Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 18 de novembro de 2018 às 21:22

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala sobre a polémica das touradas, o conflito com os professores e o Brexit, entre outros temas.

PORTUGAL NA LIGA DAS NAÇÕES

 

  1. Primeiro apontamentoPortugal é um justo vencedor. Mesmo sem Ronaldo, foi a melhor das três Selecções, no conjunto dos três jogos realizados.

 

  1. Segundo apontamentoPortugal fez história. Na primeira edição desta competição consegue os dois maiores objectivos: chegar à fase final e organizar a fase final em Portugal.

 

  1. Terceiro apontamentoA inteligência de Fernando Santos. O nosso seleccionador geriu com grande inteligência o dossier Ronaldo.
  • O momento da saída de Cristiano Ronaldo será sempre um choque. Depois do que aconteceu nesta Liga das Nações será menos choque.
  • Fernando Santos já preparou a saída. Já lhe retirou carga psicológica. Já habituou o país e o mundo à ideia de jogar sem Ronaldo. E até já ganhou sem Cristiano Ronaldo.
  • Chama-se a isto ter visão estratégica. Sabe gerir o presente com os olhos bem firmes no futuro.

 

BRUNO DE CARVALHO E A JUSTIÇA

 

Em todo este caso do ataque a Alcochete, há aspectos negativos e positivos:

 

  1. Aspectos negativosA acção infeliz do MP e do Juiz de Instrução
  2. Primeiro casoA detenção de Bruno de Carvalho. Foi feita num dia que não é habitual (um domingo). Indiciava-se, assim, que havia urgência neste interrogatório. Depois, como se viu, foi só ouvido na 4ª feira. Pergunta-se: qual era, afinal, a pressa? É aceitável que se tenha uma pessoa detida três noites seguidas à espera que o Juiz tenha agenda para o ouvir? Humilhando-se uma pessoa e os seus familiares? Só para que a justiça faça o seu circo? Esta estratégia do quero, posso e mando não é aceitável.
  3. Segundo caso O Juiz de Instrução diz no seu despacho que Bruno de Carvalho aguarda julgamento em liberdade apesar de haver "risco de continuação de actividade criminosa" e "risco de perturbação das investigações". Só pode estar a brincar com o "pagode".
  • Então há neste momento algum risco de um novo ataque a Alcochete? Só num filme de ficção científica.
  • Então há o risco de perturbação das investigações? Mas qual risco, se as investigações terminaram e a acusação foi deduzida? Deve estar a brincar connosco. Se Bruno de Carvalho quis destruir provas teve mais que tempo para o fazer e aí ninguém se preocupou.
  1. Terceiro caso de infelicidade da justiça – O MP pretendeu que este processo fosse considerado de elevada complexidade, para ter mais tempo de investigação. Mas, como só se lembrou em cima da hora, já não foi a tempo de o conseguir. E o Juiz de Instrução chegou a deferir a pretensão do MP, mas, como se esqueceu de ouvir os advogados das partes contrárias, foi obrigado a revogar a sua decisão.
  • Isto é aceitável? Tanta falha e tanto erro ao mesmo tempo? Tudo isto dá uma perigosa sensação de precipitação.

 

  1. Aspectos positivosA acusação e as claques
  2. Primeiro, a acusação. Depois de todas estas infelicidades, o MP deduziu acusação contra várias pessoas. Ainda bem. Este caso é gravíssimo e exige um julgamento rápido e rigoroso.
  3. Depois, as claques. Como se tem visto, no Sporting, no Benfica e no Porto, as claques têm sido duas coisas, ambas inaceitáveis: guardas pretorianas dos Presidentes dos Clubes; e escolas de violência e de crime.
  • Isto tem de acabar. Depois de Alcochete, nada pode ficar como dantes. Esta é uma oportunidade única para mudar de vida.
  • A boa notícia é que o Governo parece, finalmente, ir avançar com legislação para pôr alguma ordem nas claques.
  • A má notícia é que os Presidentes dos Clubes continuam ainda muito complacentes com as claques. Por omissão, são os culpados do estado em que estamos.

 

 

A POLÉMICA DAS TOURADAS

 

  1. Ao contrário do que foi dito, as posições contraditórias de António Costa e Carlos César não foram nem uma encenação nem uma descoordenação. Foram, sim, uma divergência deliberadamente assumida por Carlos César.

