Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 20 de outubro de 2019 às 21:20

Rui Rio está prestes a assumir a sua candidatura ao PSD

No seu habitual comentário na SIC, Marques Mendes faz uma avaliação da composição do próximo Governo, aborda os candidatos à liderança do PSD e do CDS, entre outros assuntos.

BREXIT

  1. É a confusão total. Num dia, há acordo. Noutro dia, ainda não há. Numa tarde, não se pede adiamento. À noite, pede-se um adiamento bizarro. E agora?
  • Cenário positivo – Londres aprova o acordo e a legislação que o executa. O PE aprova-o até 31 de Outubro. Brexit dentro do prazo e com acordo.
  • Cenário negativo – Não se aprova o acordo. A legislação de execução tem alterações em pontos essenciais. O PE atrasa o processo. Brexit adiado.

  1. Leitura política - Dois vencedores e dois vencidos:
Primeiro vencedor – Boris Johnson. Ele perde no Parlamento. Mas ganha no país. Afinal, cumpriu a palavra – por ele houve acordo com Bruxelas e por ele a saída ocorreria a 31 de Outubro. Está em alta nas sondagens. Pode ter maioria absoluta em próximas eleições.

Segundo vencedor
os irlandeses. Este acordo, celebrado entre os PM do RU e da Irlanda, torna a Irlanda do Norte mais próxima da UE e mais distante do RU, o que abre caminho a prazo à reunificação das duas Irlandas.

Primeiro vencido – o RU
. No imediato, sai desprestigiado. No futuro, pode desintegrar-se, com a Escócia a tornar-se independente e a Irlanda do Norte a reunificar-se com a República da Irlanda.

O segundo vencido – a União Europeia
. Há três anos está paralisada, só trata de Brexit, não tem agenda de futuro e deixa acumular problemas sérios:
  • Primeiro: a divisão leste/oeste é cada vez mais preocupante;
  • Segundo: as migrações são um problema adiado mas não resolvido;
  • Terceiro: em termos de política externa e de defesa, a UE é cada vez mais irrelevante (como se voltou a ver agora na sua total impotência perante o conflito da Turquia com os Curdos na Síria);
  • Quarto: em termos económicos, a UE funciona a duas velocidades – o Leste vai crescendo, o Ocidente está praticamente estagnado:
  • E, finalmente, se o Brexit se concretiza e se corre bem ao RU, a UE corre o risco de ver outros países a seguirem este precedente.


A CRISE DA CATALUNHA
 

  1. Esta semana confirmou o que qualquer pessoa de bom senso já percebeu há muito tempo – que o problema da Catalunha é um problema político e não judicial. E que os problemas políticos têm de ser resolvidos pelos políticos e não pelos juízes. Os tribunais, ao contrário, só podem agravar o problema – criando vítimas, gerando mártires e reforçando o sentimento independentista.

 

  1. Claro que a culpa não é dos tribunais. Como a Espanha é um Estado de Direito e aos juízes só cumpre aplicar a lei, ao Supremo Tribunal não restava alternativa que não fosse a de condenar quem prevaricou. Todos, em Espanha e na Catalunha, sabem que isto ia acontecer, incluindo todos os que foram condenados. Eles sabem que cometeram um crime. Por isso, não são presos políticos. São políticos presos, o que é uma coisa bem diferente.

 

  1. A culpa é, sim, da generalidade dos políticos – nacionais e regionais – que deixaram chegar a situação a este ponto, que a remeteram para a justiça e que se mostram incapazes de dialogar entre si. Este conflito só tem solução:
  2. Primeiro: pela via política, consumada através do diálogo entre as autoridades de Madrid e de Barcelona;
  1. Segundo: pela renegociação de um novo paradigma de organização de Espanha, seja pela criação de um Estado Federal, seja pela aprovação de um novo estatuto autonómico. Tudo o resto é adiar o problema. E adiar nunca é resolver.

  

AVALIAÇÃO DO GOVERNO

 

  1. A primeira decisão de António Costa foi também o seu primeiro erro político. Este Governo tem, naturalmente, aspetos positivos. Mas os aspetos negativos são mais e sobretudo são mais profundos que os positivos. Vamos por partes.
  2. Aspectos positivos:
  • Governo quase paritário. Tem 8 Ministras num total de 19.
  • Ana Mendes Godinho – Surpresa competente. Vai surpreender sobretudo na concertação social.
  • Ana Abrunhosa – Uma boa novidade. Domina bem a questão dos fundos comunitários.
  • Alexandra Leitão – Uma aposta consistente e com um ministério forte. Desde logo porque – digo-o em primeira mão – vai ficar com as autarquias, que saem do ministério de Eduardo Cabrita.
  • Pedro Nuno Santos e Matos Fernandes reforçados. São dois dos melhores Ministros. Não subiram na hierarquia mas isso é irrelevante. Dentro do Governo as hierarquias valem pouco – o que vale são os poderes que têm e o peso político que ostentam.
  1. Aspectos negativos:
  • Um governo "velho" num ciclo novo (só duas caras novas). Sabe a muito pouco. Uma oportunidade perdida.
  • Ministros a mais – Menor coesão e eficácia. Com tantos ministros, o PM nem tem tempo para despachar com eles.
  • Ministros desgastados mantêm-se (Saúde, Educação, Ciência). É outra desilusão. Um problema que se agrava.
  • Mais PS e menos sociedade civil – É um Governo de fiéis do PM. Um Governo onde faltam, por exemplo, pessoas das empresas. Parece um Governo do Estado e não do País.
  • Pastas duplicadas (Planeamento e Coesão) e amputadas (Agricultura e Mar). O Planeamento e a Coesão vão tratar dos mesmos temas (Fundos). Uma duplicação que só pode gerar conflitos. No Mar, o novo Ministro perde os portos. Na Agricultura, a nova Ministra perde as florestas. São dois Ministros diminuídos à partida.
  • Desconsideração de Centeno. Atrás de Siza Vieira e da Mariana Vieira da Silva, Mário Centeno é desconsiderado. Não é bonito em relação àquele que até há pouco era o maior trunfo do Governo. Mas, como as hierarquias não contam à mesa do Conselho de Ministros e a vingança se serve fria, Centeno continuará a mandar no Governo.

