Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 22 de setembro de 2019 às 20:57

Marques Mendes: António Costa corre o risco de ser um Guterres 2

O comentador analisa hoje a demissão do Secretário de Estado; O debate Costa/Rio; a maioria absoluta mais longe? e a polémica da carne de vaca.

A DEMISSÃO DO SECRETÁRIO DE ESTADO

 

  1. Esta demissão sucedeu agora mas já devia ter sucedido em Agosto. É, pois, uma demissão tardia. Responsabilidade do próprio, do MAI e do PM.
Do próprio – Se tivesse saído em Agosto, teria saído pelo seu pé e com dignidade. Agora, saiu pela porta pequena, empurrado pela Justiça.

Do MAI Em Agosto, Eduardo Cabrita não via problema nenhum. A culpa da polémica era dos jornalistas e comentadores. Agora, tem um Secretário de Estado demitido e um Presidente da ANPC arguido. Fantástico!

Do PMNestas matérias, o PM anda sempre atrás dos acontecimentos. Depois sofre as consequências. Esta demissão em Agosto não teria grande impacto. Agora, é um factor de perturbação da campanha eleitoral do PS.

 

  1. Entretanto, noutra questão ligada a esta, o PM teve uma vitória. O parecer do CC da PGR veio dar-lhe razão na lei das incompatibilidades dos governantes.

A questão merece, porém, uma outra reflexão: em todos os governos há sempre problemas de incompatibilidades e conflitos de interesses com governantes. Veja-se o que se passou com Manuel Pinho na sua ligação ao BES;  ou os casos de Siza Vieira e do Secretário de Estado do Desporto. Em governos anteriores já sucedeu o mesmo. Isto mina a confiança das pessoas nos políticos.

Quero aqui deixar uma sugestão para ajudar a mudar esta situação:

  • Antes de tomarem posse, os Ministros e os Secretários de Estado deveriam passar obrigatoriamente por uma audição parlamentar para se verificar se do seu passado pessoal ou profissional resulta alguma incompatibilidade ou conflito de interesse.
  • É o que está a passar-se no Parlamento Europeu com a avaliação dos Comissários. Veja-se o "caso" Elisa Ferreira. Por que não importar para Portugal esta boa prática europeia?
  • Este escrutínio reforçaria a credibilidade dos políticos e da nossa democracia.

 

O DEBATE COSTA/RIO

 

  1. Amanhã teremos – desta vez, nas rádios – o segundo debate Costa/Rio. Quanto ao primeiro, sucedeu o mesmo que há 14 anos: quando muitos pensavam que o favorito era o PM, quem ganhou o debate foi o líder da oposição.

Rui Rio ganhou claramente. E não foi apenas porque tinha expectativas baixas e as superou. Foi, sobretudo, por duas outras razões:


Primeiro: Rui Rio esteve ao ataque, teve quase sempre a iniciativa política
, foi assertivo e colocou várias vezes o PM em dificuldade;

Segundo: Rui Rio centrou-se nos três temas que são os calcanhares de Aquiles do Governo
: os impostos (há carga fiscal a mais); a saúde (há investimento a menos); e o crescimento económico (é sobretudo fruto da conjuntura e inferior aos países do nosso campeonato).

 

  1. António Costa, por sua vez, esteve apático, sem acutilância e sem instinto "matador". Há quem diga que foi táctica. Eu diria: se foi táctica, foi uma má táctica. Se não foi táctica, é caso para dizer que não estava nos seus melhores dias. Sucede a todos.

 

  1. Tal como não há almoços grátis, também não há debates sem consequências. Deste debate resultou uma consequência clara: Rui Rio ganhou dinâmica, motivou as suas tropas e conquistou votos em indecisos da área do PSD. Mesmo assim, ainda está distante dos 27% de Mota Pinto (1983) e dos 28% de Santana Lopes (2005). No futuro, pode haver outra consequência, esta para Costa: ser mais difícil o objectivo da maioria absoluta. Antes, os especialistas falavam num mínimo de 39% para a maioria. Agora, admitem que o patamar mínimo subiu para 40%. 

 

 

MAIORIA ABSOLUTA MAIS LONGE?

