Manuel  Falcão
Manuel Falcão 04 de janeiro de 2019 às 10:41

Votar em quem?

Este ano, há duas eleições - as europeias e as legislativas - e confesso que não sei em quem votar nem num caso, nem noutro.
Back to basics
A melhor forma de prever o futuro é participar na sua criação.
Abraham Lincoln

Votar em quem?
Este ano, há duas eleições - as europeias e as legislativas - e confesso que não sei em quem votar nem num caso, nem noutro. Partilho, há muito, da preocupação do Presidente da República, que, na sua mensagem de Ano Novo, pediu "políticas e políticos mais credíveis". Marcelo percebeu bem que cresce a desconfiança em relação aos partidos. Mas não é só uma desconfiança em relação aos seus dirigentes e aparelhos, é em relação ao que eles representam e ao modo como funcionam. Num passo interessante da sua mensagem, o Presidente da República, falando da constituição das listas eleitorais, apelou a que os candidatos analisem com cuidado o percurso passado. Lembrei-me particularmente desta frase quando constatei que uma das novas forças políticas que irá já a votos nas Europeias escolheu para seu cabeça de lista Paulo Sande, um indefectível de Bruxelas e dos seus organismos (dirigiu o Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa durante oito anos e é professor da Construção Europeia na Universidade Católica). Nem esta Aliança aproveitou a oportunidade que a sua tenra idade lhe dá para se demarcar do caos da União, da Comissão Europeia e do seu Parlamento - que, no conjunto, são uma das maiores fontes de desconfianças e de descréditos entre muitos eleitores de vários países. Ao proceder assim, o novo partido entregou o território anti-Bruxelas a populistas que surjam à espreita do descontentamento com a política agrícola e de pescas, com a política monetária, com o processo de decisão. O muro de Berlim caiu há 30 anos, mas o muro de Bruxelas está cada vez maior. E, no momento em que se olha para o que se passará com o Brexit, na cena política portuguesa não há no centro direita quem diga que o rei vai nu, despidinho de todo. Não me apetece nada votar nesta Europa e não sei em quem hei-de votar. Por este andar, a abstenção só pode aumentar.

Semanada
O número de mortes em acidentes rodoviários em 2018 foi o mais alto dos últimos 22 anos mais de 300 condutores foram detidos por excesso de álcool durante a operação de fiscalização do Ano Novo o endividamento na compra de automóvel cresceu para níveis anteriores à intervenção da troika e já atingiu 6,1 mil milhões de euros a dívida pública aumentou 400 milhões de euros em novembro, face a Outubro, para os 251,48 mil milhões de euros, atingindo um novo recorde os organismos públicos gastaram em 2018 pelo menos 15,1 milhões de euros na aquisição de bens e serviços para as festas de Natal e do fim de ano; segundo a Marktest, 45,4% dos portugueses que têm conta bancária utilizam Internet Banking, com um valor de 66,6% entre os indivíduos dos 25 aos 34 anos e 76,8% na classe alta/média em 2017, nasceram mais 1107 bebés que no ano anterior, mas o índice de natalidade continua baixo  quatro mil psicólogos e nutricionistas candidataram-se a 80 vagas no SNS com uma mensagem de oito minutos no YouTube, fortemente crítica para António Costa, Santana Lopes iniciou a campanha eleitoral da sua Aliança: "o sr. primeiro-ministro vive num país diferente daquele em que eu vivo" André Coelho Lima, um porta-voz social democrata, afirmou que "o PSD tem resistido - e vai continuar a resistir - a dizer mal de tudo" o Governo anunciou um novo plano de obras públicas quando falta fazer 80% do anterior.

Dixit
"Mais um ano a empurrar os problemas para o futuro."
Nuno Garoupa

O almanaque
Todos os anos, repito o ritual logo no início de Janeiro - compro o Borda D'Água, que se intitula como "o verdadeiro almanaque", com "reportório útil a toda a gente". Umas vezes compro-o na rua, outras vezes numa banca de jornais - foi o que aconteceu este ano e, aí, ouvi o experiente ardina dizer-me que "já houve anos em que voava, mas hoje já não se vende muito". O Borda D'Água completa agora 90 anos, é editado desde sempre pela Editorial Minerva e tem 24 páginas, com uma tiragem de 100 mil exemplares. Em cada mês tem indicações sobre a hora do nascer e pôr do sol, as fases da lua ao longo dos dias, assim como os santos evocados diariamente ao longo do mês. A folha mensal inclui um oráculo, com recomendações para homens e mulheres, assim como indicações sobre agricultura e jardinagem. Há ainda um mapa de feriados, uma recolha de ditos populares, um quadro com as fases da lua ao longo de todo o ano, tabela de marés, eclipses (em 2019 haverá cinco…), a visibilidade dos planetas e a entrada da lua nos signos do zodíaco, além de um calendário de festas e feiras que se realizam, mês a mês, por todo o país. Este ano de 2019 é regido por Marte, "trazendo consigo sentimentos competitivos e de conquista" - indicação que se pode ler na última página onde, além deste Juízo do Ano, se pode ler como nasceu e cresceu o "Borda D' Água", desde que surgiu há 90 anos pela mão de Manuel Rodrigues, fundador da Minerva, antigo impressor gráfico.

