Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 05 de agosto de 2018 às 21:28

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala sobre a turbulência no PSD, a saída de Santana Lopes do partido e a crise no Bloco de Esquerda, entre outros temas.

TURBULÊNCIA NO PSD

(Entrevista de Pedro Duarte)

 

  1.       Pedro Duarte não é deputado, tem vida própria fora da política e não tem manifestado interesse em cargos políticos. O que o leva então a dar esta entrevista? Duas razões principais:

a)      Primeiro: o mal-estar que hoje se vive no PSD. Mal-estar por causa das sondagens; por causa da imagem de que o PSD é muleta do PS; por causa da ideia de que o PSD já perdeu as próximas eleições. Com tanto mal-estar há terreno fértil para desafios desta ordem.

b)      Segundo: todos os adversários de Rio estão a marcar posição para o futuro. A preparar terreno para o período pós Rui Rio. Eles acham que Rio vai perder as eleições de 2019, que a seguir se vai abrir uma luta pela liderança e estão todos a posicionar-se para esse momento. Agora foi Pedro Duarte; antes foi Luís Montenegro; e no futuro ainda podem ser outros.

 

  1.       E que resposta dará Rui Rio a desafios como este? Rio vai certamente desvalorizar este desafio e não vai convocar eleições antecipadas dentro do partido. E, nesse particular, faz bem. Os mandatos devem ser cumpridos. Mas o líder do PSD devia fazer duas outras coisas: cuidar da unidade do Partido; e mudar a forma de fazer oposição.

a)      Primeiro: cuidar da unidade do partido. O partido precisa de tréguas. Ninguém ganha eleições com um partido dividido. E o mais afectado é o líder. Aos olhos dos eleitores, fica a ideia: se Rio não manda no partido, como há-de mandar no país? Por isso, Rio devia ser pró-activo na promoção da unidade do partido: devia ser agregador; devia ter capacidade de diálogo; devia fazer pontes dentro do partido. E os seus adversários deviam então responder positivamente. Ninguém ganha com um partido dividido.

b)      Segundo: mudar a forma de fazer oposição. Quem vê o PSD actual até parece que tem um pacto de não agressão com António Costa. A oposição que o PSD faz é muito frouxa. Rui Rio deixa o Governo à solta. É na Saúde, que está um caos; no serviço público de comboios, que está um desastre; na Educação, cheia de problemas; no caso Tancos, que é uma vergonha. Quem é que faz oposição? Ninguém. O PSD devia aproveitar estas férias para mudar de vida: ser mais firme e assertivo na oposição; mais claro e afirmativo na apresentação de alternativas.

 

 

SANTANA SAI DO PSD

 

  1.       Esta decisão de Santana Lopes não é boa nem para o PSD nem para Santana Lopes. Ambos vão perder.

a)      No imediato, perde o PSD. Primeiro, porque há 40 anos que não tem uma cisão e uma cisão é sempre uma cisão; depois, porque vai perder alguns votos. E, por pouco que seja (2%, 3% ou 4%), é mau para um partido que já só tem 27% nas sondagens.

b)      No curto e médio prazo é má para Santana Lopes. Não acredito que o seu partido tenha grande sucesso. Pode tirar alguns votos ao PSD e também ao CDS. Mas, no final, acho que o seu novo partido vai suscitar mais curiosidade que apoio popular.

 

  1.       Tomada a decisão, qual é o grande objectivo, a principal prioridade e a primeira consequência do novo partido de Santana Lopes?
  •          O grande objectivo é tentar que o seu novo partido venha a fazer parte da futura coligação de centro-direita que há-de, um dia, chegar ao poder. Em vez de ser uma coligação PSD/CDS, o que Santana quer é que seja PSD/CDS/Partido de Santana Lopes. Este é o seu grande objectivo. É por isso que sai do PSD e forma um novo partido.
  •          A prioridade vão ser as eleições europeias. É aí que Santana Lopes quer ter a primeira grande afirmação. Por isso, há-de apresentar-se seguramente como: um partido muito anti-europeu; muito nacionalista; com uma grande dose de populismo; virado para tentar capitalizar descontentamentos, internos e externos.
  •          O que vai obrigar o CDS a um discurso menos europeu, menos moderado e mais radical. Esta vai ser a primeira consequência. É que o PSD com Paulo Rangel à frente não mudará. E bem.