 

  1. Já disse na semana passada e volto a reafirmar – o PS está próximo mas não tem a maioria absoluta garantida. Obter uma maioria absoluta não é fácil. Se a quiser mesmo, o PS tem de se concentrar em três objectivos:
  • Primeiro: criar um clima de tensão política. Não é fazer chantagem ou dramatização. É gerar mobilização. E isto não se obtém passando o tempo a "fazer-se de morto", como nos debates.
  • Segundo: apostar forte na ideia de estabilidade. Os portugueses só dão maioria a um partido se perceberem que isso é bom para evitar crises e reforçar a estabilidade. Os sinais de crise que vêm lá de fora e as dificuldades de aprovação de orçamentos cá dentro são relevantes. Mas têm de ser chamados ao debate.
  • Terceiro: explicar aos eleitores para que se quer um PS forte (leia-se, para que se quer um PS com maioria). É preciso explicar quais são os desafios e as ambições do futuro. Quais são as reformas a realizar. Não chega falar do que se fez. É preciso mobilizar para o que falta fazer.

Se seguir outro caminho, António Costa arrisca-se a ser um Guterres 2. Guterres "morreu" ao pé da praia. Teve todas as condições para obter uma maioria mas falhou pela campanha que fez.

 

  1. Finalmente, duas palavras sobre a economia na campanha eleitoral.
Primeira: faz impressão a leviandade que paira nesta campanha. Os sinais de crises são mais do que muitos (o Brexit, a provável recessão na Alemanha, a guerra comercial EUA/China, a instabilidade em Espanha). Todavia, a generalidade dos líderes fala como se Portugal pudesse ser um oásis;

Segundo: faz impressão a ligeireza das promessas. A maior parte das promessas que estão a ser feitas dificilmente será cumprida. Baixar impostos em catadupa; aumentar em força a despesa na saúde; reforçar a sério o investimento público e os salários na função pública; e manter o défice sob controle – tudo isto, com o tempo que aí vem, é ficção científica. É enganar os eleitores.



A POLÉMICA DA CARNE DE VACA

 

  1. Esta medida do Reitor da Universidade de Coimbra é um exercício de hipocrisia.
Primeiro: a grande preocupação do reitor não foi ambiental. Foi economicista. O que ele quis foi poupar dinheiro porque o orçamento da Universidade está a romper pelas costuras.

Segundo: depois, a sua preocupação foi mediática
. Ter o seu minuto de glória nas televisões e nos media. Se dissesse "vamos reduzir o consumo de carne" em vez de "proibir" – que seria a atitude certa – não seria uma vedeta mediática.

Terceiro: uma preocupação de falta de justiça
. Os estudantes sem dinheiro passam a não comer carne nas cantinas. Os que têm dinheiro (incluindo os filhos do reitor) vêm cá fora comer um prego ou um bitoque.

Quarto: tudo isto é não ter a noção do ridículo: a universidade gasta 20 toneladas por ano com 14 cantinas; os estudantes são 20 mil, a que acrescem os docentes e pessoal auxiliar. Isto dá cerca de 1kg de carne por ano e por pessoa. Cerca de 20g por semana. Dá para 4, 5 almôndegas por mês
. Simplesmente ridículo!

Finalmente, o exercício da maior hipocrisia: o plástico. Por que é que o Reitor não se preocupou em proibir os copos de plástico que todos os anos inundam a universidade na queima das fitas? Isso, sim, seria coragem!

 

  1. Finalmente, o comentário do Governo: o Ministro do Ambiente apoia. O Ministro da Agricultura critica. Temos de concluir: o espírito Ricardo Araújo Pereira definitivamente invadiu o Governo
  1. Mas, atenção! Isto é um sinal dos tempos. Com o tema ambiental na agenda, e bem, há dois tipos de atitudes, ambas radicais – de um lado, os que dizem que o ambiente é importante mas na prática querem deixar tudo na mesma e quem paga a factura são os nossos filhos e netos; do outro lado, os que querem apenas fazer uns fogachos mediáticos. Do que nós precisamos é de acção determinada, temperada com equilíbrio, proporcionalidade, educação ambiental e fundamentação científica e racional.
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