 

  1. Uma divergência deliberadamente assumida que tem na sua base três razões cumulativas: arrogância, mal-estar e peso político.
  2. Primeiro, arrogância. Todo este lamentável episódio começou em mais um gesto de arrogância do Governo. Neste caso, da Ministra da Cultura. Ao considerar que não baixava o IVA da tauromaquia por razões de civilização, a Ministra da Cultura exibiu uma enorme arrogância moral e intelectual. E isso gerou enormes anticorpos no PS e no seu Grupo Parlamentar.
  3. A seguir, mal-estar. Este episódio revela também que há algum mal-estar entre António Costa e Carlos César. Mal-estar que não é apenas por causa das touradas. Vem de trás. Se não existisse algum mal-estar anterior, Carlos César não teria feito o desafio que fez ao Governo. E, se o tivesse feito, teria avisado previamente António Costa. E porquê esse mal-estar? Porque o PM é useiro e vezeiro em tudo fazer e em tudo decidir sem "dar cavaco" a ninguém. E há pessoas que não apreciam esse estilo.
  4. Finalmente, peso político. Este episódio é único – não conheço um caso de um líder parlamentar que desafia o líder do partido, ainda por cima PM. Isto só é possível porque Carlos César tem um enorme peso político. Só uma pessoa com grande peso político faz um desafio destes. E só uma pessoa com grande peso político obriga Costa a recuar. Sim, porque o PM já recuou. Anteontem, tinha dito que estas matérias exigem disciplina de voto. Ontem, recuou, dizendo que se congratulava com a liberdade de voto.

Ou seja: Carlos César exibiu o seu peso político para fazer um aviso ao PM. Nada disto gera qualquer crise dentro do PS. Afinal, não passa de um arrufo entre camaradas. Mas é um sintoma de algum mal-estar.

 

  1. No final é um episódio mau para todos. Mau para a Ministra da Cultura que sai fragilizada. Mau para o PM que ficou desautorizado. Mau para o Governo porque se abre um precedente. E mau para Carlos César. É suposto um líder parlamentar ser factor de solução e não factor de problema.

 

O CONFLITO COM OS PROFESSORES

 

  1. No conflito entre o Governo e os professores não há na substância nada de novo. Mas há, nas atitudes, uma enorme hipocrisia política.
  2. Hipocrisia da parte do PCP e do BEDizem estar ao lado dos professores. Mas deixam passar o OE sem resolverem o problema dos professores. Podiam bloquear o Orçamento. Mas não bloqueiam.
  3. Hipocrisia da parte do PSDTambém diz que concorda com os professores e que discorda do Governo. Mas, no momento da verdade, não junta os seus votos para fazer passar uma solução no Parlamento. O que propõe é que se retomem as negociações.
  4. Ou seja: na prática, todos estão a "usar" os professores como arma de arremesso político e como instrumento eleitoral. Primeiro, porque querem os seus votos. Depois, porque o conflito lhes dá jeito para atacarem o Governo.

 

  1. Em boa verdade, os professores são vítimas:
  2. Da irresponsabilidade do Governo, que criou uma expectativa e depois falhou;
  3. Do radicalismo dos Sindicatos, que, em vez de procurarem uma solução pela via negocial, apostaram levianamente no tudo ou nada;
  4. Da hipocrisia dos partidos, que querem os votos dos professores mas não querem uma solução para o seu problema.
  5. E tudo isto acaba por gerar, isso sim, instabilidade e mal-estar nas escolas.

 

A SONDAGEM SIC/EXPRESSO

 

  1. Primeiro apontamento: é a última sondagem ainda sem o novo partido de Santana Lopes. O que significa que é mais um sinal de alarme para o PSD. Se ainda, sem contar com a Aliança, o PSD está nos 27%, como ficará quando se contabilizar o novo partido?

 

  1. Segundo apontamento: com mais caso e menos caso, a verdade é que o PS continua a subir e está já nos 42%. Deixando o PSD a 15 pontos de distância e ficando mesmo à beira da maioria absoluta. Isto sucede porquê? Porque há economia e porque não há política. Ou seja, as pessoas vivem hoje melhor do que no passado; e os cidadãos não vêem na oposição uma alternativa.

