintes regulares de rádio, o que corresponde a um crescimento de 5% nos últimos dez anos e, entre as classes sociais, foi na média-alta que se observou maior incremento de ouvintes.


Dixit
"A Irlanda votou contra a austeridade que deteriora os serviços públicos, principalmente a saúde. A surpresa que aconteceu lá pode repetir-se em Portugal. PS e PSD que se cuidem."
André Abrantes do Amaral

Imagens do futuro
Gabriel Abrantes é um caso raro entre os criadores portugueses: as suas raízes estão no cinema, mas faz coexistir as imagens em movimento com pinturas, ilustrações e aguarelas, explorando várias técnicas. A sua carreira está marcada por curtas-metragens que mostraram um sentido de observação e humor pouco frequentes, várias delas premiadas internacionalmente. O seu trabalho cinematográfico caracteriza-se por se basear numa forma de narrativa inesperada que recorre ao absurdo, ao humor e à observação social e política. Ganhou notoriedade com o filme de longa-metragem "Diamantino", de 2018, sobre uma das estrelas do futebol português, mas a sua carreira no cinema começou com uma curta-metragem em 2006, tinha 22 anos. Abrantes nasceu nos Estados Unidos, em 1984, estudou arte em Nova Iorque e Paris. Esta semana, abriu no MAAT "Melancolia Programada", em que Abrantes faz coexistir os seus trabalhos enquanto artista plástico com os seus filmes. A exposição abre com uma série de aguarelas, intimistas e autobiográficas, e prossegue com seis ambientes distintos, cada um construído em torno de um dos seus filmes. Tem ainda outra sala onde está a pintura "As Banhistas". As novas pinturas do artista são realizadas a partir de imagens geradas por programas de animação digital, e mostram a forma como está a trabalhar na intersecção entre animação digital 3D, inteligência artificial e referências da história da arte. Na exposição do MAAT podem ser vistos vários filmes, desde logo o recente "Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre" que, como voz amiga comentava, é um "nonsense que faz sentido". Um dos pontos altos do percurso da exposição é a instalação criada para a exibição de "Visionary Iraq", uma curta de 2008. Outro filme em exibição é "Too Many Daddies, Mommies and Babies" (2009), que lhe valeu o Prémio Novos Artistas da Fundação EDP. A exposição, com curadoria de Inês Grosso, fica até 18 de Maio e é uma das melhores mostras que o MAAT tem organizado. "Melancolia Programada" está na Central Tejo, onde também poderá ver "Unharias Ratóricas," da dupla Von Calhau.

Episódios marxistas
Livros que contem histórias de bastidores e relatos sobre o que é a vida interna do PCP não são muito frequentes. Domingos Lopes, advogado, membro do gabinete de Álvaro Cunhal quando o líder comunista foi ministro de Estado nos governos pós-25 de Abril, publicou agora as suas "Memórias Escolhidas", numa edição da Guerra & Paz. No livro, relata as lutas académicas de Coimbra e Lisboa, o seu percurso na União dos Estudantes Comunistas, o trabalho no gabinete de Álvaro Cunhal, as suas responsabilidades políticas no Comité Central do partido até às divergências que o levaram a abandonar o PC em 2009. Ao longo de duas centenas de páginas, relata vários episódios, a sua vida como funcionário partidário, visitas à Coreia do Norte, à Mongólia e a Nova Iorque no âmbito do seu trabalho na Secção Internacional do PC - "por todo o mundo andei com o ideal às costas", como afirma. Há muitas pequenas histórias inéditas e uma das mais curiosas reporta-se aos incidentes na Faculdade de Direito de Lisboa que levaram ao saneamento de Cavaleiro Ferreira. Domingos Lopes conta, com detalhe, o clima de tensão entre os militantes do MRPP, que tinham peso na Faculdade, e os do PCP. Visto a esta distância, o relato do episódio faz sorrir, mas é um bom retrato das diferenças existentes. Este capítulo do livro termina com a evocação de uma conversa entre o então estudante Domingos Lopes, da UEC, e o assistente Marcelo Rebelo de Sousa: "O que é que ele tinha para me dizer? Uma coisa muito simples, ele estava totalmente do nosso lado, o que nos separava era o leninismo, considerava-se apenas marxista. Fiquei espantado com o desabafo e a rápida conversão de Marcelo ao marxismo", conta Domingos Lopes. E remata: "Este pequeníssimo episódio diz muito acerca das capacidades de manobra do então futuro Presidente da República. Marcelo, já em 1974, tinha no seu ADN esta faceta de ser o que é preciso em cada momento para surfar sem ir ao fundo, mesmo renegando o que era."

Arco da velha
Segundo especialistas da área dos transportes e aviação, o comprimento mínimo de segurança da pista de um aeroporto deverá ser de 2.450 metros e a pista prevista para o Montijo tem um máximo possível de 2.140 metros, não podendo ser aumentada.

Corpos imprevistos
Nádia Duvall tem-se afirmado como uma das mais interessantes novas artistas portuguesas e, em 2019, foi uma das vencedoras do prémio internacional Jovem Criação Europeia. Expõe desde 2006 e tem desenvolvido uma linha de trabalho em constante evolução, mas mantendo uma coerência que a leva a desenvolver a exploração de novas técnicas no seu trabalho. Por estes dias, apresenta "undressed machine", no Espaço Cultural das Mercês, Rua Cecílio de Sousa 94, junto ao jardim do Príncipe Real. Esta é uma exposição onde combina o desenho com a pintura, a escultura, a fotografia, a performance e o vídeo, em torno da ideia do corpo e das próteses a que pode recorrer para renascer - o corpo e a sua mutação têm sido um dos territórios recorrentes de trabalho de Nádia Duvall. Aqui, a narrativa combina histórias de amor com histórias de guerra e as transformações a que ambas sujeitam o corpo, dando espaço à sua redenção e à sobrevivência. A obra de Nádia Duvall é carregada de referências míticas, de reflexões autobiográficas e da permanente afirmação de um percurso criativo de ruptura e provocação. Outras sugestões da semana: na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq.), Rita Gaspar Vieira apresenta "Com A Mão Cheia de Pó" e Pedro Boese apresenta duas séries de gravura sob a designação "In A Row".

Tendências sonoras
A revista The Economist analisou recentemente os dados do Spotify, o mais popular serviço de streaming de música, sobre as preferências dos seus utilizadores. Actualmente, o Spotify tem disponíveis 50 milhões de títulos para os seus 270 milhões de utilizadores em 70 países, a maior parte dos quais na Europa e no continente americano. O sistema tem um algoritmo que analisa a sensação de energia e disposição provocada pela música numa escala de um a cem. Por exemplo, "Respect", de Aretha Franklin, tem uma classificação de 97 e "Creep", dos Radiohead, não passa dos 10. A The Economist analisou os dados e chegou à conclusão que Fevereiro é o mês em que os utilizadores do Spotify procuram canções mais tristes e Julho é o mês em que as canções mais enérgicas e dançáveis são as mais procuradas. O algoritmo considera, por exemplo, que "Make Me Feel My Love", de Adele, está na zona mais tristonha, que "Bridge Over Troubled Water", de Simon & Garfunkel, fica numa zona de melancolia, e que "I Put A Spell On You", de Nina Simone, está na transição para a energia. "Lucy In The Sky With Diamonds" é claramente vista de forma positiva, mas superada a grande distância, em matéria de indução de boa disposição, por "Shake It Off", de Taylor Swift. Os países latinos são aqueles em que a música alegre é mais procurada em qualquer estação do ano e Hong Kong, Filipinas, Estados Unidos e Noruega lideram a música mais melancólica.
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