 

  1. Por que é que a composição deste Governo é um erro político?
Primeiro: fica a sensação de que Governo verdadeiro é o que virá mais tarde, em 2021. Este é um remendo transitório. Esta imagem é fatal.

Segundo: depois de uma vitória eleitoral pífia face às expectativas, era preciso um Governo novo e forte. Ora este é mais do mesmo.

Terceiro: para governar sem acordos no Parlamento, era preciso um Governo de combate. Só que o combate faz-se com políticos e com energia renovada. Tudo o que falta a este Governo.

Quarto: a primeira parte da legislatura, até 2021, é a mais difícil
. Era nesta fase, pois, que o PM mais devia investir, apostando as suas "fichas" principais. Não há segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão.

Quinto: Siza Vieira a número dois do Governo nem é reforço do núcleo político do Governo nem é valorização da economia. Primeiro
, porque este Ministro não é um político, não tem perfil político nem tem peso político próprio. Depois, porque só por bacoquice é que se pode pensar que a economia vai ter mais força por uma questão de arrumação hierárquica. Os títulos não fazem uma função nem definem uma política.

  

A CRISE DO CDS

 

  1. O CDS tem uma situação sui generis: os principais candidatos à liderança ainda não se assumiram; mas já tem cinco ou seis militantes que declinaram a ideia de serem candidatos, o que dá uma imagem terrível de debandada. Salva-se, no meio disto tudo, uma boa notícia – Cecília Meireles, excelente deputada, vai ser a próxima líder parlamentar.

 

  1. Posto isto, o CDS tem pela frente um caminho muito estreito.
Primeiro: tem um problema ideológico por resolver: de um lado, tem uma linha mais centrista (até agora protagonizada por Assunção Cristas); do outro lado, tem uma linha mais de direita, embora direita democrática e moderada, protagonizada pelo líder da JP Francisco Rodrigues dos Santos;

Segundo: é um partido que tem muitos quadros políticos, mas falta-lhe povo. E, se continuam a discutir à exaustão se são democratas cristãos, liberais ou conservadores, correm o risco de o povo que resta fugir para outras paragens.

Terceiro: é um partido sem implantação autárquica relevante no país. Já a teve mas foi-a perdendo.

Quarto: corre o risco de ficar "ensanduichado" no Parlamento, com o advento do Chega e da Iniciativa Liberal
. As ideias radicais de um e as ideias liberais do outro podem perturbar o caminho do CDS e conquistar os seus eleitores.

Finalmente
: numa futura coligação com o PSD, a relação passou a ser de 1 para 7. Mais um problema sério para o CDS.

 

  1. Os principais candidatos à liderança ainda não se assumiram. Mas há sinais claros:
  • João Almeida – Deu sinal logo a seguir às eleições e tem carisma.
  • Filipe Lobo d´Ávila – Já deu sinais há bastante tempo e tem talento político.
  • Francisco Rodrigues dos Santos – Deu sinal no último Conselho Nacional, ao expor a ideia dos 3 R – Renovar, Reestruturar, Reposicionar.

 

 

A LIDERANÇA DO PSD

 

  1. Primeiro apontamento: mais um candidatura à liderança – a de Miguel Pinto Luz. Era esperada, foi apresentada de forma interessante e inovadora e, embora seja sobretudo para marcar uma posição, pode ser útil. No plano pessoal, porque Miguel Pinto Luz é um bom quadro político e no plano das ideias.

 

  1. Segundo apontamento: Luís Montenegro teve um apoio importante – o de Maria Luís Albuquerque. É uma pessoa com influência e simpatia nos militantes. Uma pessoa que muitos até já chegaram a vaticinar como podendo ser líder do Partido.

 

  1. Terceiro apontamento: Rui Rio está prestes a assumir também a sua candidatura, a qual já está mais que decidida. É bom porque é clarificador. Mais um sinal disso mesmo foi o desmentido que Rio deixou no Twitter, desmentindo uma "tontice" que alguém da direção do PSD passou para o Expresso, dizendo que até às diretas o PSD não negociaria com o PS.

 

  1. Quarto apontamento: tudo aponta para a probabilidade de, pela primeira vez na história do Partido, haver uma eleição a 2 voltas. Em teoria, Rui Rio tem vantagem à primeira volta. Mas, se tiver de disputar uma segunda volta, os votos conjugados de Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz podem criar-lhe sérias dificuldades na segunda votação.

 

 

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