 

  1. Terceiro apontamento: os demais partidos, mais décima, menos décima, estão na mesma. O PCP estável. O CDS e o BE sem conseguirem descolar.

 

  1. Último apontamento: a nova originalidade do PSD. O PSD, falando de sondagens e resultados eleitorais, está a seguir uma estratégia suicida. As últimas declarações do líder e do Secretário-Geral são: se o partido se mantiver dividido, o resultado vai ser um desastre.
  • Um comentador pode dizer isso. Está a fazer análise política.
  • Na boca de um dirigente, esta declaração significa duas coisas: primeiro, antecipar a derrota e atirar a toalha ao chão; depois, tentar apenas encontrar uma explicação para a derrota.
  • Em vez desta originalidade (um partido confessar a derrota a 10 meses de eleições) o que a Direcção do PSD devia fazer era lançar pontes para unir o partido e preparar uma alternativa.

 

A ECONOMIA A ABRANDAR

 

  1. O INE divulgou esta semana os dados da evolução da economia no 3º trimestre do ano. Há aqui três partes distintas:
  2. Primeiro, uma parte boa: estamos a crescer ligeiramente acima da UE e da Zona Euro. Logo, estamos a convergir. É bom.
  3. Segundo, uma parte menos boa: vamos acabar o ano provavelmente a crescer menos do que previa o Governo. Menos bom.
  4. Terceiro, uma parte má: é que na Europa só há 5 países a crescer menos do que nós. A esmagadora maioria está a crescer o dobro e até o triplo de Portugal. E os países que são do nosso campeonato estão todos a crescer muito Assim, não saímos da cauda da Europa.

 

  1. O pior é que estamos a desperdiçar uma oportunidade histórica. Aqui, no sul da Europa, temos excelentes condições para atrair grandes investidores.
  • Temos estabilidade, segurança e contas certas – São realidades que os investidores apreciam.
  • Não temos os problemas de separatismo que tem a Espanha; não temos a confusão que tem a Itália; não somos o caso perdido que é a Grécia.
  • É pena que não aproveitemos esta oportunidade histórica, fazendo o trabalho de casa que se impõe: ter políticas correctas de aposta no investimento e não no consumo; ter investimento público reprodutivo; ter uma política fiscal competitiva.

 

O BREXIT

 

  1. Ao que está a suceder no RU chama-se brincar com o fogo.
  2. O RU brincou com o fogo quando o seu PM, David Cameron, decidiu fazer um referendo. Para tentar resolver um problema partidário dentro dos Conservadores, lançou o RU numa das aventuras mais perigosas da sua história.
  3. O RU brincou com o fogo quando decidiu sair da UE. Os defensores do Brexit prometeram um RU mais forte. Afinal está mais fraco. Prometeram acordos de comércio com outros países. Ninguém os vê. Alimentaram a ilusão do regresso ao Império do século XIX. O que estão é hoje mais isolados do que nunca. O RU falhou. A prova do falhanço é que quase todos os principais políticos do Brexit se demitem e fogem de assumir responsabilidades.
  4. O RU brincou com o fogo a negociar com a UE. De um lado viu-se uma UE unida, com posições claras e com uma liderança firma. Do outro lado, viu-se um RU dividido, sem saber o que queria e com dois Ministros para o Brexit que se demitiram. Com a agravante de que o último fechou a negociação e demitiu-se a seguir, alegando que o acordo era mau. Isto só não é comédia porque pode redundar em tragédia.
  5. E continuam a brincar com o fogo ao quererem chumbar o acordo. Pior que um acordo é não haver acordo nenhum. Pior que a saída é uma saída desordenada. Pode não ser boa solução para a Europa. Mas para o RU é uma verdadeira catástrofe.

 

  1. Em conclusão: o RU brincou e continua a brincar com o fogo. Não se percebe o que vai ganhar com a saída. Mas os que ficam já perceberam o que tinham a perder se decidissem sair. Veja-se o exemplo da Irlanda. Um país pequeno, só porque está dentro da UE, conseguiu impor as condições que pretendia. Uma boa lição para Portugal. Dentro da UEE somos fortes. Fora, seriamos fracos.
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