 

 

A CRISE DO BE

 

  1.       O caso Ricardo Robles foi péssimo para o próprio; mau para o Bloco de Esquerda; e bom para o PCP e o PS.

a)      Péssimo para Ricardo RoblesÉ um jovem com grandes qualidades e ambições. Poderia mesmo ambicionar a liderança. A verdade é que, com tudo o que se passou, o seu futuro político ficou seriamente comprometido.

b)     Mau para o BE e para Catarina MartinsEste foi o pior momento da vida política do Bloco e da sua líder. Catarina Martins andou literalmente aos bonés e aos ziguezagues. E cometeu um erro capital – não se ter demarcado de Robles desde o início.

  •          Se os líderes se vêem nos momentos difíceis, a verdade é que Catarina Martins falhou redondamente. Saiu muito chamuscada.
  •          O BE, esse, sai muito fragilizado. Perdeu a aura de um partido diferente. Essa era a sua grande força. Afinal, a partir de agora, é um partido igual aos outros. Vai sofrer com as próximas sondagens.

 

  1.       Ao contrário, este momento foi bom para o PCP e sobretudo para o Governo. O PCP ficou feliz (é conhecida a grande rivalidade que existe entre os dois partidos). Quanto ao PS saiu-lhe a sorte grande.
  •          Primeiro, porque este episódio fragiliza o BE em vésperas de discussão do Orçamento. No momento mais difícil para o Governo, o Bloco, em vez de estar mais forte, está mais fraco.
  •          Segundo, porque este episódio pode ter reflexos eleitorais. Pode levar muitos eleitores que oscilam entre o PS e o BE a preferirem o PS. Afinal o BE desiludiu. A sua mensagem pode continuar a mesma. Mas nunca mais terá a força e a credibilidade que tinham antes.
  •          Decididamente, o PM nasceu virado para a lua. Crise no BE; turbulência no PSD; e oposição que está quase sempre de férias!

 

O NEGÓCIO DO SIRESP

 

  1.       Um dos casos da semana. Um caso em que manifestamente o Governo prometeu e não cumpriu. Prometeu ficar com a maioria do capital da empresa e falhou redondamente.

 

  1.       O que mais impressionou nesta "palavra dada e palavra não honrada" são duas coisas:

a)      Primeiro: que o Governo, apesar de ter falhado ao seu compromisso, fuja a dar uma explicação convincente. São só explicações esfarrapadas. É uma falta de cultura democrática. Promete-se, não se cumpre o prometido, não se explica a falha, nem se pede desculpa pela publicidade enganosa.

b)      Segundo: que a oposição, na ausência do Governo, não explique a verdade do que se passou. E a verdade é tão simples quanto isto: o Governo falhou porque não foi competente. O Governo falhou porque, quando fez a promessa, há um ano, não tinha estudado o assunto, não tinha lido os estatutos do SIRESP, não se apercebeu de que a PT tinha um direito de preferência e que o podia exercer.

  •          Um Governo competente saberia que não podia fazer a promessa que fez, porque não dependia apenas de si conseguir a maioria do capital do SIRESP.

 

  1.       Mas este é, infelizmente, o padrão deste Governo. Primeiro, promete e depois logo se vê. Segundo, se falha, assobia para o ar à espera que o assunto seja esquecido e saia da agenda. Finalmente, se é mesmo obrigado a dar uma explicação, a culpa é sempre dos outros – do Governo anterior, da Europa, da Justiça. Seja de quem for. A sorte mesmo é ter uma oposição light. Uma oposição que não incomode. Com outra oposição, "outro galo cantaria".

 

 

SOARES E SÁ CARNEIRO NO PANTEÃO?