Arco da velha
O inquérito do Ministério Público aos 100 maiores devedores da Caixa Geral de Depósitos foi aberto em 2016, mas continua sem qualquer arguido constituído, apesar das suspeitas de gestão danosa na atribuição dos financiamentos, com créditos em incumprimento que ascendem a 2,5 mil milhões de euros.

Arte na rua
Volta e meia, a arte desce à rua, ao espaço público, e essa é sempre uma boa ideia. Por estes dias, mas por pouco tempo, ainda poderá ver uma fotografia de Jorge Molder, ampliada para grande dimensão (12x15 metros) na fachada do edifício da LACS, junto à Rocha do Conde de Óbidos, na empena virada para a Avenida 24 de Julho e que ali está exposta há cerca de seis meses (na imagem). Trata-se de uma iniciativa que o pólo criativo pretende repetir ao longo do tempo. A fotografia exposta faz parte da série "A Origem das Espécies", foi escolhida por Sandro Resende, curador e um dos fundadores do projecto de arte pública contemporânea BillBoard, que procura ocupar o que normalmente são espaços publicitários, usando-os como suporte de obras de arte, e que já realizou intervenções em Lisboa, Porto e Faro. Quando a fotografia criada por Jorge Molder sair daquele local (podendo eventualmente ser resposta noutro sítio) será substituída por uma peça de Pedro Cabrita Reis.

Sons sem rival
"Vanished Gardens" é um dos discos que mais me surpreendeu em 2018, e que só descobri já o ano ia muito adiantado. Vem assinado por uma junção inesperada: a voz de Lucinda Williams com Charles Lloyd & The Marvels (Bill Frisell na guitarra, Greg Leisz na pedal steel guitar, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria). Tudo nasceu quando a tradição country e pop de Lucinda Williams se cruzou com as sonoridades de blues e de jazz de Lloyd e dos seus músicos num concerto realizado na Universidade de Los Angeles em Abril de 2017. Meses depois, num estúdio, também em Los Angeles, juntaram-se para gravar "Vanished Gardens". Aqui e ali há influências de gospel, de folk, mas também de rock - um cocktail da música popular americana. "Dust", o segundo tema do álbum e o primeiro em que Williams canta, é de uma enorme intensidade e um exemplo do diálogo entre a voz de Williams e o saxofone de Lloyd. Trata-se de uma versão de um original de Lucinda Williams, tal como "Ventura" e "Unsuffer Me", também presentes neste disco que inclui ainda três originais de Lloyd, entre os quais a faixa-título. Em todo o disco é marcante o saxofone de Charles Lloyd, como aliás se testemunha na derradeira faixa, "Angel", versão de um original de Jimi Hendrix. Disponível no Spotify. Já agora, Charles Lloyd tem tido ao longo da sua vida numerosas colaborações com a música pop e o rock e, de certa forma, este é testemunho disso mesmo. Edição Blue Note disponível no Spotify.

Ásia junto ao rio
O Okah é um restaurante localizado no terraço do edifício do LACS, o pólo criativo localizado no antigo edifício do refeitório do Porto de Lisboa, junto à Rocha do Conde d'Óbidos. No mesmo terraço existe um bar e uma cafetaria, o Zazah - tudo criado a partir de um conjunto de contentores modificados que acolhem aqueles espaços. A primeira coisa é a vista extraordinária que dali se pode desfrutar. A segunda é a simpatia do serviço. E, por fim, quando chega a comida, percebemos que fizemos uma boa escolha. Apresentando-se como um restaurante de inspiração asiática, o Okah vai buscar ideias a várias gastronomias. Por exemplo, uma das entradas mais procuradas é amêijoas à Bulhão Pato, que se diferenciam por levarem uma mistura de especiarias indianas. Na lista das carnes, destaca-se um borrego neozelandês com puré de batata e molho de hortelã e um pica-pau asiático com lombo de novilho mal passado e cubinhos de ananás. Na lista do mar, destaque para uma dourada grelhada com molho de tamarindo, sobre legumes, e para uns camarões tigres escalados com um molho aromático que salvaguarda o sabor da carne do bicho, dando-lhe um toque inesperado, acompanhado por um couscous muito bem temperado. Lista de vinhos mediana que podia ter preços mais razoáveis. Esperemos que este Okah não se estrague. Lista Telefone 914 110 791.

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