 

  1.       Nada tenho, bem pelo contrário, contra a ida de Mário Soares e de Sá Carneiro para o Panteão Nacional. O primeiro é, provavelmente, o político do pós 25 de Abril que mais merece esta homenagem; e o segundo teve uma carreira bem mais curta mas uma carreira de grande nobreza, influência e coragem, antes e depois do 25 de Abril.

 

  1.       Mas não concordo quanto à forma como as coisas estão a ser feitas. De forma aleatória e em cima do joelho. A lei vigente diz que só 20 anos depois da morte se pode decidir a trasladação dos restos mortais de uma determinada personalidade para o Panteão. Ora, PS e PSD querem agora abrir uma excepção para ex-Presidentes da República. Nestes casos, a decisão seria ao fim de 2 e não de 20 anos.

 

  1.       Aqui chegados, pergunta-se:

a)      Mas porquê uma excepção para ex- Presidentes da República? Por que não também para ex-Primeiros-Ministros? Ou para personalidades que se destacaram no estrangeiro? Ou para homens e mulheres da cultura especialmente influentes?

b)      Segundo: para uma decisão sobre ir ou não ir para o Panteão Nacional, o que deve contar são os feitos e não os cargos, são as obras e não as funções, são os exemplos e não os títulos. Confundir a estrada da Beira  com a beira da estrada não é muito edificante!

c)      Terceiro: nestas matérias, não se pode decidir com paixão e com emoção. Muito menos por impulso político ou partidário. É preciso tempo. É preciso distanciamento histórico. Doutra forma, corremos os risco de estar a banalizar uma homenagem que deve ser especialmente nobre e decidida com grande independência.

 

 

ANTEVISÃO DAS ELEIÇÕES EUROPEIAS

 

Estamos a menos de um ano das eleições europeias. Umas eleições em que se perspectivam grandes mudanças na política europeia. Vejamos quatro exemplos:

 

  1.       Primeiro: perspectiva-se um grande enfraquecimento dos dois grandes partidos do PE o PPE, onde se encontra o PSD; e o PSE, onde se filia o PS.
  •          O PSE é o que vai levar o maior rombo. Vai perder muitos deputados. Sobretudo nos grandes países – em Itália, França e Alemanha. Será uma grande razia;
  •          O PPE não terá um rombo tão grande. Mas também vai perder muito. Pode continuar a ser o maior partido do PE mas vai perder deputados e influência. E pode haver ainda cisão entre moderados e radicais.
  •          Nada será como dantes no PE.

 

  1.       Segundo: uma grande subida dos nacionalismos e uma quebra acentuada das forças europeístas.
  •          As forças anti-europeias vão sobretudo crescer no Grupo de Visegrado (Hungria, Polónia, Eslováquia e República Checa) e também na Áustria e em Itália.
  •          Vão apostar no tema da imigração; vão ter um apoio discreto de Putin; e vão ganhar uma força que nunca tiveram na Europa.

 

  1.       Terceiro: o PE vai ficar altamente fragmentado.
  •          Hoje o PE está muito marcado pelas duas grandes famílias europeias – o PPE e o PSE. São quase hegemónicos.
  •          No futuro, podemos vir a ter sete a oito grupos com grande força: o Grupo Macron, que surgirá de novo; a extrema-direita e a extrema-esquerda, que vão crescer muito; o PPE e o PSE que vão descer substancialmente; os Liberais e os Verdes; e os Conservadores, bem mais pequenos.
  •          Será um PE fragmentado e dividido como nunca.

 

  1.       Quarto: grande dificuldade de escolher o sucessor de Juncker.
  •          Com esta fragmentação, dificilmente o sucessor de Juncker será algum dos candidatos apresentados pelos partidos.
  •          Para passar no PE, a escolha do novo Presidente da Comissão Europeia vai obrigar a uma negociação longa e difícil e à escolha de uma terceira, quarta ou quinta via. Afinal, negociar com 7 ou 8 partidos é muito diferente de uma negociação a dois, como tem sido habitual.
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